Economias dos países que compõem o Bric são muito diferentes

Chris Giles (Londres), Jami Anderlini (Pequim), Isabel Gorst (Moscou), Jonathan Wheatley (São Paulo)

Os Brics, que se reúnem pela primeira vez hoje em Yekaterinburg, Rússia, quase certamente são o primeiro bloco multilateral criado por analistas de um banco de investimentos e sua equipe de vendas.

Jim O'Neill, economista chefe do Goldman Sachs, cunhou a sigla em 2001 para referir-se às maiores economias em desenvolvimento do mundo - Brasil, Rússia, Índia e China - e explicar como iam formatar a globalização nos 50 anos seguintes, quando dominariam a economia global, segundo ele.

Uma das principais conclusões foi que, no início deste século, a economia global não ia mais se resumir simplesmente às grandes economias avançadas. Tampouco as questões de política global, tais como moedas, desequilíbrios comerciais ou mudança climática, poderiam ser costuradas em acordos do Grupo dos Oito - EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Canadá e Rússia.

O crescimento das economias dos Brics é demonstrado pela duplicação de sua participação na produção mundial, que foi de 7,5% em 1998 a mais de 15% em 2008, seguindo o câmbio do mercado. Sua percentagem da população global e de terras são ainda maiores, levando O'Neill a dizer mais recentemente que cunhou o acrônimo Bric, (similar à palavra para tijolo em inglês "brick"), porque os países são agora "parte do 'tijolo' da economia moderna mundial".

Contudo, pode-se discutir se os Brics têm algo em comum além de seu tamanho e potencial econômico. As estruturas das quatro economias são muito diferentes, com o Brasil se especializando em agricultura, Rússia em commodities, Índia em serviços e a China em manufatura. Sua experiência na recessão global tem sido igualmente variável.

Apesar de todas as diferenças, o Ministério das Relações Exteriores russo esperava que a reunião ainda "tivesse um impacto substancial na discussão internacional sobre formas de conter as consequências da crise econômica global".

Todos os quatro concordam que os EUA não devem ser tão dominantes na economia global. "O fator coesivo é um interesse comum em promover mudanças no cenário global", diz Roberto Jaguaribe, principal negociador do Brasil na reunião. "O grupo dos Brics cria um espaço que promove a relevância de cada um de seus membros."

David Zewig, diretor do Centro de Relações Transnacionais da China na Universidade de Hong Kong de Ciências e Tecnologia diz: "A China quer minar a hegemonia americana no mundo, criando algum tipo de poder multilateral sério que possa desafiar a dominância americana... a China também quer tirar a Índia da esfera de influência dos EUA."

Com esse intuito, eles vão exigir maior influência sobre o Fundo Monetário Internacional na próxima negociação sobre participação nos votos.

"Estamos pedindo para aumentar a voz e a representação das economias emergentes", nas instituições internacionais tais como FMI, disse à imprensa na semana passada He Yafei, um dos subsecretários de relações exteriores da China.

Contudo, as tensões entre os países do grupo, que quase certamente serão varridas para debaixo do tapete, devem impedir acordos substanciais na reunião.

As disputas comerciais são comuns entre os quatro. O Brasil teve desavenças quanto ao acesso ao mercado da Rússia e da China e sua estratégia de buscar total liberalização do comércio agrícola na rodada de negociação de Doha deparou-se com a insistência da Índia em proteger seus produtores de arroz.

A Índia e a China ambicionam os recursos naturais da Rússia, particularmente petróleo e gás. Como velha amiga de Moscou, Nova Déli teve sucesso limitado às reservas de energia russas, mas a China tem maior poder de compra.

A política separa os Brics tanto quanto os une. Índia, China e Rússia estão todas na mesma região e são poderes nucleares, enquanto o Brasil, que não é um poder nuclear, está em outro continente e quase não tem comércio com a Rússia ou com a Índia.

Enquanto isso, grande parte da fronteira militarizada entre a China e a Índia é disputada, e os dois lados travaram várias guerras por este território. China e Rússia travaram duas guerras por fronteiras até o final dos anos 60 e tiveram dificuldades de se relacionarem por décadas.

Acadêmicos e políticos chineses, assim como o público em geral, acreditam que a China supera em muito os outros membros deste bloco artificial.

"Os grupo dos Brics não tem futuro... acredito que continuará sendo um clube informal em forma e essência", diz Yevgeny Yasin, diretor de pesquisa da Escola Superior de Economia Russa.

Tradução: Deborah Weinberg

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