G8 muda o foco da ajuda alimentar para incentivo à agricultura

Javier Blas Em Londres

Os países do G8 anunciarão nesta semana uma "iniciativa para a segurança alimentar", investindo mais de US$ 12 bilhões para o desenvolvimento da agricultura nos próximos três anos, numa iniciativa que assinala uma transição da ajuda alimentar para investimentos a longo prazo na produção agrícola no mundo em desenvolvimento.

Os EUA e o Japão fornecerão a maior parte dos fundos, com US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões cada um, e o restante virá da Europa e do Canadá, de acordo com o que oficiais da Organização das Nações Unidas e diplomatas do Grupo dos Oito informaram sobre a "Iniciativa para a Segurança
Alimentar L'Aquila". Os oficiais disseram que isso irá mais do que
triplicar os gastos.

Na cúpula que começará na quarta-feira, os líderes do G8 prometerão
reverter a "tendência de redução da ajuda ao desenvolvimento e do
financiamento nacional para a agricultura", de acordo com uma prévia
da declaração à qual o Financial Times teve acesso.

"O efeito combinado da falta de investimento a longo prazo na
agricultura e na segurança alimentar, as tendências dos preços e a
crise econômica levaram ao aumento da fome", diz o documento. "A
segurança alimentar está intimamente ligada ao crescimento econômico e
ao progresso social, assim como à estabilidade política."

A iniciativa do G8 enfatiza a nova abordagem de Washington ao lutar
contra a fome mundial, revertendo uma política de duas décadas, focada
quase que exclusivamente na ajuda alimentar. Hillary Clinton, secretária de Estado americana, e Tom Vilsack, secretário da Agricultura, têm ambos sublinhado essa mudança de foco em seus discursos recentes.

"Por muito tempo, nossa resposta primária [para lutar contra a fome]
foi enviar ajuda emergencial [em alimentos] quando a crise atinge seu
pior", disse Clinton no mês passado. "Isso salva vidas, mas não lida
com as causas-raiz da fome." É, na melhor das hipóteses, uma solução
de curto prazo.

A mudança de Washington pode causar controvérsia nos EUA, uma vez que
seus fazendeiros são grandes exportadores de diversos produtos, incluindo soja e milho. Os EUA são o maior doador mundial de ajuda
alimentar - principalmente de alimentos produzidos por fazendeiros
norte-americanos, que custaram mais de US$ 2 bilhões no ano passado.

O instituto Conselho de Chicago para Assuntos Mundiais estima que
Washington gasta 20 vezes mais em ajuda alimentar do que em esquemas a
longo prazo na África para incentivar a produção local de alimentos.
Os gastos anuais dos EUA nos projetos agrícolas africanos chegaram a
US$ 400 milhões nos anos 80, mas em 2006 haviam caído para US$ 60 milhões, disse um relatório do conselho deste ano.

O Japão está enfatizando a necessidade de investimento a longo prazo,
com as autoridades dizendo que a crise alimentar recente é resultado
de décadas de falta de investimentos na agricultura.

O número de pessoas com fome crônica aumentou para mais de um bilhão à
medida que o impacto da crise somou-se ao efeito da alta nos preços
dos alimentos. A ONU alertará hoje que uma redução da ajuda estrangeira poderá causar mais fome e doença uma vez que a recessão forçou mais 90 milhões de pessoas à pobreza extrema.

Tradução: Eloise De Vylder

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