Sonhos de imigrantes brasileiros no Japão vão por água abaixo

Lindsay Whipp e Jonathan Wheatley

Em um domingo em Ota, uma pequena cidade rural a noroeste de Tóquio, uma congregação formada em sua maioria por brasileiros sai de uma igreja católica sob o sol do final da tarde conversando, sorrindo e cumprimentado os vizinhos.

No entanto, há uma sensação de vazio no ar. A igreja só conta com a metade do número de fiéis que costumava ter e, para muitos, atrás dos sorrisos há uma realidade bem mais sombria. "A igreja costumava ficar tão lotada que as pessoas tinham que ficar de pé nos corredores", observa a irmã Yoshiko Mori, que, como os fiéis que frequentam a igreja, é brasileira descendente de japoneses, ou "nikkei brasileira".
  • Yoshikazu Tsuno/AFP

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Aqueles que ainda frequentam o local veem sinais de que a vida está mais difícil do que antigamente. Após deixarem a igreja, alguns membros da congregação encaminham-se para um prédio adjacente e sobem escadas de metal até uma grande sala. Metade da sala está cheia de mesas sobre as quais encontram-se volumosos sacos plásticos repletos de arroz, feijão preto, farinha de trigo, sal e outros alimentos básicos disponíveis para aqueles que passam necessidade. A outra metade do aposento está coberta por um material acolchoado, um lugar onde aqueles que não têm para onde ir podem dormir.

Os nikkeis brasileiros são a terceira maior comunidade imigrante do Japão e aquela que, sem dúvida, foi mais afetada pela crise econômica global no país.

Munidos de vistos de trabalho criados especialmente para eles, muitos brasileiros de etnia japonesa fizeram na última década a jornada de retorno ao Japão, o país que os seus ancestrais deixaram um século atrás.

Eles trabalharam durante longos turnos em fábricas enormes, que produzem de tudo, desde peças de automóveis até telefones celulares, para atender à demanda aparentemente insaciável dos Estados Unidos e da Europa - até que o processo sofreu uma paralisação súbita no ano passado, quando a crise econômica estrangulou o principal motor de crescimento do Japão.

Sem a segurança conferida pela condição de empregado permanente, os nikkeis brasileiros, bem como um grande número de trabalhadores contratados e funcionários, foram os primeiros a perder os empregos.
Isso, e as ofertas do governo japonês para pagar as suas passagens de volta para casa, criou uma onda de retorno ao Brasil.

A Embaixada do Brasil em Tóquio calcula que cerca de 40 mil (ou 12%) membros da comunidade de 317 mil indivíduos já retornaram ao Brasil, e mais estão partindo diariamente, especialmente à medida que muitos veem esgotar-se o seguro-desemprego de seis meses.

Arnaldo Kiyohito Shiowaki, um agente de viagens que presta serviços à comunidade nikkei, diz que a corrida para a obtenção de passagens para casa "de maneira geral ficou mais tranquila". Porém, ele afirma que o seu negócio não anda nem um pouco parado. A maioria dos voos que ele reserva ainda consiste de viagens só de ida para o Brasil, e a demanda está apenas 200% acima do normal neste momento. No início do ano a demanda por passagens era 300% superior ao normal.

Esse fenômeno foi alimentado pela oferta do governo japonês de 300 mil ienes (cerca de R$ 5.924) para cada nikkei brasileiro que optasse por retornar ao Brasil, embora o plano tenha sido polêmico porque proibia os participantes de retornar ao Japão "por um período indeterminado". O plano acabou sendo reformulado no sentido de permitir que os nikkeis brasileiros retornassem após três anos, caso a economia melhore.

Para muitos imigrantes que retornam, o reajuste à vida no Brasil tem sido difícil. Tatsuo Miyashiro e a sua mulher, Hatsuko Kurahashi Miyashiro, retornaram neste ano após passarem 13 anos no Japão, mas desde então têm enfrentado dificuldades para se readaptar.

Eles argumentam que o Japão era melhor para trabalhar, mas o Brasil proporciona uma vida melhor. Mas ainda não estão convictos de que foi uma decisão correta mudarem-se para a sonolenta cidade rural de Cambará, no sudeste do Brasil. Tatsuo afirma que eles retornaram ao Brasil por falta de opção. Ele ganhava 300 mil ienes (cerca de R$ 5.924) por mês com horas extras em uma fábrica do Japão. Mas as horas extras acabaram em outubro do ano passado. Em dezembro, foram informados de que o seu trabalho tornara-se supérfluo e, em março deste ano, retornaram ao Brasil em um avião cheio de passageiros com passagem só de ida.

Agora o futuro deles é incerto. O irmão de Hatsuko, que se mudou para Cambará pouco antes deles, está se preparando para trabalhar como comerciante no setor de produtos rurais. Eles moram em uma casa de estilo espartano que um parente lhes emprestou. Mas Tatsuo ainda não conseguiu arranjar trabalho, e, aos 54 anos, teme que jamais encontre um emprego.

Cambará, uma pequena cidade de 25 mil habitantes, possui uma vibrante comunidade japonesa, com pelo menos dois supermercados e vários estabelecimentos comerciais pequenos que têm nomes japoneses. Mas o contraste com o Japão continua sendo um choque. "É realmente estranho estar aqui", diz Hatsuko Miyashiro. "Não é algo que se consegue entender rapidamente."

Talvez por esse motivo, em Ota muitas das histórias contadas pelos moradores indicam que há uma determinação de enfrentar a tempestade econômica que se abate sobre o Japão, em vez de uma decisão de retornar ao Brasil. Alguns dizem que não podem voltar a morar no Brasil, já que agora possuem um passaporte japonês. Há quem declare que prefere ficar. Outros não estão convencidos de que a situação seria melhor no Brasil.

Todos eles enfrentam uma rede complexa de vínculos culturais, emocionais e físicos tanto com o Brasil quanto com o Japão. Paulo Nakagawa ganha agora muito menos do que costumava ganhar na pequena fábrica de autopeças na qual trabalha. Mas ele ainda não decidiu se voltará ao Brasil. "Sou japonês, mas o meu coração é brasileiro", argumenta Nakagawa.

Tradução: UOL

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