Aliados do Irã na região temem que manifestações também os prejudique

Anna Fifield

Para o Hizbollah, perder as eleições parlamentares no Líbano foi ruim. Perder o apoio ou mesmo a atenção de seu principal patrono seria desastroso.

Os aliados do Irã na região - do Hizbollah e Hamas, os movimentos anti-israelenses, ao governo da Síria - estão observando de perto os acontecimentos no Irã, enquanto os manifestantes de oposição continuam contestando a república islâmica sobre a polêmica eleição presidencial deste mês.

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"Esta é uma crise sem precedentes e tem o potencial de abalar as fundações do Irã", disse Amal Saad Ghorayeb, uma especialista em Hizbollah na Universidade Americana Libanesa em Beirute. "Essa instabilidade será muito preocupante para o Hizbollah e o Hamas, e não vamos esquecer a Síria. Eles temem os efeitos negativos... porque é claro que o Irã dará muito menos atenção a seus aliados e a sua política externa em geral", ela disse.

Seguidores de Mir Hossein Moussavi, o candidato moderado que teria sido derrotado fragorosamente pelo presidente Mahmud Ahmadinejad em 12 de junho, prometem continuar protestando contra o resultado, apesar da repressão das autoridades. Estas advertiram os manifestantes para que parem, mas não se prevê um fim para a disputa.

Embora Ahmadinejad tenha cortejado ativamente o mundo árabe, muitos países temeram os objetivos cada vez mais expansionistas de Teerã desde que ele chegou ao poder em 2005, com seu apoio ao Hizbollah no Líbano e ao Hamas - que controla a Faixa de Gaza -, o papel ativo que ele teve no Iraque e sua estreita cooperação com a Síria.

O resultado da eleição provavelmente não mudaria o apoio militar e financeiro do Irã a seus aliados regionais - todos os candidatos estavam comprometidos com a república islâmica e seu apoio ao Hizbollah e ao Hamas transcende o governo. Mas a atual inquietação gera incerteza para esses aliados, que estão esperando para ver como a maior rebelião no Irã em 30 anos se desenrolará.

Seyyed Hassan Nasrallah, o líder do Hizbollah, enviou uma carta de cumprimentos a Ahmadinejad imediatamente depois da eleição, mas agora prefere um silêncio diplomático depois dos protestos.

"O Hizbollah não pode se preocupar com o que está acontecendo no Irã", disse Kamel Wazne, um comentarista político xiita próximo do Hizbollah. "Mas o Irã ainda apoia muito seus aliados na região e sua política externa não vai mudar em longo prazo."

A Síria, onde o presidente Bashar al-Assad ganhou com 97% dos votos depois que seu pai morreu em 2000, provavelmente também estará observando os eventos no Irã de perto, segundo analistas. Assad faz parte da seita minoritária alauíta, uma ramificação xiita, em um país de maioria sunita, e seu governo reprime ativamente a dissidência dos defensores da democracia e dos direitos humanos.

A mídia estatal síria pouco informou sobre os protestos no Irã, talvez por temer dar ideias a seus próprios cidadãos.

O ministro das Relações Exteriores sírio, Walid al-Moallem, disse esta semana a seu colega holandês, Maxime Verhagen, que o Ocidente está errado se pensa que pode mudar o governo do Irã e advertiu contra qualquer interferência.

De fato, o maior risco para os aliados do Irã não é a inquietação doméstica mas a perspectiva de intervenção ocidental.

O presidente americano, Barack Obama, condenou na terça-feira o que chamou de "terrível" repressão contra a oposição e negou a interferência de qualquer potência ocidental, como os iranianos alegaram, nos protestos pós-eleitorais. Dois diplomatas britânicos foram expulsos de Teerã no início desta semana e vários outros países europeus criticaram os resultados da eleição.

"Que papel terão as potências estrangeiras? Os EUA ficarão de fora?", perguntou Saad Ghorayeb, dizendo que essa incerteza dá ao Hizbollah e ao Hamas, considerados entidades terroristas pelos EUA e por Israel, mais motivos de preocupação.

Mesmo que os protestos no Irã parem e Ahmadinejad permaneça no poder, como quase todos os analistas preveem, a disputa poderá causar danos irreparáveis para sua reputação no Oriente Médio.

"Ahmadinejad atraiu polêmicas com os EUA para reforçar sua popularidade com o público árabe e... parece que valorizou a estatura que isso lhe deu na região", disse Suzanne Maloney, uma especialista em Irã no Instituto Brookings em Washington.

"Os acontecimentos dos últimos dez dias minaram drasticamente esse perfil e será difícil ele ser o herói folclórico no futuro. Em vez disso, vai parecer exatamente com qualquer outro ditador desprezível."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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