"É assim que a Itália funciona"

Guy Dinmore

Depois de passar de garota de programa à candidata parlamentar e ser marginalizada pelos que temiam que revelasse seus segredos, a história de Patrizia D'Addario como acompanhante que foi a público sobre sua noite com Silvio Berlusconi tem aspectos de uma novela.

  • EFE/Thomas Padilla
Há também o lado negro da experiência da mãe solteira de 42 anos que se vê como parte do "sistema" italiano, no qual empresários pagam mulheres para entreterem políticos.

"O sistema é assim. A Itália toda funciona assim", disse D'Addario com naturalidade, de sua cidade natal Bari, um porto sulino que fez muito para superar sua fama de terra corrupta de gangues.

Loura e magra, D'Addario usava um vestido de bolinhas de verão escolhido para uma sessão de fotos na frente do mar. Ela estava no escritório de seu advogado, que ocasionalmente participa com conselhos. D'Addario diz que foi a público para se proteger.

"Tive a mesma experiência com outros empresários. Eles me pedem para encantar políticos", revela, sem dar nomes. Perguntada se os políticos eram de direita ou esquerda, ela diz que é tudo a "mesma coisa".

O escândalo que assomou a Itália e abalou a coalizão de centro-direita de Berlusconi talvez não tivesse vindo à luz não fosse pelas gravações secretas que ela diz ter feito com o barão da mídia e primeiro-ministro, em sua residência em Roma, festejando na noite das eleições americanas do ano passado.

Por meses, ela não falou a ninguém sobre as gravações, até que denunciou sua existência em uma conversa telefônica com um conhecido. Pouco tempo depois, no dia 18 de maio, seu apartamento foi invadido. Os intrusos levaram seus vestidos, inclusive o curto que usou na festa em Roma, roupas de baixo, CDs e fotografias dadas a ela por Berlusconi.

Ela suspeita que estivessem procurando as gravações, que não foram levadas.

Enquanto isso, Giampaolo Tarantini, diretor de uma empresa de próteses em Bari que tinha apresentado D'Addario e outras mulheres ao primeiro-ministro, a promoveu -com aprovação de Berlusconi- como candidata pelas eleições europeias em junho. Tarantini não nega ter feito a apresentação.

Em uma terra na qual contatos e "recomendações" frequentemente superam o mérito, D'Addario parecia prestes a seguir o caminho da fama e dos salários generosos apreciados por outras mulheres glamorosas promovidas pelo mundo de entretenimento e política de Berlusconi.

Contudo, seu futuro como representante europeia foi descarrilado quando Verônica Lario, atriz e esposa de Berlusconi, denunciou o marido no dia 3 de maio. Lario pediu o divórcio, acusou-o de ter um relacionamento com uma adolescente de Nápoles e deplorou seu modo de usar mulheres na política.

Como resultado, D'Addario alega ter sido rebaixada à candidata em eleições locais de um partido regional, o Puglia Em Primeiro Lugar, ligado ao Povo da Liberdade, de Berlusconi. Contudo, no dia 31 de maio, seguranças que acompanhavam Berlusconi a uma conferência de imprensa para candidatos à eleição em Bari a impediram de entrar, segundo ela.

Assustada e com raiva, ela se retirou da campanha. Barabara Montereale, outra "acompanhante" que iniciou sua carreira política entretendo Berlusconi, continuou candidata.

D'Addario então foi convocada a responder perguntas de um promotor público de Bari que estava investigando Tarantini por suspeita de corrupção. Ele também era suspeito de contratação de prostitutas. Ele não foi condenado e nega as duas acusações.

D'Addario procurou a mídia para se "proteger", mas insiste que não deixou vazar suas gravações, que depois foram divulgadas na Internet.

Ela diz que foi levada a contar sua história porque Berlusconi quebrou sua promessa.

A acompanhante, que se encontrou com Berlusconi duas vezes, diz ter pedido ajuda dele e que sua família foi impedida pelas autoridades locais de modificar uma licença de construção dada para uma propriedade.

O caso levou seu pai ao suicídio, o que a deixou sozinha a sustentar a filha e a mãe, procurando trabalho como acompanhante.

"Ele (Berlusconi) prometeu apressar o projeto enviando duas pessoas, mas elas nunca apareceram", diz ela.

O primeiro-ministro inicialmente negou as alegações de D'Addario. Depois, disse que não se lembrava dela. Após as gravações serem divulgadas na Internet, brincou: "Não sou santo."

Ontem, seu escritório disse que não tinha nada mais a dizer em resposta às alegações D'Addario.

As agências de acompanhantes não oferecem mais trabalho para D'Addario, que sente que foi marginalizada por romper o código de discrição.

"Fui a única a falar a verdade", disse sobre as mulheres que estavam com ela na festa de Berlusconi em novembro. "Se outras falarem a verdade, talvez haja esperança de mudança do sistema. Se ninguém fala, quem vai mudar o sistema?"

Suas acusações de corrupção devem ressoar pela comunidade empresarial italiana. Enquanto isso, novas investigações em Bari estão se concentrando em suspeitas contra políticos de centro-esquerda envolvidos em fechar contratos de saúde.

Quanto a Berlusconi, está superando a tempestade, apesar de as pesquisas indicarem que sua popularidade caiu e seus assessores dizerem que está enfraquecido.

Tradução: Deborah Weinberg

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