Rússia sob pressão

Stefan Wagstyl
Em Moscou

Com seus sapatos cor-de-rosa chamativos e tailleur elegante, Margarita Koledzinskich parece fora de lugar entre as batatas e abóboras de sua pequena horta.

Mas três vezes por semana ela vem de carro de sua casa, na cidade industrial de Chelyabinsk, na região do Montes Urais, na Rússia, para cuidar de suas batatas e abóboras, assim como de seus tomates, pimentas, abobrinhas e alho-poró, além das macieiras e cerejeiras.

Koledzinskich e sue marido Yevgeny Usov estão entre o crescente número de russos das cidades que estão respondendo à crise econômica no país recorrendo pela primeira vez ao cultivo de hortas. Eles estão se juntando a jardineiros experientes que estão aumentando sua produção para alimentar suas famílias e vender o excedente em mercados ou bancas à beira da estrada.

A corrida ao campo é uma resposta tradicional a crises econômicas, que são mais familiares aos russos, ucranianos e outros europeus orientais do que aos ocidentais. Os europeus orientais só precisam recuar até os anos 90 para lembrar de hábitos que podem ajudar as pessoas mais pobres a sobreviverem em tempos difíceis. A maioria dos europeus ocidentais precisa recuar até a Segunda Guerra Mundial e os americanos, aos anos 30.

Com a contração da economia russa, centros de jardinagem de todo o país informam um grande aumento nas vendas de sementes de alimentos e uma queda na procura de sementes de flores, à medida que os cultivadores trocam peônias por batatas.

"Nós concluímos que não tínhamos dinheiro suficiente. Yevgeny perdeu seu emprego e eu não recebo desde fevereiro. Há uma crise, então precisamos fazer algo", disse Koledzinskich, que trabalha como contadora em uma empresa de segurança. Ela está particularmente preocupada com o pagamento das prestações de seu Volkswagen Passat. "É o melhor carro que já tive. No passado, eu sempre dirigi carros de menina -um Polo e um Jetta. Mas este é um carro de verdade."

Assim como metade de todos os moradores de áreas urbanas na Rússia, Koledzinskich e Usov possuem uma dacha -uma propriedade no campo, frequentemente dividindo o espaço com centenas de terrenos semelhantes. Nos lugares ricos, as dachas dão lugar quase que totalmente a casas de fim de semana, às vezes com quadras de tênis e piscinas. Em outros lugares, chalés modestos de madeira e gramados são comuns. Mas as pessoas mais pobres costumam usar grande parte do terreno para cultivar alimentos para complementar os magros salários e pensões.

O terreno de Koledzinskich é um entre cerca de 1.000 no sítio Sputnik de Chelyabinsk, que fica localizado entre uma rodovia e uma ferrovia. Não se trata de uma propriedade de primeira linha. Mas para seus proprietários, ela fornece certo espaço de vida fora de seus apartamentos frequentemente apertados na cidade. Alguns terrenos são demarcados por bem cuidadas fileiras de plantações de batata e árvores frutíferas. Outros são uma mistura de cercas, bambus e trepadeiras.

Koledzinskich diz que alguns proprietários há muito cultivam alimentos, principalmente os aposentados que se recordam da fome durante a Segunda Guerra Mundial e depois dela. Mas outros, como ela, começaram só agora.

"Foi engraçado. Quando começamos a cavar os buracos para plantar batatas, nós não tínhamos a menor ideia. Então colocamos cinco sementes em cada buraco em vez de uma para cultivar mais. Meus pais riram quando contei. Vamos ver o que acontecerá", diz Koledzinskich. Ela diz que gosta de trabalhar e está determinada a produzir o máximo de alimentos frescos possível para seu filho deficiente de nove anos. Normalmente Sputnik é um local pacífico, exceto pelo ruído dos veículos na estrada e dos trens. Mas por algumas poucas horas às quartas, sábados e domingos -quando o fornecimento de água é ligado- multidões se formam ao redor dos canos. Os proprietários fazem fila para encher recipientes que usarão para aguar seus terrenos antes que o abastecimento seja interrompido.

A proporção de proprietários de dacha cultivando alimentos passou de 72% em 2005 para 81% neste ano, segundo o Centro Russo de Pesquisa de Opinião Pública. Olga Kamenchuk, a diretora de relações internacionais da empresa, disse que os novos agricultores são na maioria de cidades pequenas, não de Moscou ou São Petersburgo. Mas em toda parte, inclusive, Moscou, as pessoas que já cultivavam alimentos estão produzindo mais.

"Pessoas que cultivam como hobby estão plantando para alimentarem a si mesmas e suas famílias, assim como produzem para vender devido à crise", disse Kamenchuk.

Na região de mineração de carvão de Kemerovo, no oeste da Sibéria, Aman Tuleev, o governador, anunciou que está plantando batatas neste ano e pediu aos seus cidadãos que façam o mesmo. Aqueles que não possuem terra podem requisitar um terreno gratuito. O parlamentar Vasily Zacharyashev pediu ao presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, que responde à crise econômica e estenda a política de terrenos gratuitos para todo o país.

Em Kazan, na região central da Rússia, Vladimir Mazo, o chefe da Mundo Dacha, uma empresa de jardinagem, disse que no ano passado apenas cultivadores experientes estavam comprando sementes de batata e alho-poró. "Agora, a demanda por elas é geral", ele disse. A empresa estima que as vendas de sementes de batata saltaram 2,5 vezes desde o ano passado. As vendas de sementes de alho-poró também dobraram.

Em São Petersburgo, a loja Pomar e Jardim relata "aumentos significativos" nas vendas de sementes de alimentos e uma queda de 20% a 30% nas vendas de sementes de flores. "Muitas pessoas abrem mão da beleza quando não possuem dinheiro suficiente para a comida", disse um porta-voz.

O preço dos alimentos é a grande questão
A economia da Rússia retraiu 10% no primeiro semestre deste ano, segundo o Ministério da Economia, a maior queda desde o início dos anos 90. O banco central alerta que as dívidas podres podem atingir 12% dos ativos dos bancos. Os banqueiros dizem que o número pode ultrapassar 20%, e alguns estão pedindo às autoridades aumentem seu apoio, além dos mais de 1 trilhão de rublos (US$ 31 bilhões) já destinados à recapitalização das instituições financeiras.

O desemprego subiu de menos de 6% no início do ano passado para mais de 10% e está crescendo. Aqueles que ainda têm emprego estão sofrendo reduções salariais e nas horas de trabalho. Mas os atrasos no pagamento dos salários continuam razoavelmente baixos.

Enquanto isso, a inflação está em queda, mas em 12%, ainda permanece a mais alta de qualquer grande economia europeia. Os aumentos de preços atingem de forma particularmente dura os pobres -nas pesquisas, os russos citam os aumentos de preço dos alimentos como sua maior dor de cabeça econômica, maior até que o desemprego. Cultivar seu próprio alimento é uma resposta perfeitamente racional.

Tradução: George El Khouri Andolfato Pessoas da cidade voltam ao campo para enfrentar os tempos difíceis

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