A surpreendente recuperação chinesa

Com o retorno do forte crescimento, surgem temores em relação às conseqüências do pacote de estímulo do governo que está incentivando a infraestrutura, o setor imobiliário e a venda de ações, mas não faz muito para melhorar o emprego ou as exportações, escreve Jamil Anderlini.

Sob a liderança do Partido Comunista, o povo chinês se esforça para lidar com a crise financeira e conseguiu atingir um sucesso notável que chamou a atenção do mundo inteiro. Grandes nomes das esferas política e econômica ocidentais invejam o excelente desempenho da China, assim como o "espírito chinês" - uma espécie de "Grande Muralha" interna, sólida e indestrutível - para enfrentar a crise. É o que diz um editorial em língua inglesa publicado no jornal oficial do Partido Comunista, "People's Daily", em 30 de julho.
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    A economia da China cresceu 7,9% no segundo trimestre, bem acima dos 6,1% do primeiro


Os governantes da China têm direito a se vangloriar um pouco depois da recuperação que o país atingiu nos últimos meses. Com sua rápida e surpreendente resposta à crise, Beijing parece ter arquitetado uma recuperação poderosa e ascendente, em formato de V, e segundo a maioria das estimativas, está no caminho para exceder a meta de crescimento de 8% que estabeleceu no começo do ano.

Análises oficiais da produção industrial, investimentos fixos, consumo de energia e do PIB do país mostram uma forte recuperação, enquanto os preços de propriedades e ações subiram nos últimos meses. Houve até mesmo sinais de uma recuperação nas exportações, apesar de estas ainda estarem cerca de um quarto abaixo dos níveis de um ano atrás.

Mas um número cada vez maior de economistas e autoridades diz que os dados de crescimento positivo escondem desequilíbrios estruturais preocupantes e que a resposta do governo à crise pode ter apenas postergado um destino inevitável. Com o mundo todo vendo a China como um guia para superar os problemas econômicos, uma segunda crise teria um grande impacto na confiança global, para não mencionar nos preços das mercadorias.

"Há um tipo de crescimento de 5% que é bom e um crescimento de 8% que é ruim", de acordo com um conselheiro sênior do governo. "Tememos que o que estejamos vendo agora esteja mais nessa última categoria."

Numa base anual, a economia da China cresceu 7,9% no segundo trimestre, bem acima dos 6,1% do primeiro trimestre. Se medida sequencialmente, a recuperação foi ainda mais óbvia, estimam os economistas, com o crescimento trimestre a trimestre ajustado sazonalmente em zero no quatro trimestre de 2008, mas chegando a 3% nos primeiros três meses desse ano e até 16-17% no segundo trimestre.

Empréstimos bancários aceleram recuperação
Isso se deu em grande parte graças ao estímulo fiscal de 4 trilhões de yuans (cerca de R$ 1 trilhão) do governo e aos 7,3 trilhões de yuans (R$ 2 trilhões) de novos empréstimos bancários concedidos na primeira metade do ano, triplicando a quantia emprestada no mesmo período do ano anterior. Os economistas do BNP Paribas estimam que a expansão dos empréstimos foi equivalente a 45% do PIB de meio ano e dizem que não sabem de nenhuma outra economia que tenha criado crédito numa escala tão grande desde a 2ª Guerra Mundial.

Essa explosão nos empréstimos, concedidos pelos bancos controlados pelo Estado por ordem do governo central, gerou preocupações de que a maior parte do dinheiro tenha ido para pessoas que não serão capazes pagar de volta. "Temo que o que esteja acontecendo agora seja semelhante ao que aconteceu nos EUA em 2001 - o governo está inundando a economia com dinheiro que acaba encobrindo os problemas", disse um executivo chinês que morou nos EUA.

Analistas do Royal Bank of Scotland dizem que cerca de 20% dos novos empréstimos no primeiro semestre devem ter ido parar no mercado de ações e outros 30% nos imóveis e outros bens financeiros, ajudando a inflar a bolha de bens não sustentáveis.

"O mercado imobiliário está tão aquecido e os preços estão aumentando tanto que de fato se tornou um mercado em que mais pessoas querem comprar do que vender", disse Wang Qing, motorista que ganha 2.500 yuans (R$ 680) por mês e começou a especular no mercado imobiliário comprando e vendendo pequenos apartamentos em seu tempo livre. "O corretor me disse outro dia que eu tinha que voar para Hong Kong para encontrar o vendedor de um apartamento apenas para mostrar que eu era honesto, porque havia muitas outras ofertas."

O mercado de ações da China está em alta 64% este ano, mas caiu 14% nas últimas três semanas à medida que os investidores entraram em pânico com os sinais de que o governo está começando a restringir o crescimento excessivo dos empréstimos. Os analistas dizem que a queda brusca mostra o quanto o aumento desse ano foi alimentado pelos empréstimos dos bancos canalizados para atividades especulativas.

"Todos no fundo acreditam que essa é uma bolha dos valores provocada puramente pela liquidez", disse um executivo sênior de um banco de investimentos chinês. "As pessoas no setor privado que foram capazes de conseguir empréstimos de bancos estatais estão na maior parte guardando-os para os dias ruins ou especulando no mercado de ações e no mercado imobiliário; muito pouco está indo para a economia real."

Investimentos em inra-estrutura
Do restante do dinheiro emprestado, a maior parte foi para companhias estatais e projetos de infraestrutura apoiados pelo governo, particularmente para o tiegongji, ou "galo de ferro" - que em chinês significa as ferrovias, rodovias e aeroportos. Os imensos projetos reavivaram a demanda por aço, concreto e outros materiais, mas esse tipo de investimento estatal de capital intensivo criou relativamente poucos empregos. Mesmo assim durante os próximos três anos, o ministério de ferrovias planeja acrescentar 20 mil quilômetros de trilhos aos 80 mil já existentes, com um total de investimentos de mais de 2 trilhões de yuans (R$ 545 bi). Nesse ritmo, a rede ferroviária chinesa superará a da Índia este ano, para se tornar a segunda maior do mundo, logo depois dos EUA.

Quanto às rodovias, a construção de 111 vias expressas, totalizando 12 mil quilômetros, começou no primeiro semestre com um investimento de 700 bilhões de yuans (R$ 190 bi), de acordo com o ministério dos transportes. No final do ano passado, a China tinha apenas pouco mais de 60 mil quilômetros de rodovias expressas, comparado aos 75 mil quilômetros dos EUA. Mas se os planos dos governos locais forem incluídos, a rede de estradas irá se expandir para 180 mil quilômetros nos próximos anos, um número espantoso considerando que a China tem apenas 38 milhões de veículos de passageiros em comparação aos 230 milhões dos Estados Unidos.

Algumas autoridades dizem que o elemento mais preocupante pacote de investimento pesado na infraestrutura é a fixação em construir aeroportos. Por exemplo, a cidade de Jiaxing, na província de Zhejiang, no leste, fica a mais ou menos uma hora de carro, através de estradas novas, dos aeroportos internacionais mais movimentados do país - dois em Xangai e um na cidade de Hangzhou. Apesar dessa proximidade, e de uma linha de trem de alta velocidade planejada para conectar Xangai e Hangzhou, o governo de Jiaxing decidiu construir um aeroporto comercial no lugar de uma pista de aterrissagem militar, com um investimento estimado de 300 milhões de yuans (R$ 81 mi).

Autoridades de Jiaxing dizem que esperam recuperar seu dinheiro até 2025, mas os céticos dizem que esse tipo de investimento nunca terá retorno e em vez disso acabará em inadimplência nas contas dos bancos estatais. "A principal preocupação que temos agora é de que um tremendo volume de empréstimos foi concedido muito rapidamente para o setor corporativo numa época em que a lucratividade corporativa está caindo", disse Charlene Chu da Fitch Ratings. "Isso sugere que haverá alguns problemas na qualidade dos ativos pela frente."

Enquanto as empresas estatais foram inundadas com empréstimos dos bancos estatais, os economistas temem que o vibrante setor privado da China tenha sido em grande parte abandonado.

"A resposta política fiscal e monetária para a crise beneficiou principalmente as grandes empresas e grandes projetos", disse Wang Yijiang, professor de economia e administração de recursos humanos na Cheung Kong Graduate School of Business de Beijing. "O setor de pequenas e médias empresas fornece 75% dos empregos na zona urbana da China, mas agora está encolhendo, pela primeira vez em 30 anos de reformas econômicas."

Chen Guangming, 42, passou metade de sua vida como trabalhador migrante nas grandes cidades do norte da China, mas no final do ano passado se tornou um dos cerca de 23 milhões que perderam o trabalho e voltaram para seus vilarejos. "Este ano está muito mais difícil para encontrar trabalho e passei a maior parte do tempo esperando na minha cidade até que alguns parentes me falaram sobre esse emprego", disse ele, apontando para a obra em que ele recebe 70 yuans (R$ 19) por dia, numa jornada de trabalho de dez horas.

Os últimos 6,1 milhões de formandos das universidades chinesas também têm enfrentado dificuldades para encontrar trabalho. O ministério da educação diz que 68% deles foram empregados até gora, mas estimativas independentes colocam esse número em torno de apenas 50%. Mais de 1,5 milhão de graduados no ano passado ainda estão procurando emprego.

Numa feira de empregos próxima ao Templo Lama em Beijing, Peng Chuan, de 24 anos, que se formou em Inglês em julho de 2008, reduziu suas esperanças e está procurando trabalho como garçom. "Os salários no setor privado caíram tanto, mas alguns de meus colegas conseguiram encontrar empregos no governo usando a influência da família", disse ele.

Suborno em troca de trabalho formal
A competição é tão acirrada para conseguir um emprego estável que é necessário usar de influências ou oferecer suborno para aqueles que selecionam os currículos. "Tive uma oportunidade de trabalhar num escritório no ministério de ferrovias, mas teria que pagar 100 mil yuans (R$ 27 mil) para conseguir o emprego, e minha família não tinha esse dinheiro", acrescenta Peng.

Enquanto os números oficiais mostram um crescimento estável na renda e aumento no consumo, muitos economistas dizem que esses números não são confiáveis porque eles estão fortemente influenciados pelos salários do setor estatal e aquisições do governo. Os salários e o consumo no setor privado parecem estar crescendo muito pouco, o que faz com que seja difícil o consumo doméstico compensar a grande queda nas exportações.

Eles temem que quando o efeito do estímulo passar e Beiing restringir novamente os empréstimos bancários, os desequilíbrios econômicos virão à tona e o governo poderá enfrentar outra crise. "É muito cedo para dizer que a recuperação da China é ascendente em forma de V", diz o professor Wang da escola de administração Cheung Kong. "Há muitas pessoas que de fato acreditam que a economia enfrentará uma nova queda e a retomada parecerá mais com um W."

"É difícil competir jogando contra o árbitro"
Quando Huang Guangyu, o homem mais rico da China, foi preso no final do ano passado, foi acusado de manipular os preços das ações de duas de suas companhias. Mas de acordo com pessoas que conhecem os serviços de valores mobiliários chineses, seu verdadeiro crime foi construir um império que incluía a maior vendedora de eletrônicos de Hong Kong, Gome.

Essas pessoas dizem que alguns líderes chineses sentiram que Huang havia ficado muito poderoso e que seu negócio era muito importante para a economia nacional para ser deixado nas mãos dele. Se isso for verdade, o caso é simplesmente a ponta de um fenômeno mais amplo comumente conhecido como guojinmintui, que significa: "o Estado avança enquanto o setor privado recua".

Líderes negaram repetidas vezes que o governo esteja implementando uma política para nacionalizar partes da economia e a maioria dos analistas concordam que não existe uma política formal para apoiar o guojinmintui. Mas alguns argumentam que a resposta do governo à crise financeira permitiu que companhias estatais, que normalmente são controladas por poderosas famílias políticas e já monopolizam o comando da economia, revertessem parcialmente a privatização que aconteceu na China durante os últimos 30 anos de reformas econômicas.

"Grandes partes da economia parecem ser cada vez mais dominadas por companhias estatais", disse Dan Lynch, professor de relações internacionais do Instituto EUA-China da Universidade de Southern California. "Este é um problema de longo prazo que foi exacerbado pela crise financeira e pela falência de um grande número de pequenas e médias empresas privadas."

O professor Lynch aponta que o enorme plano de resgate econômico, com grande incentivo ao crédito, foi focado em apoiar o setor estatal e os projetos de infraestrutura do governo, deixando muitas pequenas companhias em má situação, mesmo apesar de elas constituírem a parte mais dinâmica da economia e fornecer a maioria dos empregos.

Grandes empresas estatais com acesso fácil ao crédito engoliram neste ano os competidores privados em setores que vão desde companhias aéreas a produtos de beleza. Na província de Shandong, o governo local elaborou uma tomada hostil que fará com que a lucrativa companhia privada Rizhao Steel seja absorvida pela Shandong Steel, uma rival estatal em prejuízo, de acordo com a mídia chinesa.

"Desde que o governo atual assumiu, há sete anos, houve uma resistência real contra o desenvolvimento do setor privado e que agora está apenas acelerando", observa um banqueiro sênior chinês. "É muito difícil competir quando você está jogando contra o árbitro."

Os analistas dizem que os postos de gasolina privados em dificuldades estão rapidamente sendo adquiridos por monopólios estatais como a PetroChina, enquanto muitos desenvolvedores privados do setor imobiliário são incapazes de competir com gigantes bem financiados que estão fazendo subir os preços das terras em todo o país.

Em seu livro "A Century of Ebb and Flow", o escritor Wu Xiaobo argumenta que os problemas empresariais vêm de antes da fundação do Partido Comunista, há 60 anos. Durante os governos dos imperadores Qing e dos nacionalistas que os sucederam, diz ele, a economia sempre foi dominada por empresas estatais e sempre que uma companhia privada se tornava muito grande ou bem sucedida seu dono era removido e ela era devorada por um competidor estatal.

"Um Estado autoritário e centralizado não pode tolerar centros de poder alternativos", diz um importante empresário chinês. "Até que tenhamos uma reforma política significativa na China, não seremos capazes de superar esses assuntos e nossa economia não será capaz de avançar para o próximo estágio de desenvolvimento."

Tradução: Eloise De Vylder

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