Uma nova era para o Japão

David Pilling
Em Tóquio (Japão)

"Foi um grande dia para o Japão", afirmou um ex-funcionário público deleitado, com um brilho nos olhos. "Finalmente alcançamos o patamar político de Taiwan e da Coreia do Sul".

Assim como naqueles dois países, pela primeira vez desde 1955, o eleitorado do Japão transferiu o poder de forma pacífica de uma instituição política para outra. A vitória esmagadora no último domingo do Partido Democrático do Japão (PDJ) acabou com o reinado hegemônico do Partido Liberal Democrata (PLD), cujo domínio rivalizava até mesmo com o do Partido Comunista da China.

O comentário do ex-funcionário público foi feito com o objetivo de provocar discretamente os outros japoneses, muitos dos quais costumam acreditar piamente que o Japão é o país politicamente mais sofisticado do Extremo Oriente. Mas, sob certos aspectos, ele está atrás dos vizinhos. Tanto a Coreia do Sul, país cuja ditadura militar terminou em 1987, quanto Taiwan, onde o autoritário Kuomintang perdeu em 2000, após governar por meio século, viram o poder ser transferido de um partido para outro, e a seguir retornar ao partido original. O Japão, até o momento, só realizou essa façanha uma vez.

Antes desta eleição, o papel da oposição era mais bem descrito por Karel van Wolferen, um especialista no Japão, que comparava os oposicionistas a um coro grego, cujas críticas ao governo eram "ritualísticas e inócuas". Mas agora o Japão demonstrou possuir dois partidos políticos dignos desta designação. O que o país ainda não demonstrou foi possuir um sistema bipartidário.

O ingrediente que falta é a ideologia. Ao contrário da Coreia do Sul e de Taiwan, o Japão ainda carece de partidos dotados de um conjunto de princípios facilmente discerníveis e de uma capacidade de apresentar quadros alternativos para o futuro do país. Nem o fracionado PDL, nem o vitorioso PDJ, um conjunto de cinco partidos políticos dotados de uma impressionante gama de opiniões diversas, é ideologicamente coerente. No nível local, as campanhas políticas não são muito mais sofisticadas do que um apelo do tipo "vote em mim", ou, conforme afirmou desesperadamente um político do PLD: "Me salve".

O PLD é frequentemente mencionado como sendo um partido de centro-direita, mas isto é uma simplificação do quadro verdadeiro. Embora tenha instintos conservadores nos setores de defesa e de educação, bem como em certas áreas de políticas sociais, ele seguiu uma agenda redistributiva que seria considerada de esquerda em várias democracias. A principal ideologia política do PLD tem sido o poder pelo poder, e o seu objetivo central é disseminar o clientelismo de forma que aqueles que disputem sob a sigla se elejam. Entretanto, não se sabe claramente o que o PLD defende.

Gerry Curtis, um observador antigo do cenário político do Japão e professor da Universidade Colúmbia, diz a respeito do PLD: "Não creio que eles irão se desintegrar, e o partido terá quatro anos na oposição para descobrir o que aconteceu". Mas, ele acrescenta que a máquina politica da agremiação, que era lubrificada com dinheiro, esfacelou-se: "O PLD precisa retornar como um novo partido. Se ele tentar voltar fazendo politicas eleitoreiras, jamais retornará ao governo".

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Assim sendo, uma possibilidade, ainda que remota, é a de que o PLD definhe e o PDJ simplesmente o substitua como o partido do poder. Já há boatos de que alguns senadores do PLD, que precisam enfrentar uma disputa pela reeleição no ano que vem, estariam bandeando-se para o PDJ, em uma tentativa desesperada de assegurar o mandato.

Existe um outro cenário plausível. O eleitorado do Japão, emancipado do velho sistema de clientelismo político, poderia oscilar fortemente entre partidos. Afinal, há apenas quatro anos os eleitores que acabaram de conceder uma vitória acachapante à oposição garantiram um sucesso ainda maior ao PLD sob Junichiro Koizumi. Mudanças drásticas no resultado eleitoral criariam uma espécie de sistema bipartidário. Mas tal sistema seria instável e não estaria ancorado em nada.

Mas pode ser que nenhuma das possibilidades acima se materialize. O cenário político pode estabilizar-se e um sistema de dois partidos reconhecível nos Estados Unidos e no Reino Unido poderia tomar forma gradualmente no Japão. O PDJ poderia emergir como um partido social-democrata, e o PLD como uma alternativa conservadora. Mas, até o momento, tudo o que o eleitorado japonês demonstrou indubitavelmente foi que, uma vez a cada meio século, é capaz de mudar de ideia.

E até mesmo agora, os eleitores não estão convencidos de que contam com uma alternativa real. As pesquisas de opinião e as conversas reservadas sugerem que eles rebelaram-se contra o PLD, mas sem nutrirem qualquer grande convicção quanto às políticas do PDJ. Uma indicação de que o povo japonês não está ainda convencido de que o partido conta com verdadeiro poder ou influência foi dada na noite do último domingo. Um produtor da televisão italiana, esperando transmitir imagens de multidões exultantes, pediu aos seus operadores de câmera que registrassem imagens do povo celebrando essa vitória histórica da democracia. Mas não havia nenhuma imagem desse tipo para registrar. "Quando eles voltaram, as fitas de vídeo estavam vazias", lamenta o produtor.

Tradução: UOL

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