Encontro de cúpula do G20: Novo grupo assume liderança econômica global

Edward Luce

Menos de um ano após George W. Bush ter organizado uma reunião das principais economias do mundo para enfrentar a crise financeira global, o Grupo dos 20 (G20) foi colocada ontem na vanguarda do processo de elaboração de políticas econômicas internacionais.

Em uma declaração, a Casa Branca afirmou que os líderes "chegaram a um acordo histórico para colocar o G20 no centro das iniciativas para trabalharmos juntos no sentido de construirmos uma recuperação durável, evitando, ao mesmo tempo, as fragilidades financeiras que conduziram à crise".

Fontes do G20 afirmaram que os novos poderes não serão derivados da abolição de grupos como o G7 e o G8, mas que o G20 se concentrará nas questões econômicas, enquanto o G8 lidará principalmente com questões referentes a relações internacionais e política externa.

Mas os especialistas argumentaram que as alegações dos líderes sobre a importância do G20 são exageradas. Embora o G8 seja visto frequentemente como um grupo muito inflexível para tomar decisões efetivas, o G20 provavelmente será ainda mais difícil. O comunicado divulgado na sexta-feira em Pittsburgh foi prolixo, mas notavelmente curto em substância.

"Mudanças drásticas na economia mundial nem sempre se refletiram na arquitetura global para cooperação econômica", afirmou a Casa Branca em uma declaração distinta. "Tudo isso começou a mudar hoje com o acordo histórico para colocar o G20 no centro dos esforços para trabalharmos juntos no sentido de construirmos uma recuperação durável".

Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, foi ainda mais longe, afirmando que o novo grupo "oferece mais chances de apresentar resultados do que qualquer outra coisa desde a Segunda Guerra Mundial".

Em um nível simbólico, a medida é muito importante já que ela faz com que o sistema de cooperação econômica atualize-se em relação às modificações da economia global que são evidentes há mais de uma década - especialmente a rápida alteração do centro de gravidade econômico do oeste para o leste. O novo clube possui seis membros asiáticos, incluindo China, Japão, Índia, Coreia do sul, Indonésia e Austrália. Já o G8 possui apenas um, o Japão.

Mas o fato de o novo grupo incluir membros tão diversos como a Argentina, a Turquia e a presidência da União Europeia (UE) - além de países e organizações com status de observadores, como a Espanha, a Holanda e a Organização das Nações Unidas (ONU) - indica que o seu trabalho real será feito por subcomitês menores. Em um mundo em que os "grupos G" proliferam, o que deve chamar mais atenção é aquele apelidado de "G2", que consiste de Estados Unidos e China.

Muita gente que compareceu ao encontro de Pittsburgh observou o tamanho e a sofisticação da delegação chinesa, quando comparada a qualquer outra, com exceção da norte-americana.

"Se você quiser descobrir o que o mundo fará, determine a posição dos Estados Unidos e a da China, e trace uma linha entre as duas", afirma David Rothkopf, um ex-funcionário graduado do governo Clinton. "Quanto ao G20, seria mais eficiente retirar o Canadá e a Itália do grupo e convidar a China e a Índia para substituí-los. Mas a cooperação intergovernamental sempre acrescenta. Ela jamais subtrai".

A mudança poderá também perturbar o universo das instituições multilaterais formais. Em uma entrevista ao "Financial Times" na sexta-feira, Ban Ki-Moon, o secretário-geral da ONU, afirmou que estava em Pittsburgh para lembrar aos líderes do G20 que 85% dos países do mundo não estavam representados na reunião. O G20 responde por 85% da renda global.

"Ainda existe apenas um órgão universal para a cooperação intergovernamental, e esse órgão é a Assembleia Geral da ONU", disse ele. "Eu pedi aos líderes do G20 que encarassem a ONU como uma parceria vital em todos os níveis".

Segundo ele, um desses níveis é o que diz respeito às negociações sobre a alteração climática, que continua sendo um assunto da alçada da ONU, mas pelo qual o G20 está manifestando um interesse cada vez maior.

Ban pediu aos líderes mundiais que fornecessem US$ 250 bilhões (170 bilhões de euros, 154 bilhões de libras esterlinas, R$ 450 bilhões) por ano para ajudar os países mais pobres do mundo a adotarem novas tecnologias que lhes possibilitem enfrentar o aquecimento global. É improvável que alguns dos países ricos disponham-se a desembolsar qualquer cifra próxima à solicitada pelo secretário-geral da ONU.

Quanto ao G8, os observadores afirmam que ele continuará discutindo a segurança global.

Para confundir ainda mais as coisas, Stephen Harper, o primeiro-ministro do Canadá, país que sediará o encontro de cúpula do G8 no ano que vem, disse ontem que convidará os ministros do G20 para uma reunião que girará em torno do encontro do G8. A Coreia do Sul sediará o próximo encontro do G20.

"Serão dois encontros de cúpula distintos", afirmou Harper. Ou, para colocar as coisas de outra forma, um dos encontros será importante, o outro não.

Nascido para enfrentar crises
Setembro de 1999: O G20, consistindo de 19 países mais a União Europeia, com representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, é criado em uma reunião dos ministros das Finanças do G7 em resposta à crise financeira asiática de 1997 a 1999.

Dezembro de 1999: Primeiro encontro dos ministros das Finanças do G20 em Berlim. A partir daí, os ministros das Finanças do G20 passaram a reunir-se anualmente.

Novembro de 2007: Reunião na Cidade do Cabo, na África do Sul, onde os ministros das Finanças concordaram que os bancos centrais deveriam injetar liquidez nos mercados em resposta ao início da crise financeira global.

Novembro de 2008: O presidente George W. Bush convoca o primeiro encontro dos chefes de Estado do G20 em Washington para que seja elaborada uma resposta coordenada global à crise financeira.

Abril de 2009: Na reunião do G20 em Londres, os países participantes prometem US$ 500 bilhões (R$ 900 bilhões) para o refinanciamento do FMI.

Setembro de 2009: Em Pittsburgh, os líderes dos países membros
concordam em expandir o papel do G20, colocando o grupo no centro do
processo de elaboração de políticas econômicas internacionais.

Tradução: UOL

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