Indústria manufatureira chinesa está animada com pedidos de exportação

Tom Mitchell Em Dongguan e Guangzhou (China)

O Huajian Group, um fabricante de calçados sino-taiwanês, é precisamente o tipo de exportador chinês que deveria estar de joelhos. Com sede em Dongguan, um centro manufatureiro na província de Guangdong, no sul, o Huajian exporta 95% de sua produção para os Estados Unidos, o centro da crise financeira global.

"Os pedidos para o Natal estão chegando e provavelmente não serão tão grandes quanto no ano passado", disse Zhang Huarong, o presidente fundador do Huajian. "Mas as coisas estão melhorando no momento. Nossa margem de lucro caiu, mas os pedidos aumentaram 10% em comparação ao nosso pior momento (no início deste ano)." A empresa, ele acrescentou, aumentou recentemente sua força de trabalho em mais de 20% - de 18 mil para 22 mil trabalhadores - e aumentou os salários em 3%.
  • Eugene Hoshiko/AP

    Costureiras trabalham na linha de produção de uma fábrica de calçados em Wenzhou, China


A história é semelhante do outro lado da cidade, no parque de alta tecnologia do Lago Songshan de Dongguan, uma zona de desenvolvimento industrial modelo. Lá, a Celestica, uma ex-divisão da IBM, produz equipamentos de teleconferência e consoles do videogame Xbox para a Microsoft.

Segundo representantes da empresa, os pedidos de Xbox caíram cerca de 15% em comparação ao ano passado. "Este é o motivo para estarmos dando tanta ênfase na eficiência", disse um gerente. A Celestica não conta com nenhuma redundância de funcionários, preferindo contar com o atrito natural.

Apesar do Huajian e da Celestica estarem sobrevivendo em vez de prosperando, a performance das empresas é encorajadora, considerando a dor sofrida pelo setor exportador chinês.

Em Guangdong, que é o maior centro exportador da China, responsável por cerca de um terço das vendas do país para o exterior, as exportações caíram 18,3% nos primeiros seis meses deste ano em comparação a 2007, para US$ 153,4 bilhões.

Entretanto, isso é mais do que a província gerou no primeiro semestre de 2006, que foi um ano muito bom para os exportadores da China.

Esse macro desempenho parece validar as esperanças de Pequim de que a crise financeira ajudará a acelerar a fuga para a qualidade, beneficiando grandes exportadores como o Huajian e a Celestica às custas de fábricas menores e menos eficientes.

"A crise financeira global fez as empresas perceberem que precisam se reestruturar", disse Wang Yang, o mais alto representante do Partido Comunista chinês em Guangdong, aos repórteres em uma rara entrevista coletiva neste mês. "As fábricas que possuem produtos patenteados estão se saindo melhor, por exemplo."

"Nosso principal foco não está no crescimento do produto interno bruto, mas em como transformar a cidade, especialmente nossa estrutura industrial", acrescentou Zhu Xiaodan, o secretário do partido de Guangzhou, a capital da província. "Mesmo se tivermos que sacrificar parte de nosso PIB, nós queremos pagar esse preço."

O mantra de Wang e Zhu de qualidade acima da quantidade não é necessariamente a regra em um país onde 24 de seus 31 governos provinciais informaram taxas de crescimento do PIB acima da média nacional no primeiro semestre.

O prefeito de Dongguan, por exemplo, mantém a meta de sua cidade de crescimento de 10%, apesar de ter conseguido apenas um crescimento de 0,6% no primeiro semestre deste ano. Para tirar esse coelho da cartola, o governo de Dongguan está contando com a estabilização do setor de exportação enquanto o investimento em ativos fixos e o consumo compensam a diferença.

O crescimento parece ser mais uma obsessão na principal zona de desenvolvimento de Guangzhou, onde as autoridades calculam e se gabam de baboseiras estatísticas como produto econômico por metro quadrado de área.

Em empresas como a Vtron Technologies, o planejamento pode apontar para algo mais relevante: empresas de alta tecnologia abertas por empreendedores locais. A Vtron produz monitores interativos, do tamanho de paredes, que não pareceriam deslocados na ponte da espaçonave Enterprise, em um filme da série "Jornada nas Estrelas".

Entre os clientes da Vtron estão o controle de tráfego aéreo do Azerbaijão e os departamentos de polícia chineses, que combinam a tecnologia da Vtron com seus sistemas de vigilância de circuito fechado para aproximar e afastar as imagens das esquinas das cidades. As vendas anuais estão crescendo a uma taxa de 10% em comparação a algo entre 20% e 30% antes da crise.

"A Vtron é uma campeã escondida em um nicho de mercado", disse Tiger Tang, o diretor de relações públicas da empresa. O governo espera que muito mais empresas como ela surgirão.

Como colocou Wang, o secretário do partido de Guangdong: "A realidade cruel do mercado é a de que a inovação é essencial para a sobrevivência".

Tradução: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos