Chávez ameaça livre funcionamento de canal de TV opositor

Benedict Mander Em Caracas (Venezuela)

Desde que um pequeno terremoto sacudiu a extensão de concreto de Caracas no início de maio, as fundações da última emissora de televisão antigoverno que restou na Venezuela parecem cada vez mais instáveis.

A cobertura 24 horas do terremoto pelo canal Globovisión irritou tanto o presidente Hugo Chávez - que acusou as reportagens de incitarem medo - que o canal passou a temer que seus dias estejam contados. Apesar de muitos argumentarem que a liberdade de expressão ainda não está sob ameaça na Venezuela, a Globovisión se tornou o novo alvo favorito do presidente, que a acusa de "terrorismo midiático" e de "envenenar" as pessoas.

O governo realizou uma batida na propriedade de Guillermo Zuloaga, o presidente da Globovisión, que ele acusa de usura e "crimes ambientais". Ele também multou o canal em US$ 4,2 milhões por supostamente ter deixado de pagar impostos seis anos atrás. Essas ações provocaram amplas críticas de que o governo está intimidando um oponente poderoso.

Chávez deixou seus sentimentos bem claros. "Eu posso assegurar que essa rede não permanecerá no ar por muito tempo" se não mudar logo seu comportamento, ele alertou nesta semana.

No mês passado, ele repreendeu autoridades por não reprimirem duramente a Globovisión, atacando principalmente um aliado próximo que comanda a comissão nacional de telecomunicações, assim como o presidente da suprema corte e o procurador-geral.

As ações contra a Globovisión, que está estreitamente associada aos partidos políticos de oposição, são acompanhadas por um ataque mais amplo contra os adversários de Chávez. Os críticos dizem que as ações visam silenciar a dissidência.

Manuel Rosales, que fez campanha contra Chávez na corrida presidencial de 2006, fugiu do país para escapar das acusações de corrupção e conseguiu asilo no Peru. O general Raul Baduel, que renunciou como ministro da Defesa em 2007 para se tornar uma importante figura da oposição, foi preso no início deste ano, também acusado de corrupção. O prefeito de oposição de Caracas, Antonio Ledezma, eleito recentemente, foi privado de grande parte de seu poder quando Chávez escolheu pessoalmente uma nova autoridade.

Os analistas esperam que a Globovisión será punida, resultando, inicialmente, em uma suspensão das transmissões por 72 horas. Quatro processos foram abertos contra a Globovisión nos últimos meses. Ela é acusada de divulgar um anúncio antecipado de vitória de um governador de oposição nas últimas eleições, incitar o medo em sua cobertura do terremoto e exibir um programa onde o entrevistado disse que Chávez acabaria enforcado como o ditador italiano Benito Mussolini. Apenas após a Globovisión ser punida três vezes é que o governo poderá fechá-la legalmente.

Andrés Cañizález, um especialista em mídia da Universidade Católica Andrés Bello em Caracas, disse que é improvável que isso aconteça em breve. Ele argumentou que "muito mais preocupantes" são os ataques contra Zuloaga. "Isso marca uma nova etapa, com o governo tentando punir a mídia crítica de modo indireto. Isso me parece chantagem, essas coisas não acontecem por acaso na Venezuela", ele disse.

Se a licença de transmissões públicas da Globovisión for revogada, alguns temem uma repetição do fiasco de 2007, quando a emissora de TV mais popular do país, a RCTV, foi forçada a sair do ar. Agora ela só transmite por cabo e satélite. Logo depois, Chávez sofreu sua primeira derrota eleitoral em um referendo à reforma constitucional.

Os chavistas radicais esperam que a "guerra da mídia" que está sendo travada por Chávez resulte na eliminação das corporações privadas de mídia. Atualmente, mais de 70% das ondas públicas de transmissão de rádio e televisão são controladas pela mídia privada, segundo o governo. Em seu lugar entraria uma combinação de mídia estatal e veículos populares locais de mídia.

Chávez pode não ir tão longe, disse Cañizález: "Ele precisa de um inimigo que possa atacar, e a Globovisión preenche perfeitamente esse papel".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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