Wolf: Por que ainda é cedo demais para começar a retirar os estímulos

Martin Wolf

"Nossa ação política sem precedente, decisiva e orquestrada ajudou e deter o declínio e estimular a demanda global." Foi assim que os ministros das finanças e presidentes de bancos centrais do Grupo dos 20 principais países ricos e emergentes trocaram tapinhas nas costas no fim de semana. Eles estavam certos. A resposta à crise foi tanto essencial quanto bem-sucedida. Mas ainda é cedo demais para declarar vitória.

Ben Bernanke, recém-indicado por Barack Obama para um segundo mandato como presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), argumentou no simpósio monetário de Jackson Hole deste ano: "Sem essas ações rápidas e potentes, o pânico de outubro passado provavelmente continuaria se intensificando, outras grandes empresas financeiras faliriam e todo o sistema financeiro global estaria em sério risco. (,,,) O que sabemos sobre os efeitos das crises financeiras sugere que a recessão global resultante poderia ter sido extraordinariamente profunda e prolongada".

Dois grupos de pensadores rejeitam esse ponto de vista. Um argumenta que a economia está sempre em equilíbrio. Se o desemprego sofreu alta explosiva, isso só ocorreu porque, após a implosão do Lehman, os trabalhadores resolveram folgar. Uma visão alternativa é que as depressões são consequências naturais do excesso. Tanto os culpados quanto os inocentes devem sofrer enquanto os erros do passado são purgados.

Acertadamente, os autores de políticas rejeitam esses pontos de vista. As economias não estão sempre em equilíbrio e, apesar de uma correção dos excessos nos preços dos ativos, mercados financeiros e no consumo ter se tornado inevitável, um mergulho em espiral cumulativo não era nem inevitável e nem tolerável.

O resgate do sistema financeiro, o alívio monetário sem precedente e a expansão fiscal (grande parte desta última sendo automática e não arbitrária) de fato estabeleceram um piso sob a economia mundial. Os analistas do JPMorgan acrescentaram a isto um segundo elemento, mais temporário: uma "correção por parte das firmas que planejaram no início do ano para condições econômicas e financeiras bem piores do que de fato se concretizou". Como resultado, eles agora preveem um crescimento anualizado do produto interno bruto de 4% nos Estados Unidos e 3% na zona do euro no terceiro trimestre.

Talvez o sucesso mais notável tenha sido a recuperação do setor financeiro. De fato, esse ressurgimento, apesar de bem-vindo, é embaraçoso: os financistas estão de volta aos seus altos rendimentos, enquanto dezenas de milhões de pessoas perderam seus empregos, economias estão muito abaixo de seu potencial e a dívida do setor público está explodindo. Não é de se estranhar que o ataque aos bônus esteja na moda.

Os indicadores de aversão ao risco nos mercados financeiros melhoraram acentuadamente. À medida que a confiança retorna, os mercados de ações se recuperaram, apesar de permanecerem bem abaixo de seus picos anteriores. Na economia real, o produto do setor manufatureiro se estabilizou: uma recuperação substancial é provável, à medida que muda o ciclo do estoque. O consenso das previsões para 2010 agora mostra melhorias mensais sucessivas, com China e Índia liderando o caminho globalmente e os Estados Unidos, como de costume, liderando entre os grandes países ricos.

E o que deve ser feito agora? Os ministros das finanças do G20 acertaram em concordar com "a necessidade de um processo transparente e crível para a retirada de nosso apoio extraordinário ao setor fiscal, monetário e financeiro, à medida que a recuperação se consolida". Mas ter um plano crível é um assunto muito diferente do que implantá-lo. De fato, ter um plano crível é a forma de evitar uma reversão prematura das políticas.

Muitos se preocupam com a inflação. Atualmente, isto beira a histeria. Mais importante, esse risco não será reduzido por uma retirada antecipada do estímulo. Pelo contrário, isso tornaria o risco ainda maior, já que poderia provocar outra rodada de intervenções agressivas.

Por que, então, não há um bom motivo para se preocupar com a inflação no momento?

Primeiro e acima de tudo, a economia mundial apresenta um imenso excesso de capacidade. Isto é impossível de medir precisamente, particularmente após as recentes turbulências. Em seu mais recente panorama econômico, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico estimou a diferença entre o produto de fato e potencial neste ano em mais de 5% do produto potencial em seus países membros. O crescimento no próximo ano precisa ser de pelo menos 2 a 3% para redução dessa diferença. No mais recente consenso de previsões, isso não acontecerá.

Segundo, mesmo as dívidas mais pesadas do setor público são sustentáveis. A taxa de juro real paga pelo governo americano sobre sua dívida, por exemplo, está abaixo de 2%. Logo, o serviço de uma relação entre dívida pública líquida e PIB tão alta quanto 100% custaria 2% do PIB. É ridículo argumentar que isto seria um fardo insuportável. Além disso, para uma economia crescendo 4% ao ano em termos nominais (certamente se esperaria o mínimo dos Estados Unidos, a longo prazo), a dívida pública líquida poderia se estabilizar em 100% do PIB, com um déficit fiscal de 4% do PIB. Isto não é uma recomendação, mas sim uma observação.

Finalmente, a expansão do balancete do Federal Reserve, incluindo um salto nas reservas dos bancos comerciais, só gerará inflação assim que os empréstimos e gastos começarem a decolar. Mas estas são precisamente as circunstâncias nas quais será mais fácil para o Fed drenar o excesso de liquidez. É verdade que ele poderia esperar demais. Mas não precisa ser assim.

Agora, suponha que, em vez de manterem a calma, por medo as autoridades busquem um endurecimento monetário e fiscal prematuro. Dada a extrema fragilidade do setor privado, isso poderia causar outra recessão econômica. O resultado inevitável seria outra rodada de medidas fiscais e monetárias de emergência. Isto é fundamental: medidas monetárias e fiscais excepcionais não são a causa principal de perigo. A fraqueza da economia privada está na raiz. As políticas são uma consequência.

Tudo isso torna a implantação de "estratégias de saída" nacionais e globais um assunto de juízo delicado. Quase certamente, erros serão cometidos. Mas está perfeitamente claro quais serão os elementos principais: bancos centrais plausivelmente independentes; um compromisso crível com a responsabilidade fiscal a longo prazo; e um reequilíbrio da demanda global, longe da antiga dependência de países altamente gastadores.

Isso será fácil? Definitivamente não. Ao menos acontecerá? Eu temo que não. Mas os autores de políticas ao menos nos deram a oportunidade de discutir a saída. Isto é um sucesso. Agora temos que construir uma recuperação global vigorosa em cima disso.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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