Índia teme aumento da influência chinesa na Ásia

James Lamont e Amy Kazmin

Enquanto a China disputa o domínio regional com a Índia, a criação de vantagens e vínculos estratégicos por parte de Pequim faz aumentar a ansiedade em Nova Déli e outros locais.

Hambantota, no sul do Sri Lanka, era uma sonolenta vila à beira-mar que foi devastada pelo tsunami de 2004. Famosa pelos seus baixios de sal e pelo clima quente, a sua construção mais famosa era uma torre militar de observação construída pelos britânicos, e que agora é um museu de pesca.

Da mesma maneira, até sete anos atrás Gwadar era uma aldeia de pescadores no Baluquistão, na costa sudoeste do Paquistão. Um enclave no Mar Arábico fornecido a Islamabad pelo Aga Khan, pouca gente via Gwadar como um ponto estratégico entre a Ásia Central e o Golfo Pérsico.

Atualmente, essas cidades pouco conhecidas estão emergindo rapidamente em um mapa político e econômico maior graças ao dinheiro e à engenharia da China, que está reformando os seus portos para transformá-los em instalações de qualidade internacional. Elas fazem parte do chamado "colar de pérolas" da China - o conjunto de portos, instalações manufatureiras e centros comerciais que, segundo os analistas, revelam a expansão das iniciativas diplomáticas e dos interesses chineses no sul da Ásia. Essa expansão - ou, para alguns, esse aparente cerco - é acompanhada de projetos de infraestrutura, suprimentos de armas, rotas de transporte de matéria-prima energética e proteção diplomática.

Em nenhum outro lugar esta tendência causa mais inquietação do que na Índia. À medida que depósitos e refinarias, quebra-mares e guindastes de pórtico emergem nas costas vizinhas, Nova Déli teme que Pequim esteja ampliando o seu poder no sentido de controlar as rotas de navegação no Oceano Índico e no Mar Árabe - áreas nas quais os indianos prefeririam ser a potência mais influente. Essas medidas poderiam intensificar a competição - e a luta por recursos - entre as duas economias mundiais que crescem mais rapidamente, e que são potências dotadas de armas nucleares.

Arundhati Ghose, ex-embaixadora da Índia na Organização das Nações Unidas (ONU), afirma que as manobras de Pequim no sul da Ásia estão "provocando muita inquietação". Segundo ela, "a China está flexionando os seus músculos". "A mensagem deles é, 'Aqui nós somos os grandalhões, e na Ásia só há espaço para uma potência'. A mensagem é que a potência asiática é a China, que esta região é sua periferia e que é a China que determinará o que acontecerá aqui".

Pequim insiste que as suas intenções são pacíficas, tendo como objetivo o desenvolvimento.

A relação entre os dois países jamais se normalizou após uma breve guerra de fronteira há quase meio século. Em junho de 1962, forças chinesas tomaram regiões montanhosas indianas, em um conflito cruento travado a grande altitude.

O episódio significou um fim abrupto da ideia de Jawaharlal Nehru, o primeiro premiê da Índia, segundo a qual havia uma irmandade entre os dois países. A guerra também abalou profundamente a confiança da Índia na sua capacidade de autodefesa.

Hoje em dia, o relacionamento frio entre os dois países na fronteira nos Himalaias continua fazendo estragos. O comércio entre os dois mais poderosos mercados emergentes da Ásia pode ter aumentado, mas a desconfiança não permite que nenhum dos dois abaixe a guarda. A disputa territorial ainda provoca irritação, indicando um impasse mais amplo e potencialmente mais perigoso estimulado pelo dinamismo econômico e o poderio militar crescente.

Enquanto o jornal "Diário Popular", o órgão de informação do Partido Comunista chinês, alega que os indianos veem as realizações da China com "assombro", o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, e os líderes corporativos do seu país gabam-se de que a democracia da Índia é mais sólida do que o regime de partido único da China.

Recentemente os atritos entre os dois países aumentaram quando os dois lados desentenderam-se quanto a empréstimos multilaterais, o acordo nuclear da Índia com os Estados Unidos e questões comerciais.

Um dos mais intensos desentendimentos deve-se ao fato de a China ter bloqueado a aprovação de um plano para um empréstimo assistencial à Índia pelo Banco de Desenvolvimento Asiático, alegando que tal empréstimo envolveria financiamentos para um território que os chineses reivindicam no nordeste da Índia. A oposição chinesa ao plano de US$ 2,9 bilhões (R$ 5,74 bilhões, 2,1 bilhões de euros, 1,8 bilhão de libras esterlinas) - que prevê um investimento de US$ 60 milhões (R$ 118 milhões) em obras para prevenção de enchentes na região disputada - é incomum, e deixou as autoridades do banco chocadas com o tratamento dispensado à Índia, o seu maior cliente. Os chineses manifestaram uma "forte insatisfação" com o fato de o Banco de Desenvolvimento Asiático ter declarado que não tem como modificar "imensas disputas territoriais".

De forma similar, a China procurou bloquear o acesso da Índia a suprimentos nucleares quando o governo do ex-presidente George W. Bush implementou um acordo nuclear civil com Nova Déli. O tratado acabou com as décadas de isolamento internacional impostas ao programa nuclear indiano, e foi um símbolo da emergência do país como uma grande potência.

Nova Déli encontrou maneiras de contra-atacar. Uma das armas é o comércio. A Índia impôs boicotes a brinquedos e telefones celulares fabricados pela China. Uma outra é a mobilização de tropas. A Índia recentemente afrontou a China ao aumentar o número de soldados que mantém na fronteira himalaia.

Mas embora a Índia possa conter o fluxo de mercadorias chinesas para o seu território, ela pouco pode fazer quanto àquilo que vê como uma penetração regional no recém-triunfante Sri Lanka; em Mianmar, um país dominado por militares; e no arquiinimigo Paquistão; bem como no Nepal, o ex-reino das montanhas.

As autoridades de defesa indianas observam as atividades chinesas no Sri Lanka com especial preocupação - até porque a ilha encontra-se em importantes rotas de navegação pelas quais transitam grande parte do petróleo comercializado do mundo.

Os armamentos chineses foram decisivos nos estágios finais da guerra de Colombo contra os Tigres Tâmeis, afirmam os especialistas em defesa. Pequim quintuplicou o seu auxílio financeiro ao Sri Lanka para US$ 1 bilhão (R$ 1,98 bilhão) por ano, e ampliou a oferta de armamentos sofisticados, como os aviões de caça Jian-7, armas antiaéreas e radares de vigilância aérea.

Além de ser uma fornecedora de armamentos, a China também atuou como um importante aliado diplomática do Sri Lanka, ajudando a repelir as críticas ocidentais feitas nas Nações Unidas devido às violações dos direitos humanos cometidas por Colombo quando derrotou os Tigres Tâmeis, em uma operação militar que custou milhares de vidas civis.
"Sob ambos os aspectos - diplomacia e fornecimento de armas -, a China prestou uma ajuda inestimável ao Sri Lanka na guerra desta nação contra os Tigres Tâmeis", afirma R. Hariharan, um coronel da reserva que tornou-se analista político. O presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, consolidou as relações entre os dois países em 2007, ao conceder a companhias chinesas contratos para a construção do porto de Hambantota, no seu reduto eleitoral. O porto, de maior profundidade do que o de Colombo, a capital, proporcionará um local para atracação e reabastecimento para navios mercantes e de guerra chineses, entre outros.

Segundo o coronel Hariharan, tais medidas poderiam fazer com que o Sri Lanka emergisse como "um reduto amigável" a partir do qual seria possível vigiar rotas de navegação cruciais - o que é mais uma preocupação para a Índia, que vê na ilha a vanguarda meridional das suas defesas estratégicas.

Ao leste da Índia, a China emergiu como o aliado mais próximo e o protetor internacional da isolada junta militar de Mianmar, que é desprezada pela maioria dos governos ocidentais e é alvo de sanções. A China é o maior parceiro comercial de Mianmar, e corre o boato de que os chineses possuem uma base de escuta eletrônica no sul daquele país, na Baía de Bengala.

"Não acredito que exista algum esquema chinês sinistro em Mianmar, mas, com as sanções ocidentais, houve um vácuo naquele país, e a China tem se mostrado mais do que satisfeita em preencher este vácuo", afirma Thant Myint-U, um especialista nas relações entre Mianmar, China e Índia.

Pequim, que protegeu repetidamente Mianmar no Conselho de Segurança da ONU, está sendo recompensado com o acesso a parte das ricas reservas de gás birmanesas a "preços de amigo", segundo alguns especialistas em Mianmar. A China está começando a construir um oleoduto que transportará petróleo de Sittwe, na Baía de Bengala, até à China.
Para as autoridades governamentais indianas - algumas das quais ainda recordam-se de quando Mandalay, a segunda maior cidade de Mianmar, era a cidade mais oriental da Índia britânica -, os laços estreitos entre Pequim e os generais birmaneses são um motivo de profunda preocupação.

"Em Mianmar, o governo mais atroz e maligno é apoiado pela China, e a Índia não tem escolha, a não ser fazer algo quanto a isso, para que não sejamos uma nulidade total naquele país", diz um diplomata graduado aposentado, que pediu que o seu nome não fosse revelado. "Mas não podemos permitir que pessoas (a China) machuquem e cutuquem um animal na nossa floresta e depois nos obriguem a lidar com o tigre ferido".

A China também é aliada daquele país que muitos indianos consideram a maior de todas as ameaças: um Paquistão nuclearmente armado. Pequim fornece auxílio financeiro e técnico a Islamabad e a China é descrita por alguns diplomatas ocidentais como a nação que conta com as relações mais especiais com a república islâmica. As relações aprofundaram-se nos 40 anos transcorridos desde que o Paquistão sofreu sanções econômicas e militares dos Estados Unidos após a guerra de 1965 com a Índia.

"O Paquistão considera a China um amigo de confiança. Praticamente não há desentendimentos entre os dois países", diz uma autoridade do Ministério do Exterior paquistanês.

O projeto do porto em Gwadar, um dos mais notáveis exemplos da assistência chinesa, prevê uma representação naval, e rotas de transporte e de importação de matéria-prima energética que chegarão até à província de Xianjing, no oeste da China.

A China também emergiu como o maior fornecedor de equipamentos de defesa para o Paquistão, e está ajudando a renovar a força de caças de ataque do país.

Tais vínculos fizeram com que os especialistas indianos mais agressivos, que tradicionalmente concentram-se na ameaça representada pelo Paquistão, voltassem as suas atenções para o vizinho mais poderoso. Alguns advertem que a China é uma máquina de negócios impossível de se deter e movida a resultados, e que tem pouco tempo para sutilezas democráticas. "Todo prefeito e secretário do partido tem objetivos referentes a investimentos, produção e crescimento, que estão alinhados aos objetivos nacionais", diz Gurcharan Das, um analista político de Nova Déli e ex-diretor-executivo da Procter & Gamble da Índia.

Naresh Chandra, ex-embaixador da Índia nos Estados Unidos e ex-secretário de gabinete, diz que Pequim tem pouco interesse em fazer parcerias com Nova Déli para desenvolver uma abordagem regional comum. "Eles não conseguiram reconhecer o seu próprio poder para fazer coisas boas na Ásia. Todo o raciocínio deles baseia-se no Exército de Libertação Popular", diz Chandra.

As ansiedades de Nova Déli têm sido exacerbadas pela deferência crescente do Ocidente em relação a Pequim, especialmente no que se refere aos Estados Unidos, que esperam que o dinamismo econômico da China tire a economia global da sua atual crise.
"Não estamos em uma posição que nos permita enfrentá-los militarmente, economicamente e, agora, nem mesmo politicamente", afirma Ghose. "A única opção que temos é diplomática. No momento, o Estados Unidos não ajudam em nada".

Muitas autoridades indianas preferem fazer comentários mais brandos a respeito da China e o seu "colar de pérolas". Kamal Nath, um ministro de gabinete e ex-negociador comercial, diz que a Índia e a China seguem dois modelos diferentes mas não precisam se antagonizar mutuamente na busca de crescimento e poder.
"Essa história não pode ser Índia versus China. Ela tem que ser Índia e China", afirma Nath.

*Joe Leahy e Farhan Bokhari contribuíram para esta matéria.



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