A Rússia necessita de um debate público honesto sobre o seu passado

Vladimir Putin, o primeiro-ministro da Rússia, marcou o 70º aniversário da Segunda Guerra Mundial com uma bem-vinda tentativa de reduzir as tensões relativas ao papel desempenhado pela União Soviética naquele conflito.

Mas esse gesto diplomático limitado não deve ser visto como um sinal de que a Rússia implementou qualquer revisão fundamental do seu passado stalinista.

Putin, que ontem juntou-se aos líderes europeus para um evento que marcou o aniversário da guerra na Polônia, disse durante a cerimônia que o Pacto Ribbentrop-Molotov, no qual Stalin e Hitler dividiram a Europa Oriental, foi "imoral". A palavra condiz com a opinião dos poloneses e dos cidadãos dos países bálticos, que afirmam que o pacto conduziu diretamente a um ataque por parte de Hitler contra a Polônia e ao início da guerra mais sangrenta da história humana.

Mas Putin dosou a sua argumentação ao sugerir que o pacto não foi diferente dos acordos que os Estados ocidentais firmaram com Hitler, tal como o Acordo de Munique, de 1938.

Tudo isso foi apenas suficiente para garantir que as comemorações de ontem transcorressem sem nenhum incidente embaraçoso. Até isso foi bem
recebido: é bem melhor poloneses e russos conversarem uns com os outros rangendo os dentes do que simplesmente não se falarem. Recentemente, Varsóvia e Moscou trabalharam acertada e arduamente no sentido de melhorar as relações entre si e impedir que as disputas relativas às guerras do passado envenenem os laços atuais entre os dois países.

Porém, há que se reconhecer que a Rússia está longe de abrir um debate honesto sobre Stalin. A maioria dos russos aceita que Stalin cometeu erros e crimes terríveis, especialmente contra o povo soviético. Mas eles são incapazes de aceitar que Stalin tenha sido um ditador assassino comparável a Hitler. Eles temem que isso coloque em dúvida a vitória soviética sobre os nazistas - e com isso os enormes sacrifícios envolvidos no esforço de guerra.

A elite autoritária de Putin, que jamais renunciou aos seus predecessores comunistas, explora desavergonhadamente esses sentimentos, muitas vezes rotulando críticas a Stalin de críticas à Rússia.

A Rússia necessita de um debate público no qual as análises do triunfo heroico do povo soviético sobre a Alemanha nazista sejam separadas das avaliações do histórico pessoal de Stalin. Os historiadores devem ter carta branca, especialmente na televisão. Mas há pouca esperança de abertura quando novas leis determinam que "a falsificação da história"
constitui-se em crime. Putin parece estar tão determinado a controlar o passado quanto a reprimir as atuais liberdades políticas.

O Ocidente pouco pode fazer para influenciar a forma como a Rússia enxerga a sua história. Mas os países ocidentais precisam contribuir garantindo que os sofrimentos dos soviéticos durante a guerras sejam mais bem conhecidos. Até mesmo hoje pouquíssimas pessoas no Ocidente percebem que quem pagou o preço mais alto pela derrota de Hitler foi a União Soviética.

Tradução: UOL

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