Brasil aposta em programa habitacional para aquecer economia e ampliar acesso a casa própria

Jonathan Wheatley

Alberto Silva da Cruz, um segurança de 28 anos, e a sua mulher, Genilsa, uma faxineira de 32 anos, acabaram de entrar na fila de cerca de 200 metros de extensão em frente ao Feirão da Caixa, uma feira imobiliária anual criada pela Caixa Econômica Federal, o banco estatal brasileiro de poupança e hipotecas.

  • Folha Imagem

    Feirão da Casa Própria recebe mais de 15 mil pessoas no dia 21 de maio, em São Paulo

Ainda não são 9h. Falta ainda mais de uma hora para a abertura do banco, quando a fila terá o dobro do tamanho, já que mais casais e famílias jovens chegarão para terem uma oportunidade de comprar a primeira casa própria através de um projeto governamental de incentivo chamado "Minha Casa, Minha Vida", que investirá R$ 60 bilhões no mercado imobiliário brasileiro.

"Sem o Minha Casa, Minha Vida, nós não estaríamos aqui", explica Genilsa. "As taxas de juros são muito altas e as prestações muito grandes. Mas agora acreditamos que poderemos".

O governo brasileiro anunciou uma série de medidas "anticíclicas" para estimular o crescimento desde o início da crise econômica global. Algumas consistem apenas em aumentos salariais aos trabalhadores do setor público. Medidas que permanecerão em vigor após o término da crise, estocando problemas fiscais para o futuro.

Mas o Minha Casa, Minha Vida parece ser uma medida real. Em um momento em que a indústria brasileira de construção civil começa a declinar após vários anos de forte crescimento, o Minha Casa, Minha Vida surgiu como uma tábua da salvação.

"Isto significará 70% dos nossos negócios neste ano", afirma Milton Goldfarb, presidente de uma companhia de construção que traz o seu sobrenome. Ele pretende construir de 12 mil a 14 mil moradias somente neste ano, no âmbito do plano do governo. Levando-se em conta que essa indústria responde por 5% do produto interno bruto do Brasil, o programa deverá representar um impulso valioso para o emprego e as rendas.

"Isso é uma revolução", diz ele. "O Brasil nunca teve uma política tão claramente elaborada para fornecer moradias aos pobres e à classe média baixa".

Para aqueles que estão na base da pirâmide de renda, o programa oferece subsídios impressionantes. Ele permite que pessoas que ganham até três vezes o salário mínimo mensal de R$ 465 comprem apartamentos ou casas de até R$ 52 mil.

Os subsídios variam de acordo com os rendimentos. Para aqueles que ganham um salário mínimo, por exemplo, o programa contribui com R$ 46 mil, fazendo com que o comprador precise desembolsar apenas R$ 6.000, que ele tomará emprestado da Caixa e pagará em 240 prestações de R$ 46,50 mensais.

No caso desse patamar de renda, a Caixa aprovará cada projeto habitacional em parceria com os governos estaduais ou municipais, que doarão os terrenos, e o comprarão da construtora. Os mutuários, que geralmente precisam pagar prestações durante a fase de construção, muito antes de tomarem posse do imóvel, só pagarão as primeiras prestações depois que se mudarem para ele.

Maria Fernanda Coelho, a presidente da Caixa, afirma que os primeiros projetos estão sendo aprovados para construção neste ano e entrega em 2010. "O ano que vem será um ano muito bom para a indústria da construção", diz ela.

No outro extremo da escala de renda, os compradores obterão subsídios menores, mas também financiamento subsidiado. O website da Caixa oferece um simulador para mostrar às pessoas quanto elas pagariam, dependendo dos seus rendimentos e do custo da nova casa. Quando o Feirão teve início, o site efetuava 154 mil simulações por dia.

Alberto e Genilsa Silva da Cruz foram à agência da Caixa antes do Feirão. Os funcionários lhes disseram que com o salário comprovado de R$ 1.500 mensais, eles poderiam comprar um apartamento de R$ 80 mil, pagando uma prestação mensal de R$ 414 - algo que eles fariam com prazer para saírem da casa alugada por R$ 250 mensais.

Isso significa que eles podem esperar, na melhor das hipóteses, um apartamento de dois quartos que, com três crianças de seis meses a dez anos de idade, será bastante apertado.

"Mas não faz sentindo sonhar muito alto", diz Genilsa, quando a fila começa a andar rumo ao Feirão. "E isto aqui já é um negócio maravilhoso".

Tradução: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos