Análise: Argentina está disposta a melhorar relações com credores

Da Reportagem do FT

Sentado em seu gabinete, tomando um tradicional mate argentino, Amado Boudou não tem dúvidas de que sua conquista mais significativa como ministro da economia seria colocar seu país de volta aos mercados de capital internacionais.

Com seus olhos azuis e fisionomia de Johnny Hallyday, um movimento como esse seria um feito impressionante por um homem que muitos na Argentina consideram apenas um "rosto bonito". E também assinalaria uma recuperação notável para um país que deixou de pagar US$ 95 bilhões (R$ 165 bilhões) em dívidas há oito anos - a maior dívida pública da história - e virou as costas amargamente para o Fundo Monetário Internacional, acusando-o de ter levado a Argentina à ruína.
  • Fernando Bizerra Jr./EFE - 19.ago.2009

    O ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, diz que seu objetivo é "tornar a economia sustentável". Muitos discordam do seu receituário



A terceira maior economia da América Latina, com um quarto do tamanho da Europa, tem sido um pária financeiro desde então, cortada dos mercados globais e perseguida por processos de credores de títulos inadimplentes que rejeitaram uma rígida reestruturação em 2005. A posição de ovelha negra do país fez inflar seu risco de crédito e a diferença entre seus títulos de referência e os títulos do Tesouro norte-americano chegou a 1.900 pontos base no ano passado.

Mas agora até países que antes eram estáveis como os EUA e o Reino Unido ficaram mais humildes com a crise global. Nas palavras de outro empresário influente de Buenos Aires, "agora todos os países são ovelhas negras".

As taxas de juros extremamente baixas estão aumentando o apetite dos investidores por ativos ainda mais arriscados, como os da Argentina. Isso oferece uma oportunidade para Boudou, que, desde sua nomeação, há três meses, vem tentando reatar os laços com a comunidade financeira internacional.

Os títulos nacionais se recuperaram nitidamente, reduzindo pela metade o risco do país nas últimas semanas em meio a esperanças de que a Argentina possa se regenerar. Mas um economista disse que as expectativas são tão grandes que qualquer atraso ou retrocesso por parte do governo seria um golpe duro para a confiança.

Boudou esconde bem suas cartas e não revela quando ou como a Argentina pode restaurar suas relações com os credores internacionais. Num mundo ideal, haveria uma nova oferta antes do final do ano para segurar os donos de títulos que recusaram a oferta de 30 centavos para cada dólar que a Argentina fez em 2005, e para os quais o país deve US$ 29 bilhões (R$ 50 bilhões) com juros. Pela primeira vez em três anos, a avaliação do FMI sobre as contas públicas argentinas poderá prosseguir.

Isso abriu caminho para o pagamento de mais de US$ 6 bilhões (R$ 10,4 bilhões) que o país devia para o Clube de Paris das nações ricas. Por fim, a Argentina pode voltar aos mercados no ano que vem para aumentar as finanças públicas, esmagadas pela queda no crescimento econômico e por gastos estatais insustentáveis.

Boudou sorri e diz: "Ninguém tem uma bola de cristal". Mas as fotos da presidente Cristina Fernández ao lado do gabinete dele são um lembrete de que a primeira coisa necessária é um sinal político inequívoco por parte da Casa Rosada. E isso significa um "sim" do marido de Fernández e seu antecessor na presidência, Néstor Kirchner, que ainda retém sua influência sobre a política.

Alguns acreditam que Fernández gostaria que a Argentina fosse para a cama com a comunidade internacional. "Mas toda noite ela tem de ir para a cama com Néstor Kirchner", diz uma pessoa que conhece o casal presidencial.

Kirchner esbravejou que a Argentina não voltaria para o FMI "de jeito nenhum" depois de pagar os US$ 10 bilhões (R$ 17,3 bilhões) de dívida em 2006. Mas o governo poderá ter de engolir seu próprio orgulho para aumentar as chances de Kirchner voltar ao poder nas eleições de 2011, e poderá aceitar uma leve avaliação de suas contas por parte de um FMI mais arrependido, e não por parte do credor que, segundo Boudou, costumava andar pela cidade "como um rei".

O ministro diz que seu objetivo é "tornar a economia sustentável". Muitos discordam. "Se o governo for pragmático agora, é por necessidade", disse um empresário, ecoando a visão de muitos. "O maior problema da Argentina é credibilidade".

O governo é suspeito de manipular a agência de estatísticas do Estado, o Indec, há quase três anos, o que levou o banco central a desistir de usar alguns dados oficiais. A presidente também assustou os investidores com uma rápida nacionalização dos fundos de pensão privados no ano passado, executada por Boudou. Durante o fim de semana, ela pressionou a aprovação de uma lei com objetivo de reduzir o poder do grupo de mídia Clarín, grande crítico do governo.

"A Argentina é um país pelo qual deveríamos chorar", disse recentemente Martin Richenhagen, chefe da fabricante de equipamentos agrícolas AGCO. Ela tem "um governo familiar incompetente que pensa só em si mesmo e nada em relação ao país". Boudou, que foi DJ em sua época de estudante, ganhará aplausos se conseguir fazer com que todos os credores dancem a sua música. Ele poderá então pensar em se mudar para um gabinete maior.

"Não, só tem um que é maior", sorri. "Ou talvez dois".

(Reportagem de Lionel Barber, Jude Webber e John Paul Rathbone em Buenos Aires e Jonathan Wheatley em São Paulo.)

Tradução: Eloise De Vylder

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