Países pobres serão os mais atingidos pela influenza A (H1N1)

Clive Cookson

Desde o momento na última primavera (no Hemisfério Norte) em que a gripe suína varreu o México e deu início à primeira pandemia do mundo em 40 anos, especialistas médicos enfatizaram a imprevisibilidade do vírus da gripe. O refrão deles tem sido: "Espere o inesperado".

Até o momento, entretanto, o novo vírus H1N1 tem mais ou menos seguido o roteiro que os epidemiologistas escreveram para ele há três meses. O vírus tem seguido à risca o padrão sazonal normal de gripe, de forma que os surtos atuais são mais intensos no Hemisfério Sul, onde é inverno.

Enquanto isso, os epidemiologistas estão ocupados alimentando seus modelos de computador com os mais recentes dados, para dar aos governos e autoridades de saúde alguma orientação sobre o que provavelmente acontecerá a seguir.

Apesar da gripe ter a capacidade de surpreender, eles ficariam admirados caso não ocorresse um aumento dos casos no Hemisfério Norte no outono, após todos voltarem à escola e ao trabalho e o clima esfriar.

Se o vírus se tornará mais agressivo é menos certo. Há uma crença de que pandemias severas são precedidas por uma onda "precursora" mais branda da doença. Se for o caso, o perspectiva é sombria.

Mas uma nova análise no "The Journal of the American Medical Association", de autoria de dois especialistas americanos, David Morens e Jeffrey Taubenberger, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, parece demolir a teoria. Os autores examinaram os registros históricos de 14 epidemias ao longo dos últimos 500 anos - e não encontraram nenhum padrão consistente de gripe se tornando mais severa em ondas subsequentes.

Apesar de fazer a referência habitual ao "vírus notoriamente imprevisível", os autores concluíram cautelosamente que as características da mais recente variedade H1N1 "dão motivos para esperança de uma pandemia mais indolente e menos mortes do que em muitas pandemias do passado". Isso poderá tranquilizar pais preocupados em subúrbios prósperos por toda a América do Norte e Europa, preocupados com a disseminação da gripe suína por escolas e escritórios. Seja lá o que vier a acontecer, eles e suas famílias terão acesso a drogas antivirais e, em poucos meses, a vacinas.

Como acontece com todas as epidemias, as pessoas com mais motivos para se preocupar são aquelas que vivem no mundo em desenvolvimento - e os habitantes mais carentes do mundo industrializado. Aqui já existem alguns sinais de uma tragédia iminente.

Na Austrália, os aborígines e moradores das ilhas do Estreito de Torres, que correspondem a cerca de 2,5% da população, representam 10% das hospitalizações e mortes por gripe suína. "Devido à presença de doenças crônicas e seu nível mais alto de desvantagem social, os indígenas australianos estão vulneráveis às complicações do vírus H1N1 da pandemia de 2009", como notou o relatório de vigilância da gripe do governo de Canberra.

Um padrão semelhante está surgindo entre as comunidades empobrecidas das "Primeiras Nações" do Canadá. Também foram detectados os primeiros casos de gripe H1N1 entre tribos isoladas da bacia do Amazonas. E a infecção está ganhando impulso na Índia, com as autoridades em Mumbai ordenando o fechamento temporário de escolas e cinemas.

A gripe suína continua afetando principalmente crianças e jovens adultos, provavelmente porque as pessoas mais velhas têm alguma imunidade residual da exposição de variedades de gripe H1N1 de meados do século 20. Mas a boa notícia é que o vírus não está exibindo sinais de mutação para se tornar mais agressivo.

Entidades como a Organização Mundial de Saúde mantêm um levantamento global da incidência de gripe suína -o mais recente total mostra 188.272 casos confirmados, incluindo 1.945 mortes. Mas esses números precisos estão se tornando cada vez menos significativos, à medida que a pandemia cresce e a maioria dos pacientes com uma gripe mais branda não é testada.

As estatísticas oficiais certamente exageram a taxa de mortalidade da gripe suína, que especialistas dizem ser bem abaixo de 0,5%. A grande maioria dos casos é brando e é curado sem a ajuda de drogas antivirais como o Tamiflu.

Apesar de algumas poucas pessoas sem outros problemas de saúde terem morrido de gripe H1N1, os mortos consistem principalmente de pacientes portadores de outra doença ou fatores que enfraquecem o sistema imunológico, como obesidade e gravidez.

Mas está claro que por mais imprevisível que a gripe possa ser - e seja qual for a gravidade desta pandemia - o número de vítimas nos próximos meses será proporcionalmente bem maior entre os mais pobres do mundo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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