Famílias mexicanas lutam para sobreviver com fluxo de dólares secando

Adam Thomson Em Tarejero (México)

Em seus 57 anos, Juan Espinosa Téllez nunca se afastou de Tarejero, uma vila semi-indígena na região vulcânica central do México. Nos últimos meses, contudo, ele sentiu a recessão americana de tão perto quanto se fosse morador de um subúrbio deprimido de Los Angeles.

Em outubro do ano passado, os US$ 200 (cerca de R$ 400) por mês aos quais se acostumara a receber dos EUA subitamente secaram. Seus dois filhos não conseguiam mais trabalho regular no setor de construção da Califórnia e pararam de enviar dinheiro. Desde então, Espinosa não recebeu um centavo.
  • Sergio Suarez/El Universal

    Na Cidade do México, bairros pobres e periféricos, como o de Santa Fé, não param de crescer


"Essa era a única coisa que me mantinha", diz o colono desempregado. "Era a única coisa que mantinha todos nós", acrescenta, fazendo um gesto para a vila atrás dele.

Por ao menos uma geração, milhões de famílias no México sobreviveram - às vezes até prosperaram - com o dinheiro que filhos, filhas, irmãos e irmãs enviaram dos EUA. Em 2007, essas remessas aumentaram para mais de US$ 26 bilhões (em torno de R$ 52 bilhões) - quase o dobro da quantia gerada por ano pelo sólido setor de turismo mexicano.

Hoje, contudo, as remessas estão caindo mais rápido do que se previra. Os 12 milhões de mexicanos estimados nos EUA estão tendo dificuldades para encontrar trabalho que antes era abundante e relativamente bem pago.

O banco central mexicano diz que as remessas caíram 18,7% em abril em relação ao mesmo no ano passado. As autoridades dizem que não há perspectiva de mudança rápida. "Nesta altura, parece razoável imaginar que será um ano fraco de remessas", disse Salvador Bonilla, especialista de remessas do banco central do México.

Em nenhuma parte os efeitos devastadores dessa queda são tão visíveis quanto em Michoacán, um Estado grande, primariamente rural, a oeste da Cidade do México, que tradicionalmente é o que mais recebe remessas dos EUA.

Em Comanja, cidade perto de Tarejero, Guillermo Juarez Veja, o padre, diz que as contribuições durante a missa caíram cerca de 25% desde o colapso do Lehman Brothers, na segunda metade do ano passado.

Em Tlalpujahua de Ryón, cidade do extremo leste do Estado de Michoacán, Edgardo Arqueta diz que as vendas de remédios e cosméticos em sua farmácia despencaram. "As pessoas que compravam lenços úmidos para bebês hoje usam um pano molhado. As que compravam antibióticos, hoje usam plantas", diz ele.

Alguns problemas no Centro e no Sul do México, regiões mais dependentes das remessas, foram compensados pela depreciação de 30% do peso mexicano contra o dólar.

A redução de empregos nos EUA também significa menos pessoas deixando as aldeias, o que pressiona o mercado de trabalho local e significa mais bocas na mesa de jantar.

Rodolfo Cruz, especialista em migração do Colégio da Fronteira Norte (Colef) perto de Tijuana, no México, admite a escassez de dados precisos. Ele e seus colegas estimam que a emigração para os EUA, que há dois anos era de cerca de meio milhão de pessoas por ano, tenha caído 15%: "As pessoas ainda estão partindo, mas a queda dos números é muito real. Quando não há trabalho nos EUA, a notícia chega em um instante ao México."

Ainda assim, há poucos sinais da volta de grande número de mexicanos. Em Tarejero, Eunice Guzmán, de 23 anos, está aguardando seu marido, que passou quase seis anos na Flórida.

As coisas estão duras na agricultura onde ele trabalha. Mas ela não está com pressa. Como diz Cruz: "O mercado de trabalho pode estar ruim nos EUA, mas os imigrantes sabem que voltar ao México é voltar para algo muito, muito pior."

Tradução: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos