Legado de "Leão" é faca de dois gumes para Abdullah

Matthew Green No Vale Panjshir (Afeganistão)

  • AFP

    Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi nomeado chanceler no governo interino de Karzai, posto que ocupou até 2006. Seu pai era Pahtun e sua mãe era Tajik



Uma multidão lotou os degraus de um mausoléu com domo dourado encarapitado nas montanhas ao norte de Cabul ontem para homenagear um comandante cujo talento na luta do Exército Vermelho Soviético rendeu-lhe o título de "Leão de Panjshir".

Com sua barba fina e olhar penetrante, Ahmed Shah Massoud foi idolatrado não apenas por impedir nove tentativas soviéticas de derrubar o vale de Panjshir: para seus defensores - muitos da minoria tadjique - o astuto guerrilheiro também personificava o tipo de nacionalismo afegão tolerante que um dia poderá curar sua nação dividida.

Oito anos após o assassinato de Massoud - logo antes dos ataques de 11 de setembro nos EUA - muitos habitantes deste vale pedregoso estão atrelando suas esperanças em seu confidente, Abdullah Abdullah. Seus partidários esperam que, com sua forte votação nas eleições altamente questionadas, ele possa desafiar o governo corrupto do presidente Hamid Karzai.

"Não queremos um governo podre! Abdullah para presidente!", gritava um homem aclamado pela multidão.

Abdullah, contudo, enfrenta um dilema. Apesar de gostar de projetar a mesma imagem inclusiva e abrangente cultivada por Massoud, sua associação com o eleitorado do Norte pode dificultar suas tentativas de se transformar em uma figura nacional capaz de transcender as divisões étnicas.

O Afeganistão, com seu território acidentado e diferentes povos, sofreu com marés étnicas durante séculos de invasões e tende a se unir como nação apenas durante momentos excepcionais sob um líder altamente carismático.

Relaxando em sua casa de campo vale abaixo, Abdullah apontou para o apoio que obteve entre os pastuns do Sul - cerca de 45% da população - como evidência que a prática ampla de votar em linhas étnicas estava se quebrando. "Há grande potencial para os políticos do Afeganistão livrarem-se desse tipo de sabedoria convencional", disse ele.

Alguns anciãos pashtuns certamente ficaram tão desiludidos com a insegurança e corrupção no governo de Karzai, também pashtum, que decidiram votar em Abdullah.

Ainda assim, não está claro quantos votos obteve no Sul pasthum. As memórias ainda estão frescas do caos que se seguiu após a retirada soviética em 1989, na qual as forças leais a Massoud e a outros senhores de guerra fizeram massacres. Os oponentes de Abdullah dizem que ele está manchado com a história sangrenta daquela época.

Resultados preliminares dão a Abdullah 28,3% dos votos contra 54,1% para Karzai, apesar de serem altamente questionados. Uma Comissão de Reclamações Eleitorais patrocinada pela ONU ordenou a recontagem dos votos em muitas zonas eleitorais após descobrir evidências de fraude "claras e convincentes". Ainda não está claro, contudo, se as autoridades eleitorais afegãs, nomeadas por Karzai, obedecerão prontamente ou se a recontagem dará um total muito diferente.

Com o processo eleitoral desintegrando-se, cresceu a especulação que o Ocidente talvez pressione Karzai a algum tipo de compartilhamento de poder com oponentes, para preservar a união nacional.

Abdullah descartou essa possibilidade. Apesar de ter sido ministro de relações exteriores de Karzai até 2006, ele diz que o governo é corrupto demais para que cogite uma união.

Em vez disso, procurou uma posição moral elevada prometendo buscar meios legais para derrubar os resultados fraudulentos enquanto instou seus partidários a manterem a calma.

Tradução: Deborah Weinberg

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