Indústria cafeeira venezuelana enfrenta dificuldades com Chávez

Benedict Mander

Resgatar as memórias do auge da produção cafeeira na Venezuela é algo que entristece Don Luis Paparoni, que tem quase 90 anos de idade.

"Você está vendo essas montanhas?", pergunta ele, apontando para o vale de um verde luxuriante que cerca Santa Cruz de Mora, uma cidade pitoresca na base dos Andes venezuelanos. "Antigamentes elas eram cobertas de pés de café. Agora é difícil encontrar algum".

A Venezuela era um dos principais exportadores mundiais de café no início do século 20. Mas, no mês passado, pela primeira vez na história, o país foi obrigado a recorrer à importação de café do Brasil para evitar um iminente racionamento do produto, ainda que os moradores locais digam que o café brasileiro tem qualidade inferior aos grãos da variedade arábica produzida na região.

"Quando eu era jovem, não havia uma única casa nesta cidade que não estivesse ligada de alguma forma ao café. Ele era o centro da nossa cultura", afirma Paparoni, cujo pai imigrou da Sicília para criar uma das mais produtivas culturas de café nos Andes na década de 1920.

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Ele recorda-se daqueles dias quando a Hacienda La Victoria enviava café para Nova York e Hamburgo: hoje em dia, a única renda da fazenda é gerada pelos turistas qeu visitam o museu estatal que ocupa as suas instalações.

Embora vários governos sucessivos pouco tenham feito para conter o declínio da indústria cafeeira da Venezuela, preferindo concentrar-se na exploração das vastas reservas de petróleo do país, os fazendeiros responsabilizam a desajeitada intervenção do governo do presidente Hugo Chávez pelos problemas enfrentados pelo setor.

Racionamentos do produto fizeram com que no mês passado Chávez nacionalizasse as duas maiores torrefadoras do país, a Fama de América e a Café Madri, que respondem por quase 80% da produção. Ele disse que a escassez de café no mercado deve-se à prática dos produtores de fazer estoques, à especulação e ao contrabando.

"Já suportamos o suficiente! Temos que fazer o mesmo com todas as companhias que comportarem-se dessa maneira", vociferou o líder socialista. "Continuaremos a nacionalizar os monopólios para transformá-los em negócios produtivos nas mãos dos trabalhadores, do povo e da revolução".

Mas os analistas dizem que vários dos problemas enfrentados pelo setor cafeeiro - e pelo setor privado em geral - são causados precisamente por este tipo de intervenção governamental. Tais expropriações, bem como uma agressiva campanha de reforma agrária, geraram um clima de incerteza que reduziu os investimentos.

Os controles de preço agravaram a situação. Quantidades cada vez maiores de café - e de vários outros produtos - são contrabandeadas para o exterior para que sejam vendidas a preços internacionais. "É claro que existe contrabando. O que Chávez espera quando é possível vender café na Colômbia pelo dobro ou o triplo do preço?", diz um cafeicultor, que pediu que o seu nome não fosse divulgado.

María Marcelina Chacón, que é dona de uma das poucas fazendas de café que sobreviveu nas montanhas íngremes que pairam sobre Santa Cruz de Mora, teme que a safra deste ano mal chegue a 150 quilogramas, o que é cerca de um décimo do que a propriedade produzia menos de uma década atrás.

Ela reclama de que os controles de preços proibitivos reduzem o lucro, enquanto o aumento dos custos significa que não é mais possível pagar trabalhadores ou adquirir pesticidas em quantidades suficientes.
"Atualmente tudo o que sou capaz de conseguir é o auxílio da minha família. Um número muito grande de trabalhadores vive dos programas sociais do governo. Eles não querem saber de trabalhar", queixa-se Chacón.

Esses problemas, agravados pelo aumento da demanda provocado pelo salto dos preços do petróleo, têm provocado a escassez intermitente de produtos básicos. Isso prejudicou a popularidade de Chávez e foi um dos motivos para que ele fosse derrotado em um plebiscito há dois anos.

A solução de curto prazo do governo para o problema tem sido a importação maciça, possibilitada pela abundância de moeda estrangeira gerada pelas exportações de petróleo.

As importações de alimentos quadruplicaram nos últimos dez anos, saltando de US$ 60 (42 euros, 37 libras esterlinas, R$ 113) para mais de US$ 250 (R$ 471) por pessoa por ano, diz Hiram Gaviria, ex-ministro da Agricultura. As importações cobrem dois terços do consumo em um país que conta com vastas áreas de terras férteis e não utilizadas.

Embora a produção de certos alimentos como o milho e o arroz tenha aumentado neste período, as safras de carne e açúcar, produtos dos quais a Venezuela já foi autosuficiente, atualmente mal atendem à metade do consumo nacional.

A produção do cacau, que já foi o principal produto de exportação da Venezuela, está estacionada nos patamares do período colonial, tendo sido eclipsada pelo rápido crescimento da indústria petrolífera na década de 1920, que valorizou a moeda e acabou com a competitividade das exportações.

Agora é a vez do café sentir o impacto. A Venezuela, que no passado competia com a Colômbia neste setor, atualmente produz menos de 1% do café mundial. Há quem tema que a produção de café caia para menos de 45 mil toneladas neste ano, bem abaixo do necessário para satisfazer o consumo nacional de cerca de 70 mil toneladas.

Paparoni substituiu a maior parte das suas plantações de café por pastagens, e continuou a cultivar uns poucos cafeeiros apenas para "preservar a tradição". "Isso me entristece até o cerne da minha alma", diz ele.

Tradução: UOL

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