Wolf: Grandes obstáculos à frente na estrada para a recuperação e reforma

Martin Wolf

Há um ano, a economia mundial caiu em uma profunda recessão. Agora, felizmente, nós vemos uma estabilização financeira e recuperação econômica. Mas não devemos declarar vitória. O mundo ainda pode cometer dois erros: primeiro, nós podemos retirar o estímulo cedo demais; segundo, podemos perder a oportunidade para a reforma. Nós temos que evitar ambos os riscos. Esta é a lição que aprendi nas assembleias anuais do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial em Istambul. Logo, onde estamos e para onde precisamos ir? Pense nisso como sendo os cinco Rs: resgate, recuperação, reequilíbrio, regulamentação e reforma.

O resgate foi sem precedente em escala e amplitude. Era necessário: a economia mundial caiu do penhasco. No início de 2009, a queda anualizada do índice de média móvel trimestral do produto industrial mundial atingiu 25%. A queda no comércio mundial foi ainda mais extrema.

Em resposta, as autoridades socializaram grande parte dos passivos financeiros, lançaram um alívio monetário sem precedente e incorreram em déficits fiscais nunca antes vistos em tempos de paz. Nos países ricos, o apoio ao setor financeiro - via injeções de capital, garantias, compras de ativos e provisão de liquidez - foi de 29% do produto interno bruto de 2008. Em seu Panorama Econômico Mundial, o FMI prevê o déficit fiscal nestes países em 9% do PIB em 2009. O aumento previsto na dívida pública se compara ao de uma grande guerra.

"Funcionou", como os líderes do grupo dos 20 países principais países ricos e emergentes disseram após seu encontro de cúpula em Pittsburgh. Uma indicação é a revisão para cima das previsões do FMI desde julho: o produto mundial deverá encolher "apenas" 1,1% neste ano e então crescer 3,1% no próximo ano. Isso representa uma melhora de 0,3 e 0,6 ponto percentual em relação à previsão de julho. Nos 12 meses a partir do quarto trimestre de 2009, as economias de alta renda deverão expandir 1,7% e as emergentes da Ásia 7,8%, com a da China expandindo 9,2%.

Nós não devemos esquecer o que essa recuperação significaria: poucas economias provavelmente verão uma queda no desemprego ou da capacidade excedente ao longo do próximo ano. Além disso, a recuperação está altamente dependente do aumento de gastos do governo e do ciclo de estoque, particularmente nos Estados Unidos. Como destaca o FMI, "o principal risco é o de que a demanda interna nas economias avançadas permaneça muito fraca".

Apesar da recuperação na confiança, o sistema financeiro permanece danificado. A desalavancagem no setor privado mal começou. O aumento da taxa de poupança em países como os Estados Unidos e o Reino Unido também pode provar ser permanente. Assim, o crescimento pode enfraquecer quando a recuperação dos estoques e o estímulo fiscal completarem seu curso. Uma retirada precoce do estímulo provavelmente seria um erro imenso.

Mas esperar que os países com déficits externos e setores privados engrenados forneçam grande parte do estímulo à demanda também é muito arriscado. Isso poderia transformar a crise atual da dívida do setor privado na crise monetária e de dívida pública de amanhã. Este é o motivo para o terceiro R -o reequilíbrio- ser tão importante. O mundo precisa que os países com grandes superávits sustentem uma taxa de crescimento mais alta da demanda do que o produto potencial, para reduzir seus superávits. Mas isso não está acontecendo. Os "desequilíbrios" em conta corrente caíram neste ano, mas em grande parte devido à queda nos preços do petróleo. Além disso, o FMI espera que esses desequilíbrios cresçam a partir do próximo ano. Este é um reequilíbrio menor do que o mundo precisa para que a recuperação seja sustentável e saudável.

Além dessas grandes preocupações de médio prazo estão duas questões de prazo mais longo: regulamentação do setor financeiro e reforma do sistema monetário internacional. Ambas agora estão na agenda. Mas em ambas, a ação provavelmente ficará aquém do necessário.

Na nova regulamentação financeira, os autores de políticas enfrentam pressões contraditórias: a curto prazo, eles estão desesperados para fazer com que o crédito flua; mas a longo prazo, eles desejam prevenir outra crise. O encontro do Instituto para Finanças Internacionais (IIF), a associação do setor financeiro global, deixou claro que o setor está ciente desse dilema - e determinado a explorá-lo. Até mesmo Joseph Ackermann, um dos líderes mais refletidos do setor e presidente do IIF, argumentou que "as reformas regulatórias oficiais devem ser equilibradas, e que as trocas envolvendo um possível crescimento global menor e uma necessidade menor de criação de empregos devem ser cuidadosamente consideradas".

Resumindo: obrigado pelo seu dinheiro, agora vá embora. Isso é previsível demais. Mas uma mudança fundamental é essencial. Fazer o que os banqueiros querem também é politicamente venenoso. Nenhum bônus deve ser pago até que os bancos atinjam os níveis adequados de capital. Melhor ainda, como argumentou Andrew Smithers, da Smithers & Co. de Londres, vamos forçar os bancos a levantarem o capital necessário e, se não conseguirem, deixar os governos cuidarem disso.

A longo prazo, pelo menos três mudanças adicionais são necessárias: um regime de resolução para todas as instituições financeiras, com os custos recaindo sobre os credores; a passagem de virtualmente todos os negócios por câmaras de compensação organizadas; e sistemas de remuneração que assegurem que a administração das instituições resgatadas sempre perca bastante.

Finalmente, há o desafio da reforma global, particularmente a reforma do sistema monetário global. Dominique Strauss-Kahn, o diretor-gerente do FMI, levantou esta questão quando defendeu tornar o Fundo um "emprestador global de último recurso". A experiência ressaltou duas preocupações interligadas: primeiro, muitas economias emergentes contam com superávits em conta corrente e reservas elevadas de moeda estrangeira, para reduzir o risco de crises monetárias e financeiras; segundo, a dependência da moeda de um país dominante como principal fonte de reservas cria vulnerabilidade no coração da economia global.

Strauss-Kahn argumenta, acertadamente, que a solução é um seguro coletivo, via um FMI maior. De modo temporário, via os chamados Novos Acordos de Obtenção de Empréstimo (NAB, na sigla em inglês) e emissão adicional de direitos especiais de saque (SDR, na sigla em inglês), os recursos emprestáveis foram triplicados para US$ 750 bilhões, e US$ 283 bilhões adicionais foram alocados como SDRs, US$ 110 bilhões dos quais serão destinados aos países emergentes e em desenvolvimento. Isto é bom, mas não é suficiente. Os recursos dos NAB também não são duradouros. Além disso, os fracassos do sistema monetário global precisam ser tratados. Eles tiveram um grande papel nesta crise. Nós não queremos uma repetição.

Este não é um momento para um retorno aos negócios como de costume. Nós sobrevivemos a esta crise. Mas poderemos não suportar outra, possivelmente maior e ainda mais perigosa daqui poucos anos. Vamos mostrar agora à posteridade que conseguimos aprender com a história.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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