Afeganistão: Táticas do Taleban e governo ineficaz são responsáveis pela queda na participação do eleitor

James Lamont
Em Cabul (Afeganistão)

Um panfleto amplamente distribuído pela Comissão de Queixas Eleitorais do Afeganistão diz tudo em apenas três imagens.

Elas contam com as linhas vermelhas de proibido atravessadas sobre elas. Em uma, dois homens sorrindo trocam um punhado de notas de dinheiro afegão. Na segunda, um homem jovem com túnica branca e colete aponta um revólver contra o peito de outro. Na terceira, um patriarca de família segura quatro carteiras de eleitor e coloca três cédulas na urna.

Os três males desta eleição presidencial e provincial eram suborno, intimidação violenta e votar em nome de outra pessoa. Mas o pior e mais bem-sucedido deles foi a intimidação.

Às vésperas da eleição de quinta-feira, a comissão recebeu menos queixas do que há cinco anos, quando o presidente Hamid Karzai venceu como candidato de consenso. Quase 450 queixas pareciam modestas em uma campanha altamente competitiva, que colocou os principais candidatos presidenciais percorrendo o país e buscando votos além de suas bases étnicas tradicionais.

Como explicou um observador eleitoral da União Europeia, as queixas variavam de um cartaz rasgado até ameaças de morte e sequestro contra candidatos rivais.

Mas as queixas provavelmente aumentarão rapidamente. Sayed Jalal Karim, um candidato presidencial com presentes envoltos em fita como símbolo de seu partido, estava reclamando na sexta-feira. "Há uma grande fraude por todo o país. Eu não esperava vencer -mas esperava me sair 10 vezes melhor. Nas áreas em que deveria ter me saído bem, os resultados estão saindo a favor de Karzai."

Presidente busca reeleição

  • Emilio Morenatti/AP

    Hamid Karzai, 51, etnicamente Pashtun, tem formação em Ciência Política na Índia. Ele chegou a apoiar o Taleban, mas rompeu com eles a partir dos sinais de que o grupo estava caindo sob a influência de extremistas estrangeiros, como Al Qaeda. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Karzai diz que negociação de paz com Taleban é prioridade se for reeleito

Muitos dos piores motivos de queixa provavelmente nunca serão registrados. Possivelmente milhões de afegãos foram impedidos de votar por simplesmente estarem com medo. Militantes do Taleban lançaram uma ampla ofensiva contra a eleição e ameaçaram uma série de punições contra aqueles que votassem. Elas variavam de multas pesadas a cortar fora os dedos dos eleitores.

Assim, o cinturão pashtun no sul do Afeganistão, onde a insurreição do Taleban é mais forte, foi praticamente removido da eleição. Em todo o país, 268 atos violentos foram informados. Muitos ocorreram em províncias do sul como Kandahar, Khost e Paktiya. Outros ocorreram no extremo norte, como em Baghlan.

Os relatos da polícia local e da Comissão Eleitoral Independente mostram uma série de táticas de terror, desde urnas incendiadas até ataques com foguetes.

O Instituto Republicano Internacional, uma organização americana sem fins lucrativos, disse que a violência, e não a apatia, explicava a queda extraordinária na participação dos eleitores. Uma pesquisa realizada em julho mostrava que 90% dos afegãos pretendiam votar, estimulados pelas campanhas vibrantes focadas no desenvolvimento.

"O que acontece nesse ínterim?" perguntou Richard Williamson, chefe da missão de observação do instituto.

A resposta é a insurreição do Taleban.

Na sexta-feira, o grupo que governou o Taleban até 2001 alegava que apenas 10% dos eleitores compareceram, com uma estimativa de 40% a 50% por parte da Comissão Eleitoral Independente.

"Seja qual for o candidato vitorioso...ele é um escravo dos americanos. A votação não tem legitimidade", disse o porta-voz do Taleban no sudoeste.

Missões como a do Instituto Republicano Internacional não enviaram observadores ao sul, deixando o monitoramento aos cuidados de observadores locais.

Raio-X do Afeganistão

  • UOL Arte


    Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)

    População: 33 milhões

    Urbanização: 24% da população é urbana

    Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)

    Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)

    Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos

    Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros

    Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros

    Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%

    Taxa de desemprego: 40%

    Fonte: CIA World Factbook 2009

Antes do sul ser excluído da votação desta semana, ele enfrentava uma exclusão mais profunda causada pela economia. A insurreição e seu efeito danoso sobre um governo acusado de não ter direção cobram um preço.

Ashraf Ghani, um candidato presidencial e ex-ministro das Finanças, disse que o país precisa urgentemente de muitos esquemas de criação de empregos e uma reforma das instituições financeiras para ajudar a liberar o fluxo de capital. Poucos discordam.

A capital, Cabul, conta com seguranças armados em quase toda esquina. Ela também conta com um ar quase próspero -com ruas movimentadas e lojas vendendo autopeças, tecidos, eletroeletrônicos e alimentos. Após a queda do Taleban, a cidade foi tomada por bens eletrônicos, em grande parte proibidos pelo regime, e comerciantes. Agora ela prospera com a ajuda e presença da comunidade internacional.

Antes apelidada de "cidade das trevas", o fornecimento de eletricidade de Cabul melhorou de duas horas por dia para 22. Energia elétrica confiável traz possibilidades industriais. O gabinete de Karzai fala de recursos de água e contratos com empresas chinesas para desenvolvimento das reservas de cobre e construir ferrovias.

Mas o crescimento econômico está caindo, as verbas de ajuda ficando mais magras. Uma economia em grande parte agrícola é sensível à seca e aos preços dos alimentos. O Fundo Monetário Internacional prevê que o crescimento econômico do Afeganistão cairá de 12% para 3,4% no ano passado.

Isso afeta aquele que, atrás da segurança, é um dos maiores problemas para o próximo governo. Quando Kamal Agha, um lojista de Cabul, votou na quinta-feira, ele não experimentou nenhum dos três males apontados pela Comissão de Queixas Eleitorais. Para ele, motivos de queixa surgirão nos próximos meses, a menos que apareça um governo mais eficaz e ocorram mudanças rápidas.

"Karzai é um bom homem. Mas ele promete muito e não faz o bastante", ele disse. "O que precisamos é de alguém que traga paz e novos empregos."



Tradução: George El Khouri Andolfato

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