Quando os EUA espirram: lutando contra a gripe suína

Brian Groom

A pandemia de gripe espanhola de 1918, que matou dezenas de milhões de pessoas, atacou com virulência devastadora em um mundo abalado por quatro anos de guerra. A pandemia de gripe suína de 2009, em comparação, chega em um momento de paz, mas em que o mundo está sofrendo com a pior recessão econômica em 60 anos.

O surto do vírus de H1N1, primeiramente identificado no México em abril, está se espalhando com velocidade sem precedentes com a ajuda da viagem moderna. Felizmente, até agora está suave -quase igual a uma gripe comum- apesar de afetar grupos incomuns, como jovens adultos e mulheres grávidas.

A Organização Mundial de Saúde, que ontem disse que a doença tinha se espalhado para 160 países e matado cerca de 800 pessoas, espera uma pandemia de "severidade moderada", a não ser que o vírus sofra uma mutação e se torne mais letal. Há uma corrida para fornecer uma vacina antes do início da temporada de gripe no hemisfério Norte, no outono.

Essa ameaça vem num período em que a confiança nos governos já foi abalada por seu fracasso em prever ou prevenir a crise financeira. As empresas também estão distraídas combatendo a recessão. No Reino Unido, apenas 43% das firmas acreditam que estão bem ou moderadamente preparadas para a pandemia, de acordo com dados reunidos pelo Chartered Management Institute. Os funcionários foram advertidos que um em cada cinco trabalhadores talvez esteja ausente no pico da infecção. Para empresas pequenas -ou departamentos críticos- pode ser pior.

As empresas advertidas de uma possível pandemia fizeram preparativos extensos nos últimos três anos, por exemplo, para garantir que alimentos sejam distribuídos, caixas eletrônicos sejam vistoriados e transações online, executadas. As empresas de alguns países talvez estejam menos preparadas, particularmente se tiverem demitido na crise. A robusteza da Internet será testada se milhões de pessoas trabalharem de casa. As multinacionais podem enfrentar problemas nas fronteiras, na medida em que os países adotarem diferentes medidas para combater a doença.

Economistas estão lutando para fazer previsões significativas do impacto, sentido até agora principalmente nas Américas, Austrália e no Reino Unido. No México, que teve 14.800 casos e 138 mortes, a gripe suína pode derrubar 0,3 a 0,5% do PIB deste ano, de acordo com a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e Caribe.

O Ernst & Young Item Club adverte que a gripe suína pode custar ao Reino Unido até 3% do PIB neste ano e 1,7% no próximo. "Com o mundo ocidental ainda à beira da deflação, não é um exagero dizer que uma pandemia nessa escala pode ser a gota d'água", diz.

Outros são mais circunspectos. "A não ser que a gripe suína comece a matar mais pessoas por caso registrado, ou a não ser que a mídia consiga causar um alarme frenético, o impacto na economia e no mercado pode ser pequeno", diz Rob Carnell, diretor economista internacional da ING. Colin Ellis, economista europeu da Daiwa Securities Smbc, acha que países desenvolvidos podem ter um mergulho em vendas de varejo e na confiança do consumidor, custando ao Reino Unido, na pior das previsões, 1,5% do PIB. Mas se a China, que foi atingida apenas levemente até agora, for mais afetada, "pode ser bastante preocupante".

Ontem a Austrália disse que tinha 16.567 casos confirmados, um acréscimo de 25% em quatro dias. Ao menos 46 pessoas morreram desde o primeiro óbito, há apenas cinco semanas. Robert Marks, economista da Universidade de New South Wales, diz que o custo econômico até este estágio não parece ser pior do que o da gripe comum, "mas há custos associados com as reações das pessoas ao vírus e estes são difíceis de quantificar". Ele diz que as empresas ainda não avaliaram seriamente qual seria o impacto se uma grande percentagem de sua mão-de-obra tiver que ausentar-se.

Os clientes também estão sumindo. A Air New Zealand culpa o H1N1 por uma queda de quase 25% no número de passageiros em junho nas rotas para Ásia, Japão e Reino Unido em relação ao ano passado.

Nos EUA, mais de 1 milhão de pessoas têm gripe suína -cerca de um americano em cada 300- e 263 morreram. Máscaras cirúrgicas estão sendo vendidas rapidamente e desinfetantes para as mãos surgiram em toda parte, desde caixas de supermercado até a recepção do Fundo Monetário Internacional.

As autoridades acham que, diferentemente da gripe comum, os casos de gripe suína talvez aumentem quando as crianças voltarem para as escolas. "Não haverá uma vacina disponível até outubro, e as escolas em muitos Estados começam em duas semanas", disse Janet Napolitano, secretária de segurança interna.

Os EUA planejam desenvolver um programa de vacinação junto com um esforço de comunicação nas escolas, municípios e empresas. O governo federal vai deixar decisões sobre o fechamento de escolas para autoridades locais, mas quer garantir que as empresas estejam preparadas para faltas frequentes. No que ele chamou de "abundância de cautela", o presidente Barack Obama acrescentou um pedido de US$ 7,7 bilhões (em torno de R$ 14 bilhões) para combater o vírus a um projeto de lei de financiamento de guerra, no mês passado.

"Você tem algumas empresas muito avançadas em preparativos. Outras não se concentraram na questão -estão mais concentradas em sua sobrevivência econômica imediata", diz Stephen Jordan, diretor executivo do Centro de Liderança Cívica Empresarial.

Sidney Weintraub, economista-chefe do Centro de Estudos Estratégicos, diz que, "se tudo for razoavelmente bem", o surto provavelmente vai derrubar meio ponto percentual do PIB. Mas se as coisas se deteriorarem no outono e a vacina não ficar pronta rápido o suficiente, pode causar uma queda de 1,3 a 1,5% no PIB.

No Reino Unido, os casos suspeitos praticamente dobraram em uma semana, de 55.000 para 100.000, e 30 pessoas morreram. Foram criados uma linha telefônica nacional e serviço de aconselhamento por Internet -"pouco demais, tarde demais", de acordo com a oposição conservadora. Ben Willmott, do Chartered Institute of Personnel and Development, diz que resposta oficial "foi realmente bastante boa. A orientação para as empresas é clara".

As respostas corporativas vão desde o Hsbc, que distribuiu a droga antiviral Tamiflu para seus funcionários, até a J. Sainsbury, cadeia de supermercado que armazenou máscaras cirúrgicas. O Cipd aconselha as empresas a garantirem suas operações com níveis mínimos de funcionários, identificarem tarefas cruciais que precisam ser executadas e fazerem o máximo possível online.

Na Espanha, com 1.526 casos confirmados e cinco mortos, agentes de turismo culpam o medo de viajar como fator da queda profunda no número de visitantes. Um guia do governo para empresas sobre como minimizar o impacto na produtividade será publicado na próxima sexta-feira, quando a maior parte dos espanhóis sai para as férias de verão. "Outros países, tais como o Reino Unido, tiveram mais visão e criaram um plano detalhado sobre como lidar com uma pandemia de gripe desde março", escreveu o jornal "El Economista".

A Alemanha ainda não está em pânico, apesar do jornal influente "Bild" bradar "O vírus está fora de controle!" em sua primeira página. A maior parte dos 2.500 casos é de turistas alemães voltando da Espanha, mas não há indicação de que o governo planeja impedir as viagens.

Na Messer, uma indústria alemã especialista em gás com 4.700 funcionários em 120 pontos pela Europa e Ásia, as pessoas estão se acostumando a não se cumprimentarem com as mãos. Diana Buss, porta-voz e membro da "equipe de pandemia" corporativa, diz que é uma das medidas que a empresa introduziu desde que a OMS aumentou seu nível de advertência.

Sabão e lenços desinfetantes descartáveis estão disponíveis em todos os andares e os funcionários que voltam de viagem são obrigados a visitar a enfermeira de plantão para medir a temperatura. A campanha para "ser educado sem dar as mãos" aparentemente foi aprovada pelos funcionários e fornecedores, mas ainda deverá ser testada com novos clientes. "Apenas sorrimos uns para os outros e começamos a falar", diz Buss.

Na Ásia, Tai Hui do Banco Standard Chartered diz que os efeitos foram limitados se comparados com o surto de Sars de 2003, apesar de acrescentar: "(A gripe) pode ter um impacto econômico não apenas nos destinos turísticos, como Tailândia, mas também em centros de transporte como Cingapura e Hong Kong, se ficar mais severa."

A China tomou medidas mais extremas do que qualquer outro país, provocando indignação de milhares de turistas internacionais presos em quarentena. Como dezenas de crianças britânicas e americanas descobriram, Pequim ordenou exames rígidos em aeroportos e fronteiras. A China registrou quase 1.800 casos de gripe suína, mas não acusou nenhuma morte.

Com a lembrança da Sars -que se originou na China, mas foi inicialmente acobertada pelo governo- ainda fresca, Pequim reagiu rapidamente quando os primeiros casos de gripe suína foram registrados no México. Para o Partido Comunista chinês, uma pandemia impõe risco político ao seu governo autoritário.

Em meio a tudo isso, a OMS está sob pressão enquanto luta para coordenar uma resposta global. Alguns especialistas em saúde dizem que os dados clínicos necessários para a alocação de recursos escassos não estão sendo distribuídos com a rapidez necessária. Como com a crise financeira e econômica, essa pandemia será um forte teste da cooperação internacional.

Tradução: Deborah Weinberg

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