As empresas, e não os burocratas, recolocarão o comércio nos trilhos

Alan Beattie

Foram necessárias cerca de 48 horas após a reunião do G-20 em Washington, em novembro passado, para os primeiros buracos aparecerem na promessa antiprotecionismo assinada por todos os chefes de Estado.

A Rússia fez a primeira incisão, ao elevar as tarifas dos automóveis, após a qual praticamente todos seguiram a brecha.
  • Jim Youn/Reuters

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o colega americano, Barack Obama, posam para foto oficial durante o jantar dos líderes do G20, em Pittsburgh, EUA. Apesar da promessa antiprotecionismo assinada por todos os chefes de Estado, já começaram obstáculos ao livre-comércio no mundo



Desta vez a tolice precedeu o encontro de cúpula. Em um fim de noite de sexta-feira na semana retrasada, o governo Obama tentou (sem sucesso) inserir discretamente sua decisão de proibir a importação de pneus chineses.

E no final da semana passada, enquanto o encontro em Pittsburgh estava em andamento, a Comissão Europeia decidiu impor tarifas "antidumping" aos canos de aço chineses. A maioria dos bloqueios às importações é injustificada, especialmente esses.

Apesar da alegação de Barack Obama de que estava apenas cumprindo os acordos de comércio, as tarifas em questão, segundo a previamente não utilizada Seção 421 da lei de comércio americana, não exige que Washington prove que os bens estão com preço abaixo de custo ou subsidiados - apenas que estão aumentando rapidamente.

De forma semelhante, a decisão da União Europeia abriu um novo terreno: ela protegeu as empresas da mera ameaça de serem prejudicadas por uma concorrência de custo menor, em vez de primeiro fazê-las provar isso.

Assim, o protecionismo está crescendo, frequentemente de formas novas e inovadoras, e há pouco sinal de que o processo do G-20 está fazendo algo para restringi-lo (o encontro em Pittsburgh também incluiu a promessa ritual de concluir a chamada rodada de Doha das negociações de comércio, mas a promessa agora possui a mesma sinceridade de dizer "Tenha um bom dia"). Mas um conselho de desespero seria, no mínimo, prematuro.

Os lobbies protecionistas que provocaram o caos em recessões do passado estão mais fracos ou mais ambivalentes desta vez. Se a recuperação econômica nascente prosseguir e se fortalecer, há uma chance razoável de que a atual onda de protecionismo possa recuar sem causar danos demais.

Acima de tudo, vale a pena destacar que é difícil avaliar quanto protecionismo está sendo de fato imposto. Diferente dos anos 30, quando ocorreram aumentos disseminados nas tarifas permanentes de importados, o protecionismo atual vem em formas mais nebulosas: antidumping e outras proteções de emergência contra importados, como as impostas por Washington e Bruxelas; resgates financeiros às empresas domésticas; restrições às licenças de importação; palavras discretas e ameaçadoras aos ouvidos dos executivos sobre a tolice de demitir em casa antes de demitir no exterior.

Simon Evenett, o acadêmico que coordena o Global Trade Alert, o valioso projeto de monitoramento, estima que cerca de 80% da categorias de tarifas (em um nível particular de desagregação) foram afetadas de alguma forma. Mas como ele reconhece, não está claro quanto exatamente cada categoria foi afetada.

E com o número de ações antidumping ainda muito abaixo das altas históricas, parece improvável que as restrições impostas até o momento terão um grande impacto no comércio global. Até o momento, os setores que estão recebendo proteção antidumping e semelhantes são principalmente insumos de baixo valor -pneus baratos, canos de aço, papel fotográfico.

Para as empresas que compram esses produtos, é sem dúvida incômoda a interrupção do fluxo comercial, mas poucas verão uma imensa escalada de seus custos.

As indústrias protecionistas de alto valor do passado, como o setor automotivo americano que ajudou a liderar a campanha contra os importados japoneses nos anos 80 e 90, estão muito menos ativas no lobby comercial, principalmente porque elas mesmas construíram fábricas por todo o mundo.

A menos que os resgates ao setor automotivo se transformem em subsídios permanentes, a indústria automotiva global deverá começar a retornar à normalidade competitiva caso a economia continue se recuperando. As implicações protecionistas das tarifas ao carbono, que fazem parte do debate da mudança climática, são outra história, mas essa é uma ameaça potencial e não uma de fato por ora.

E a notícia mais animadora da semana passada tinha pouco a ver com a reunião do G-20. O comércio global está respondendo ao aumento da demanda, postando seu maior aumento mensal em cinco anos.

Poucas pessoas que trabalham de fato nas empresas que realizam comércio internacional prestarão atenção nas promessas vazias feitas em Pittsburgh. São as empresas e os consumidores, e não os burocratas, que recolocarão o comércio nos trilhos. Há motivos para ficar otimista em relação ao comércio, mas o G-20 não está entre eles.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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