Crise na China: divisão social gera pressões separatistas

Kathrin Hille

"Olhe para nós, todos sobrevivemos do pequeno comércio, vendendo uma coisa ou outra à beira da estrada", disse Abulaiti, um jovem uigur que vive em Urumqi, a capital da província de Xinjiang. "Muitos jovens não fazem nada. É difícil encontrar um emprego regular."

Abulaiti, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, vive em Balikun, um complexo residencial atrás do Grande Bazar de Urumqi. Os becos sujos e conjuntos habitacionais de concreto escurecido de Balikun destoam muito dos novos conjuntos residenciais que estão surgindo por toda a capital, com apartamentos que geralmente só podem ser pagos pelos chineses de etnia han.

Para muitos uigures esta é uma sociedade na qual seus pontos de vista raramente são ouvidos, na qual se sentem perdedores. Os distúrbios que ocorreram em Urumqi estão enraizados neste profundo mal social.

Apesar dos uigures corresponderem a quase metade dos 20 milhões de habitantes da província de Xinjiang, no oeste, eles se tornaram minoria na cidade de Urumqi, que agora é predominantemente han.

Acadêmicos apoiados pelo governo concordam que há problemas sociais e uma desigualdade de renda entre os han e os uigures, mas não estão prontos para discutir se as políticas do governo precisam ser ajustadas. "Há uma diferença na renda per capita entre os chineses han e o grupo uigur devido a vários fatores históricos", disse Wu Fuhuan, diretor da Academia de Ciências Sociais de Xinjiang.

Ele argumenta que as exceções na política de um só filho que Pequim concede aos grupos étnicos minoritários fazem com que as rendas familiares precisem ser compartilhadas por mais pessoas, causando uma renda per capita mais baixa para as minorias.

Outro fator é que os han tendem a trabalhar em construção e mineração, enquanto os uigures em Urumqi frequentemente são autônomos no pequeno varejo e no setor hoteleiro.

Situação permanece tensa na China

Além disso, disse Wu, os uigures começaram mais tarde que os han a se mudarem para províncias mais ricas como trabalhadores migrantes. Em muitas partes da China rural, uma proporção significativa da renda dos lares é composta das remessas de dinheiro feitas pelos trabalhadores migrantes que se mudaram para as províncias costeiras mais ricas e encontraram empregos melhor remunerados.

"Em média, há uma contribuição muito menor desses salários para a renda do grupo étnico (uigur)", ele disse.

Mais de 60% dos moradores de Balikun vieram de outras partes da região, principalmente de Kashgar e outras cidades no sul de Xinjiang, onde o grupo étnico uigur ainda representa a vasta maioria da população.

Mas "não há ajuda organizada para nós, não há um apoio real", disse Abulaiti. "Os han, eles vêm em ônibus e caminhões e frequentemente são trazidos pelas empresas que os empregam. Mas ninguém nos empregará a menos que o governo intervenha."

Os uigures ligeiramente mais ricos dizem que sua comunidade precisa exercer um papel ativo na solução do desequilíbrio econômico.

"Nós estamos sendo discriminados, isso é fato", disse um homem que mora em um bairro de uigures cujas famílias vivem em Uramqi há gerações e que são donos dos apartamentos em que moram. "Mas, no geral, nós vivemos uma boa vida."

Essa é a postura que Wu diz ser necessária para solucionar os problemas sociais. "É nossa meta estreitar o máximo possível a desigualdade de renda entre os diferentes grupos étnicos. Mas todo cidadão terá que contribuir para isso com suas próprias mãos e trabalho árduo."

Sua visão e aquela que muitos uigures pobres nutrem para seu futuro são muito diferentes. Em Saimachang, um distrito dominado pelos uigures no sul de Urumqi que sofreu alguns dos distúrbios mais ferozes no domingo, os moradores tem apenas olhares hostis para quaisquer visitantes em seu bairro.

Aqui, como em Balikun, a grande maioria dos moradores é do sul de Xinjiang. A maioria das mulheres usa véu e não apenas lenços de cabeça. A maioria dos homens trabalha no matadouro ou está à procura de emprego. Poucos falam o chinês mandarim.

As frustrações com a pobreza e a discriminação alimentaram uma raiva profunda entre eles e é aqui onde se encontram as pressões separatistas que Pequim tanto teme.

"Xinjiang agora é a China, mas nós queremos que Xinjiang seja nosso próprio país", disse um jovem adulto. As pessoas ao redor concordaram quando ele disse: "Nós queremos expulsar os chineses han de Xinjiang e viver nossas vidas em paz e tranquilidade -por conta própria".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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