Índia aumenta aposta nuclear

Por James Lamont, em Nova Déli, e James Blitz, em Londres*

A Índia tem agora a capacidade de construir armas nucleares com o mesmo poder de destruição que aquelas nos arsenais das maiores potências nucleares do mundo, aumentando sua defesa estratégica contra possíveis agressores na região.

Altos funcionários do setor atômico em Nova Déli disseram que a Índia havia construído armas que juntas têm até 200 quilotons de potência, o que segundo eles seria considerado um "impedimento estratégico considerável" pela comunidade global. Uma arma nuclear acima de 50 quilotons é considerada de alta potência. O aumento de capacidade da Índia dá ao país uma vantagem considerável sobre o Paquistão, seu arqui-inimigo que também possui armas nucleares.
  • Emmanuel Dunand/AFP - 26.jan.2004

    Militar indiano ao lado de míssil nuclear durante desfile em Nova Déli. Altos funcionários do setor atômico na Índia disseram que o país havia construído armas que juntas têm até 200
    quilotons de potência. Uma arma nuclear acima
    de 50 quilotons é considerada de alta potência



A declaração da Índia veio no mesmo momento em que o Irã realizou simulações de operações militares ontem, testando mísseis de curta distância, poucos dias depois de anunciar que havia construído uma nova fábrica de enriquecimento de urânio. Os governos ocidentais tomaram isso como mais uma prova de que Teerã está desrespeitando as determinações da ONU.

O movimento da Índia veio depois de um acalorado debate nacional que questionou se os últimos testes nucleares do país em 1998 foram bem sucedidos. K. Santhanam, cientista sênior da Organização de Desenvolvimento e Pesquisa de Defesa, contestou recentemente o teste termonuclear em Pokhran, no Rajastão, alegando que potência foi menor do que era esperado.

O debate alimentou as especulações de que a Índia pode estar se preparando para outro teste nuclear, uma proposição considerada com seriedade por alguns membros da comunidade de segurança internacional.

Um teste também aumentaria as tensões com o Paquistão e prejudicaria um acordo civil nuclear recém-assinado entre Nova Déli e Washington.

A Índia, que se recusou a assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, começou a desenvolver seu arsenal nuclear em 1974. Estima-se que Nova Déli tenha fabricado plutônio próprio para armas nucleares para pelo menos 100 ogivas. Altos funcionários indianos insistiram que os testes de 1998 foram bem sucedidos e negaram a necessidade de qualquer outro recurso além das simulações de computador para medir a potência das armas nucleares.

"Os testes de maio de 1998 foram totalmente bem sucedidos no que diz respeito a atingir as metas científicas e a capacidade de construir armas de fissão e termonucleares com até 200 quilotons de potência", disse R. Chidambaram, principal conselheiro científico do governo e ex-chefe da Comissão de Energia Atômica.

Analistas do Paquistão, enquanto isso, mostraram-se confiantes diante das afirmações da Índia. "O ponto é que o Paquistão se beneficia com o conhecimento de que têm potencial nuclear suficiente para impedir a ameaça de um ataque nuclear", disse Shahid ur Rehman, autor de um livro sobre a preparação para o teste nuclear do Paquistão em 1998.

*Farhan Bokhari contribuiu com a reportagem em Islamabad.

Tradução: Eloise De Vylder

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