Dois anos depois, vítimas de terremoto no Peru ficam entre a ajuda chavista e os atrasos do governo

Naomi Mapstone
Em Chincha (Peru)

Milagros Collagos Olavarria estava em sua casa de adobe, ao lado da rodovia pan-americana, quando ouviu um estalo e sentiu a terra começar a tremer "como se fosse nos engolir".

Pegando seu filho pequeno Gerardo, a mulher de 25 anos correu para fora, onde seus vizinhos estavam gritando enquanto o sismo se intensificava. "Eu estava deitada no chão, me segurando. Paredes caíam, postes elétricos se partiam e então a rua se abriu", ela disse.

Collagos perdeu seis primos e tios naquele dia - vítimas de um terremoto que atingiu 8 pontos na escala Richter e afetou 75.700 casas, em uma área do Peru onde muitas pessoas já tinham dificuldades em ganhar a vida pescando ou colhendo alcachofras, aspargos, algodão e frutas cítricas.

Quando os tremores secundários passaram, cerca de 560 pessoas nas cidades de Pisco, Chincha e Ica estavam mortas. Sistemas de água e esgoto, telecomunicações, estradas e igrejas estavam em ruínas.
  • AP Photo/Ricardo Mazalan

    Em foto de 18 de agosto de 2007, desabrigado dorme na rua em meio aos escombros da cidade de Pisco, Peru, a mais afetada pelo terremoto de 8 graus na escala Richter que atingiu o país


Dois anos depois, enquanto a região ao sul da capital do Peru, Lima, se prepara para o aniversário do tremor às 18h40 de sábado, Collagos diz que é uma das que tiveram sorte. "Nós perdemos tudo, então um dia colocamos nosso nome em uma lista na praça e ganhamos uma casa", ela disse.

A loteria de 100 casas de três quartos, financiada por Hugo Chávez, o presidente de esquerda da Venezuela, faz parte de uma estratégia batida. O líder populista frequentemente envia ajuda de emergência e petróleo subsidiado ao exterior para promover sua "revolução bolivariana" e conquistar o apoio de aliados de esquerda como Ollanta Humala, que perdeu por pequena margem para Alan García, o presidente do Peru, em 2006.

Chávez conquistou a gratidão de Collagos e de seus vizinhos em Chincha, muitos dos quais exibem um adesivo da bandeira da Venezuela em seus lares assim como hasteiam a bandeira vermelha e branca do Peru.

As novas casas são, entretanto, uma ameaça política menor para García do que a candidata de direita Keiko Fujimori, que tem liderado as pesquisas de opinião enquanto os candidatos potenciais se posicionam para a eleição de 2011.

Todavia, a colcha de retalhos de casas brancas impecáveis, gramados verdes e playground pintado do bairro Simón Bolívar, batizado em homenagem ao herói da independência latino-americano, fornece um grande contraste às milhares de moradias temporárias na região.

"Eu estou furioso com o governo. A reconstrução tem sido muito, muito lenta", disse Emilio del Solar, o prefeito de Chincha Baja.

Segundo a Care Peru, uma agência de ajuda, apenas 2 mil das 52.154 casas destruídas no terremoto foram reconstruídas. A Care está usando tecnologia desenvolvida pela Universidade Católica de Lima após o terremoto de Pisco para construir casas de adobe resistentes a terremoto. "Esta é a primeira vez que temos tecnologia simples e eficaz o bastante para as pessoas construírem elas mesmas, com alguma supervisão técnica", disse Julio Salcedo, chefe do projeto de reconstrução da Care.

Uma casa de adobe de quatro quartos, resistente a terremoto, com banheiro e fogão externos, custa entre US$ 5 mil e US$ 6 mil para construir, usando mão-de-obra dos moradores, materiais fornecidos pelo Banmat, o banco estatal peruano, e supervisão e treinamento da Care. Ele estima que as casas de Chávez, construídas por engenheiros, custam US$ 30 mil cada.

A Care está treinando milhares de famílias na técnica de construção na esperança de lançar um programa de grande escala. "Mais de um ano se passou e o governo ainda não aprovou o modelo", disse Milo Stanojevich, diretor da Care Peru. "Em Chincha, nós treinamos mais de 2 mil famílias, mas acabamos construindo apenas 150 casas porque tivemos que usar dinheiro de doadores para construí-las."

O Forsur, o fundo de reconstrução do governo, diz que 330 milhões de novos sóis peruanos (US$ 112 milhões) foram investidos em serviços e infraestrutura na região. Francis Allison, o ministro da Habitação do Peru, prometeu uma "grande mudança" antes de dezembro, após a ampliação da meta do Forsur de reconstrução de lares privados tanto quanto infraestrutura pública. Ele culpa o governo regional pela falta de ação.

Mamaine, uma chef e líder comunitária no enclave afro-peruano de El Carmen, que ainda não tem esgoto, disse que as pessoas estão furiosas. "Por 20 anos as pessoas esqueceram que estavam vivendo em uma zona de terremoto. Agora nós sabemos que pode acontecer a qualquer momento."

De volta à praça destruída de Pisco, Jimmy Aicho Romero, um guia turístico, resumiu o sentimento local: "O governo tinha a capacidade de fazer muitas coisas, mas não fez".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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