Para que servem os amigos: criador do Facebook traça planos ambiciosos para o site

David Gelles

Agora que a sua liderança como rede social online está mais assegurada, o objetivo da companhia de Mark Zuckerberg é a obtenção de lucros e de uma presença duradoura em outros sites - uma tarefa que não é fácil.

  • Bloomberg News

    Mark Zuckerberg, que criou um software para música na 6ª série, hoje é dono do Facebook

Mark Zuckerberg delegou à sua jovem companhia uma missão de grande amplitude. Segundo este executivo que tem um rosto de criança, a meta do Facebook é "proporcionar às pessoas poder de compartilhamento, a fim de tornar o mundo mais aberto e conectado".

Se isso soa como um eco deliberado da missão notavelmente ampla declarada por uma outra jovem companhia da Internet, o fato não é uma coincidência. O Google teve a temeridade de alegar que um dia "organizará todas as informações do mundo e as tornará universalmente acessíveis". Zuckerberg dá a impressão de ter descoberto uma maneira melhor de fazer isso, tendo como cerne pessoas em vez de algoritmos.

O futuro do Facebook

Quatro desafios de natureza social e global com os quais o site se depara

Dinheiro: A companhia pode estar no caminho certo para ter uma receita de mais de US$ 500 milhões (305 milhões de libras esterlinas, € 360 milhões) neste ano, mas o Facebook deverá desembolsar mais do que isso. E não parece que ele equilibrará o fluxo de caixa até o final deste ano. Um recente investimento de US$ 200 milhões feito pela Digital Sky Technologies, uma companhia russa, acabou com as preocupações imediatas com a possibilidade de que a redes social crescesse mais do pode, mas ela ainda não demonstrou ser capaz de criar um negócio significante a partir da sua base formada de usuários ávidos

Competição Outras companhias estão procurando construir os seus próprios serviços para trazerem experiências sociais para a Web. Conforme o Twitter demonstrou, elas são capazes de crescer rapidamente com a fórmula correta. Algumas das maiores companhias da Web estão agora voltadas contra o Facebook. Um consórcio que inclui o MySpace e o Google apoiou um serviço que permite aos usuários movimentarem as suas identidades pela Web com um único login

Regulação: O Facebook está criando um dos maiores bancos de dados pessoais da Web. Até o momento ele manteve-se distante das batalhas com os reguladores, mas, à medida que expandir-se pelo mundo, isso poderá mudar. No mês passado, um conselho consultor da Comissão Europeia propôs a adoção de regras de privacidade mais estritas para todas as redes sociais a fim de garantir que informações privadas não sejam utilizadas de maneira abusiva

Execução: O gerenciamento do seu rápido crescimento e a adaptação e a expansão do seu serviço sem alienar os usuários existentes são os desafios mais diretos para o Facebook. Em fevereiro deste ano, a empresa irritou muita gente ao atualizar silenciosamente as suas cláusulas de serviço, inserindo uma linguagem que alguns viram como uma tentativa de se apossar do conteúdo dos usuários. Esse foi um lembrete doloroso de um problema anterior referente à privacidade. Em 2007, a companhia introduziu um serviço que compartilhava dados sobre a atividade dos usuários de outros sites com os seus amigos do Facebook. Houve indignação e a rede cancelou o serviço. Esses episódios podem ter perturbado os usuários, mas, pelo menos por ora, eles não dispõem de outro site para onde ir

Até recentemente, era fácil descartar tais ambições como sendo manifestações da autoconfiança exagerada de um empresário novato. Afinal, Zuckerberg criou o site de rede social apenas cinco anos atrás no seu quarto no dormitório da Universidade Harvard. Até 2006, apenas estudantes de segundo grau e universitários podiam ingressar na rede. E o Facebook, que permite que as pessoas acompanhem o que os seus amigos dizem e fazem, não era sequer a maior rede do gênero. O MySpace tinha um maior número de usuários.

Mas, após um ano de crescimento rápido durante o qual superou o MySpace e entrou para a lista dos websites mais visitados do mundo - ele atualmente registra mais visitas diárias do que o Yahoo -, o Facebook atingiu um ponto crítico. O fato formidável para Zuckerberg é que a sua criação está evoluindo de algo no qual adolescentes passavam horas ociosas para uma das plataformas dominantes da Internet, um local que é o ponto de partida para centenas de milhões de pessoas e o principal foco de atividades enquanto elas navegam pela Internet.

"Agora sentimos que o Facebook é algo bastante universal", diz Zuckerberg, sentado em um sofá nos novos escritórios da sua companhia em Palo Alto, na Califórnia. Eles explica que o Facebook não é mais apenas uma forma de os jovens desperdiçarem seu tempo, mas sim uma valiosa ferramenta de comunicação para todo mundo, desde avós na Escócia até pequenos empresários na Eslovênia. "No decorrer do tempo nós podemos continuar crescendo e atingir quase todo mundo".

Porém, esta vasta ambição tem pela frente desafios enormes. O Facebook esperar obter uma receita de cerca de US$ 500 milhões (305 milhões de libras esterlinas, € 357 milhões) neste ano, mas gastará mais do que isso para firmar a sua presença global. Até mesmo segundo as próprias projeções da companhia, é possível que os lucros não superem os custos até o final do ano que vem.

E ela tampouco demonstrou ser capaz de concretizar o seu enorme potencial de obtenção de dinheiro ao transformar-se em um foco de tamanha atividade na Internet. Como a maior rede social do ciberespaço, o Facebook conta com uma enormidade de dados pessoais a respeito dos seus cerca de 225 milhões de usuários ativos e com um panorama único das conexões sociais que permeiam grande parte das comunicações e interações na Web. No entanto, as formas tradicionais de propaganda na Web não se encaixam bem com essas informações altamente pessoais, e o Facebook precisa ainda elaborar um método que tire vantagem do papel que ele desempenha nas vidas online dos seus usuários.

Além disso, à medida que o Facebook procura estender o seu alcance pela Web, parece que formas inesperadas de interação online ainda podem emergir quase que da noite para o dia. A ascensão súbita do Twitter, o serviço de micro-blog, demonstra que os usuários da Internet ainda estão dispostos a mudar de hábitos com velocidade surpreendente. Isso faz com que se questione se é possível que o Facebook, da mesma forma que as redes que ele eclipsou, possa em breve sair de moda.

Zuckerberg reconhece que o Twitter pegou o Facebook desprevenido, embora ele minimize a significância disso. "Quando o Twitter começava a passar pela sua primeira fase de grande crescimento, eu percebi que havia algumas coisas que eles estavam fazendo muito bem, e que faria sentido que os usuários desejassem fazer tais coisas no Facebook", diz ele. "Mas, à medida que começamos a explorar algumas dessas possibilidades, fiquei impressionado com o quanto os dois serviços são diferentes".

Isso, porém, não leva em consideração os dois maiores reconhecimentos do valor do Twitter pelo Facebook, primeiramente tentando comprar a companhia rival e, a seguir, quando a oferta de US$ 500 milhões foi rejeitada, imitando parte do design e da funcionalidade do Twitter. Na última quarta-feira, o Facebook tomou mais uma iniciativa no sentido de conter o Twitter, anunciando que passaria a encorajar alguns usuários a compartilhar uma parcela bem maior das suas informações, incluindo atualização de status, com todo mundo na Web.

Enquanto reage a novas ameaças, Zuckerberg pretende estender o alcance da sua companhia e aprofundar as conexões desta com os seus membros. Quanto a isso, pelo menos, ele obteve alguns resultados notáveis. O número de usuários do Facebook está aumentando rapidamente - mais da metade se inscreveu nos últimos 12 meses. Ele está disponível em 50 idiomas e em praticamente todos os países do mundo. E, talvez o mais importante, os usuários do Facebook parecem ficar viciados. De fato, o site mostrou-se "grudento". Mais de 100 milhões de usuários conectam-se ao Facebook pelo menos uma vez por dia.

Há quem alimente uma ambição ainda maior para o futuro. O novo membro da diretoria da empresa, o fundador do Netscape, Marc Andreessen, diz que, no curto prazo, o Facebook "almejará 500 milhões, e talvez um bilhão" de usuários. Mas, potencialmente, ele é capaz de atingir todo indivíduo que estiver online. "Em algum momento o nosso número de usuários será equivalente à quantidade de pessoas que contarem com energia elétrica", diz Andreessen.

Porém, a abrangência por si só não é suficiente, conforme Andreessen bem sabe. O Netscape era o principal navegador no início da era da Internet, mas acabou sendo superado pelo Internet Explorer da Microsoft, e terminou sendo vendido à AOL, um portal da Web que também mergulhou na irrelevância. Muito mais importante é saber se o Facebook conseguirá transformar-se em uma ferramenta central para a forma como os usuários conduzem as suas vidas online - e se a companhia será capaz de proporcionar aos negócios uma nova e valiosa maneira de alcançar esses usuários.

Zuckerberg aposta que a Internet está se tornando um local mais social e que o "gráfico social" mantido pela sua companhia - o mapa das conexões que ligam os usuários através de redes familiares, sociais ou de negócios - acabará revelando-se uma das principais formas como as pessoas organizam as suas vidas online.

Outros sites estão procurando imitar as redes sociais, acrescentando recursos que permitem aos usuários construir perfis, conectar-se com outros usuários e compartilhar conteúdos. O Twitter e um outro serviço similar, o FriendFeed, oferecem gráficos sociais concorrentes. O Google também conta com uma equipe que trabalha com produtos sociais. Os especialistas da indústria chamam isso de "web social".

"Os recursos de redes sociais e os seus amigos irão para onde você for", diz Jeremiah Owyang, analista da Forrester Research, que recentemente publicou um relatório sobre a web social. "Isso modificará a forma como as pessoas interagem na Internet".

Segundo os seus defensores, a web social poderia funcionar como um filtro mais personalizado para a navegação pela web pública. Em vez de conectar-se ao Google News e descobrir aquilo que um algoritmo determinou que são as principais notícias, o usuário poderá navegar para artigos de noticiários através dos links que foram enviados por amigos. Os links no Facebook representam 19% dos acessos ao Huffington Post, o popular blog de Washington. Eles são também os principais geradores de tráfego para o site de fofocas de Perez Hilton.

Certamente, aqueles que buscam lucros com o Facebook estão convencidos de que o sistema é promissor. "Se você pedisse hoje a um jovem de 20 anos que abrisse mão ou do Google ou do Facebook, ele desistiria do Google", afirma Mark Pincus, diretor-executivo da Zynga, que cria aplicações para o Facebook, e fundador da Tribe Networks, uma rede social anterior. "A web social é mais pessoal e mais relevante para o indivíduo".

Mas o Google concretizou grande parte do potencial da Internet com uma abordagem bem mais mecanicista. Ao contrário do Facebook, o Google também descobriu uma maneira de transformar isso em um negócio tremendamente lucrativo. Além do mais, ninguém sabe ao certo se as pessoas desejam abandonar a Web tradicional e adotar uma Web baseada em recomendações de amigos.

Entretanto, o Facebook está apostando na web social e procurando consolidar a sua vantagem inicial. O plano tem vários elementos. Parte dele foi elaborado para fazer com que os usuários usem mais o seu tempo e realizem uma maior parcela das suas atividades online no site do próprio Facebook.

Em 2007, a empresa lançou o Facebook Platform, no qual outras companhias podem lançar e operar aplicações, tais como jogos e brincadeiras dos quais participam grupos de amigos. Atualmente o Platform conta com mais de 52 aplicações, algumas das quais têm mais de 10 milhões de usuários.

Uma parte mais recente do plano consiste em inserir o Facebook no contexto maior da Web. Através do Facebook Connect, lançado no ano passado, os usuários podem agora acessar mais de 10 mil sites externos usando as suas contas Facebook como uma espécie de passaporte da Internet. De fato, Zuckerberg vislumbra um dia no futuro próximo em que haverá mais atividades relacionadas ao Facebook em outros sites do que no Facebook.com. "Essa é uma grande parcela do futuro", diz ele. "Um gráfico verdadeiramente interoperável das identidades das pessoas que elas podem levar consigo para outros locais".

As ambições do Facebook estão despertando a atenção de algumas das mais poderosas companhias da Web. "Há muita gente procurando ter um espaço no qual os indivíduos se identifiquem", diz Chris Messina, um entusiasta da web social e membro da diretoria da Fundação OpenID, que está patrocinando o seu próprio login universal. "Todo mundo quer ter o seu próprio serviço de 'conexão'". Entre as empresas que apoiam a OpenID estão a AOL, o Google, o MySpace e o Yahoo, que estão colaborando em um conjunto de padrões abertos. O Facebook está trabalhando no seu próprio sistema.

Essa abordagem fechada poderá fazer com que a empresa perca a sua vantagem inicial referente à conexão à web social, adverte Kevin Marks, que dirigiu alguns projetos sociais do Google até o mês passado, quando deixou a companhia: "No longo prazo, as iniciativas abertas sempre vencem, porque elas resistem às mudanças corporativas".

Mas até mesmo aqueles indivíduos alinhados com concorrentes reconhecem que o Facebook conta com uma dianteira enorme. "Dentre todos os protagonistas atuais, são eles que parecem ter o ímpeto e as pessoas certas", diz Messina, do OpenID. "Se o Facebook tiver sucesso, ele terá uma grande fração de influência na maneira como a web social tomará forma".

Tradução: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos