O público permanece distante enquanto Chávez leva a revolução para a telona

Benedict Mander

Há poucos ídolos mais apropriados para a revolução socialista de Hugo Chávez do que Ezequiel Zamora, o herói da guerra civil da Venezuela do século 19, cujo ódio pela oligarquia motivava sua luta por terras e liberdade para os pobres.

Veja trailer de "Zamora"

Não é de se estranhar que sua história tenha virado tema de um filme que será lançado no próximo mês pela La Villa del Cine, o estúdio de cinema estatal da Venezuela, cuja meta principal é promover os ideais da revolução bolivariana de Chávez e combater a "ditadura de Hollywood".

La Villa del Cine é um dos pilares da revolução cultural de Chávez.

O estúdio visa estimular a indústria cinematográfica local estagnada e a cultura venezuelana, minando a influência, segundo Chávez, penetrante e perniciosa do imperialismo cultural americano na Venezuela.

"Zamora vive! Nós seremos vitoriosos!" bradou Adán Chávez, o irmão do presidente e governador do Estado onde ocorreram as maiores vitórias de Zamora, após uma recente pré-estréia do filme -uma das principais produções da La Villa del Cine.

"É nosso dever resgatar essas figuras", disse o diretor do filme, Román Chalbaud, que é simpatizante da revolução de Chávez e é considerado um dos diretores mais importantes da Venezuela.

"Os vencedores escrevem a história: Zamora foi transformado em um bandido comum porque lutava pelos pobres."

Chalbaud lamentou o fato da Venezuela ter se acostumado à cultura trash de influência americana. Os cinemas venezuelanos, segundo ele, parecem "mais restaurantes onde as pessoas derrubam pipoca por toda parte e falam em celulares".

"Nós temos que acabar com isso, que é vergonhoso. Nós temos que educar as pessoas, fazê-las se acostumarem a outro tipo de cinema."

Chalbaud rejeita as alegações de que La Villa del Cine apenas produz filmes de propaganda que veneram a revolução bolivariana e incitam o sentimento nacionalista. Mas muitos críticos independentes apontam para um forte elemento ideológico presente nas produções do estúdio.

Além disso, dizem os críticos, a diversidade dos projetos do La Villa del Cine é restringida pela necessidade de aprovação por políticos que dificilmente aprovariam a produção de um filme que expusesse os piores aspectos da sociedade venezuelana.

Um recente filme independente, "Secuestro Express", que apresentava um retrato perturbador da criminalidade em Caracas, atraiu fortes críticas do governo, apesar de ter sido um enorme sucesso de bilheteria.

De qualquer forma, a produção da La Villa del Cine tem fracassado em atender às expectativas desde que se tornou plenamente operacional em 2006. Apenas seis filmes foram lançados ao público em 2007-2008, além de seis documentários.

O primeiro filme do estúdio neste ano só chegou ao cinemas neste mês. Outros 12 filmes e documentários estão em fase de pós-produção.

Tudo isso contrasta com as declarações oficiais em 2007, de que 19 longas-metragens seriam lançados apenas naquele ano.

"A colheita tem sido pobre", disse um proeminente crítico de cinema venezuelano, Alfonso Molina, que expressou decepção com a qualidade de muitos dos filmes produzidos até o momento pela La Villa del Cine.

Mas alguns foram aclamados pela crítica, como "Miranda Regresa", sua primeira produção, um épico de capa e espada de grande orçamento, sobre um dos heróis da independência da Venezuela.

Mais preocupante, entretanto, é que poucos venezuelanos estão de fato assistindo aos filmes da La Villa del Cine. Isso apesar do governo ter criado uma nova empresa estatal de distribuição, "Amazonia Filmes", e um circuito nacional de salas de exibição para "democratizar" o cinema.

Segundo estimativas do setor, cerca de 25 milhões de ingressos de cinema foram vendidos para os cerca de 150 filmes exibidos nos cinemas comerciais da Venezuela em 2008, que excluem o circuito relativamente limitado de Cinematecas estatais. Apenas 800 mil desses ingressos foram vendidos para os 15 filmes produzidos na Venezuela, e menos de 75 mil deles foram para os quatro filmes produzidos pela La Villa del Cine. A Cinematece vendeu cerca de 90 mil ingressos no ano passado, apesar de apenas uma proporção limitada dos filmes exibidos ser da La Villa del Cine. A maioria dos filmes exibidos é de origem estrangeira.

"O problema é que esses cinemas estão vazios. Os espectadores simplesmente não vão. Não há promoção, não há marketing... porque isso é coisa do capitalismo", disse Molina.

Ainda assim, o La Villa del Cine obteve elogios de vários importantes atores de Hollywood, como Sean Penn, Kevin Spacey e Danny Glover. "Todo país deveria ter isso", disse Spacey durante uma visita aos modernos estúdios nos arredores de Caracas em 2007.

De fato, Danny Glover obteve US$ 18 milhões em 2007 junto ao governo venezuelano para financiar um filme sobre Toussaint Louverture, o líder de revolta dos escravos no Haiti e uma figura querida por Chávez. Muitos cineastas independentes venezuelanos se queixaram de que mais dinheiro foi dado para um único filme -ainda mais um feito por um estrangeiro- do que toda a indústria cinematográfica nacional recebeu em anos. O fato do filme ainda não ter sido concluído, como muitos dos projetos da La Villa del Cine, aumenta a irritação deles.

Todavia, os cineastas venezuelanos são gratos pelo governo ao menos estar fazendo um esforço para promover o cinema local, após um longo período de vacas magras nos anos 90. O problema está em seus métodos, disse Molina: "A influência de Hollywood, em nosso país ou em todo o mundo, não pode ser enfrentada com políticas medíocres e restritivas".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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