Caos no Irã não deveria distrair o Ocidente ao buscar acordo

Um líder no ápice do poder arrisca a legitimidade do regime ao apostá-lo numa figura divergente. Ele força a oposição enraivecida, que sente que foi roubada nas urnas, a aceitar a decisão.

Quando esse líder se desentende publicamente com seu escolhido, algo está muito errado. Assim é o Irã, onde a coesão da teocracia rachou ao ponto em que sua base de apoio também está pronta para a luta.
  • Farhad Rajabali/AFP

    Manifestante cobre o rosto com máscara e gesticula para os policiais que acompanham
    o protesto da oposição no cemitério Behesht-e Zahra, em Teerã, no dia 31 de julho



Nos últimos dias, o aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo no ápice do sistema, ordenou que Mahmoud Ahmadinejad, o imprevisível presidente reeleito no que pareceu uma grande fraude eleitoral, dispensasse seu vice-presidente.

Khamenei, cuja posição constitucional na República Islâmica faz com que ele tenha de responder a Deus e não aos cidadãos do país, comprometeu sua elevada posição ao apoiar Ahmadinejad.

Sua decisão foi tomada apesar de um levante da oposição cívica durante a disputada eleição de junho e suas consequências tumultuadas e sangrentas. Então o que quer dizer tudo isso?

Ahmadinejad levou quase uma semana para obedecer ao Líder Supremo, fazendo com que até os linha-dura que o apoiavam ameaçassem publicamente tirá-lo da jogada.

Em meio ao fogo cruzado vindo de todo o ancestral espectro político iraniano, o presidente não conseguiu nem mesmo montar um gabinete. Ontem ele denunciou um plano para separá-lo de Khamenei, a quem ele protestou fidelidade: "é como a relação entre um pai e seu filho", disse. Se é assim, por que há necessidade de dizer isso?

A extensão da brutalidade pós-eleições e a perda de legitimidade ultrapassou as fileiras dos reformistas e conservadores pragmáticos, liderados pelo ex-primeiro-ministro Mir-Houssein Mousavi, o candidato derrotado, ex-presidentes Mohammad Khatami e Akbar Hashemi Rafsanjani, e os líderes clérigos xiitas.

O espancamento até a morte na prisão de Mohsen Rouhalamini, filho de um líder fundamentalista, provocou uma repulsa contra a reviravolta sem lei dos acontecimentos até mesmo entre os teocratas. Centenas de presos durante os protestos recentes estão sendo libertados; Khamenei ordenou o fechamento da notória prisão de Kahrizak.

Um regime que, apesar de alegar seu mandato divino, sempre atribuiu muita importância à legitimidade dada pelo povo, está tentando desesperadamente recuperá-la.

Ahmadinejad deve assumir o poder na próxima semana, mas seu futuro está longe de ser garantido.

Os EUA e o Ocidente, assistindo à discórdia em Teerã, mas priorizando impedir as ambições nucleares do Irã e ancorá-lo numa nova trégua, deveriam manter essa hipótese de trabalho.

Khamenei e seus partidários assumiram um risco muito alto nas eleições por causa do medo das táticas de diálogo de Barack Obama. Eles confiam apenas em si mesmos para negociar com o presidente norte-americano. Tradução: Eloise De Vylder

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