Mais quatro anos para Ben Bernanke

Krishna Guha

Quando Ben Bernanke foi nomeado presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), muitos se perguntavam como o acadêmico de modos gentis se sairia à sombra de Alan Greenspan e Paul Volcker, seus lendários antecessores.

Agora, aqueles que apoiam Bernanke dizem que ele está a caminho de estabelecer seu próprio lugar no panteão dos grandes presidentes do Fed. Sua indicação para um novo mandato por Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, representa o selo presidencial de aprovação ao seu uso ativo dos poderes do banco central para combater a crise financeira.

Isso ocorre após a crescente evidência de que a catástrofe econômica foi evitada e que a economia mundial -que estava em queda livre na virada do ano- chegou ao fundo e agora está iniciando uma recuperação mais forte do que a esperada.
  • EFE/MICHAEL REYNOLDS

A notícia de sua nomeação para o segundo mandato encerra a possibilidade de Bernanke sofrer o destino de Volcker, que domou a inflação, mas foi afastado em 1987 como um inconveniente político, tão logo o trabalho foi concluído.

Como um presidente do Fed em segundo mandato, endossado por presidentes de ambos os partidos, Bernanke terá uma maior estatura e capacidade para moldar o debate econômico.

Mas sua posição ainda permanece contingente à sua capacidade de executar uma saída bem-sucedida do extraordinário estímulo monetário -nem agindo cedo demais e assim enviando a economia de volta à recessão, nem tarde demais e gerando inflação alta.

Bernanke também tem muito trabalho a fazer na reconstrução do relacionamento do Fed com políticos no Congresso que, à medida que o risco diminui, têm se tornado cada vez mais abertos em sua hostilidade em relação ao uso por parte dele dos poderes do banco.

O presidente do Fed é acusado de ter demorado a entender a amplitude da crise emergente. Em 28 de março de 2007, Bernanke disse ao Congresso que "o impacto dos problemas no mercado subprime sobre a economia mais ampla e sobre os mercados financeiros provavelmente será contido".

Mas quando a crise financeira estourou em agosto daquele ano, Bernanke rejeitou as preocupações com o risco moral e agiu rapidamente para fornecer liquidez às instituições financeiras e na reduzir as taxas de juros.

A marca de sua gestão da crise ao longo dos dois anos seguintes foi a crença de que, em tempos de crise, o risco está na ortodoxia e não em ações heterodoxas ou radicais.

Bernanke, um dos principais estudiosos da Grande Depressão, adotou uma abordagem de ativismo extremo, estendendo os poderes do Fed até seus limites legais em uma tentativa de evitar uma repetição do maior desastre econômico da história.

Após um certo atraso no final de 2007, ele reduziu agressiva e preventivamente as taxas de juros, apesar da inflação estar em alta, e iniciou uma série de esforços não convencionais para fornecer liquidez a não-bancos e, no final, aos mercados e investidores.

"Por mais severo que o impacto econômico tenha sido... o resultado poderia ter sido bem pior", disse Bernanke aos seus pares em um simpósio anual de Jackson Hole, na última sexta-feira. "Diferente dos anos 30, quando a política era em grande parte passiva... durante o último ano, as políticas monetária, fiscal e financeira ao redor do mundo foram agressivas e complementares."

Por toda a crise, sua equipe promoveu uma série de inovações -incluindo leilões de dinheiro para superar os problemas de estigma, swaps cambiais para disponibilizar globalmente uma oferta ilimitada de dólares e direcionando fundos ao mercado de papéis comerciais e investidores em títulos baseados em ativos.

Convencido de que suas falências seriam devastadoras, Bernanke invocou a autoridade de emergência não utilizada desde os anos 30 para resgatar primeiro o Bear Stearns e depois o AIG, apesar dele -juntamente com Hank Paulson, o então secretário do Tesouro- ter fracassado em evitar a falência catastrófica do Lehman Brothers, em setembro de 2008.

Em meio à luta desesperada dos esforços para prevenir um colapso financeiro, o presidente do Fed disse a Paulson que o banco central não era capaz de atuar sozinho e pediu que ele fosse ao Congresso para requisitar fundos de resgate sob o Programa para Alívio de Ativos Problemáticos.

Bernanke começou criando dinheiro para financiar a compra de ativos, comprando US$ 1,45 trilhão de ativos baseados em hipotecas emitidos pela Fannie Mae e Freddie Mac e reduzindo as taxas de juros a virtualmente zero. Ele chamou suas operações não convencionais de "alívio no crédito" e, em março deste ano, começou a comprar US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro.

No primeiro semestre o Fed conseguiu -com uma combinação de sorte e boas decisões- realizar um teste de estresse crível que restaurou a confiança nos bancos americanos.

A estratégia de Bernanke foi controversa. Especialistas como John Taylor, de Stanford, o acusaram de envolver o Fed no ramo de alocação de crédito. Muitos argumentaram que ele estava envolvido em uma política semifiscal e acusaram o presidente do Fed de se envolver em resgates sem compromissos firmes por parte do Tesouro de tomar os ativos financiados pelo Fed.

Seu trabalho está longe de concluído. A percepção de que o Fed, em conjunto com o Tesouro, contornou a autoridade orçamentária do Congresso o deixa com desafios políticos em meio a ameaças de redução da independência do banco central.

Ele ainda precisa administrar um processo de saída muito difícil. Apesar de ele acreditar que a parte difícil é a antiga questão do "quando", não a nova pergunta de "como", desatar as políticas não convencionais, o medo da inflação resultante da criação de vastas reservas poderia complicar a manobra.

Além disso, mesmo boas políticas não podem eliminar a necessidade de ajustes dolorosos nos balancetes dos setores financeiro e doméstico. O sucesso ainda poderá envolver vários anos de atividade econômica abaixo da média e alto desemprego -algo pelo qual o público poderá não agradecer a Bernanke.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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