Dúvida sobre a cura proposta por Chávez para o sistema de saúde

Benedict Mander Em Caracas

Hugo Chávez parecia intrigado quando, em um de seus recentes programas de televisão aos domingos, ouviu o relato da experiência de pesadelo da irmã de um convidado tentando encontrar um lugar para dar à luz em Caracas.

Em trabalho de parto, foi mandada de hospital em hospital, repetidamente rejeitada pela falta de leitos e médicos. Incrédulo, o presidente venezuelano perguntou: "Quem é responsável por isso?"

Muitos venezuelanos colocam a culpa diretamente nos ombros de Chávez. Eles consideram esse fenômeno cada vez mais comum - conhecido como "corrida" - como sintomático da decadência dos hospitais públicos do país rico em petróleo, após anos de negligência.
  • Reuters

    Muitos venezuelanos colocam a culpa do caos
    na saúde diretamente nos ombros de Chávez



A rede popular de centros de saúde primária introduzida nas favelas venezuelanas por Chávez também se deteriorou a tal ponto nos últimos dois anos que ele a declarou em estado de "emergência" no mês passado.

Isso está acontecendo apesar dos cofres do governo estarem transbordando da renda do de petróleo, graças a um salto nos preços de energia nos últimos anos. É uma questão de preocupação considerável para o líder socialista - cujo índice de aprovação escorregou em cerca de 10 pontos percentuais desde o início do ano - pois enfrenta eleições legislativas no ano que vem.

O apoio popular contínuo a Chávez deve-se em grande parte aos seus programas sociais, ou "missões", em particular o programa de saúde de medicina preventiva ao estilo cubano, barrio adentro. O presidente esforçou-se nas últimas semanas para alardear suas conquistas, alegando que o sistema salvou 226.324 vidas desde que foi estabelecido em 2003.

"Cortamos pela metade os níveis de pobreza (na última década), e aposto a minha vida que teremos eliminado a miséria e a pobreza nos próximos 10 anos", disse Chávez na semana passada, anunciando que mais de 1.000 médicos seriam enviados de Cuba para reforçar os 10.000 que trabalham no barrio adentro - cerca de metade do número original - assim como cerca de 2.500 estudantes venezuelanos que terminaram o curso de medicina na ilha caribenha.

Não há dúvida que o barrio adentro precisa de médicos mais numerosos e qualificados. Chávez admitiu que cerca de 2.000 dos 6.700 centros de saúde, que frequentemente contam com apenas um funcionário, foram "abandonados".

Contudo, os especialistas dizem que tais problemas não podem ser resolvidos simplesmente importando mais médicos cubanos, cujos números caíram significativamente em 2005 quando Chávez enviou 4.000 para a Bolívia para estabelecer um sistema similar. Além disso, muitos voltaram para casa, enquanto outros aparentemente usaram o programa para fugir do regime de Castro e não estão mais no país.

"A crise de saúde do país não será resolvida consertando apenas alguns barrio adentro, apesar de todo o bem que faz", disse Patrícia Yánez, socióloga de esquerda da Universidade Central da Venezuela. Com o estabelecimento de um sistema paralelo com o barrio adentro, a saúde tornou-se ainda mais fragmentada, cara e ineficiente, disse ela.

Ainda assim, esses problemas são insignificantes perto do que acontece com os hospitais públicos caóticos do país, onde são atendidas as emergências, cirurgias e partos. Com o barrio adentro atraindo a maior parte dos fundos do governo, esses hospitais enfrentam uma terrível falta de leitos e médicos especialistas, enquanto o equipamento básico é escasso ou velho e faltam remédios.

Com os salários magros e as condições de trabalho miseráveis, muitos médicos escolhem emigrar para países como Espanha e Austrália ou trabalhar no setor privado, onde podem ganhar algumas vezes o salário mensal no setor público de US$ 1.023 (em torno de R$ 2.000). Esse movimento teve consequências assustadoras para os índices de mortalidade materna, que continuam desnecessariamente altos na Venezuela, assim como o atendimento neonatal, diz Marino Gonzalez, ex-representante da Venezuela na Organização Mundial de Saúde.

Além disso, o setor de saúde venezuelano continua aleijado pela corrupção, má administração e desorganização, que deixam os novos investimentos sem efeito.

"Muitas vezes, você vê hospitais recém construídos, com os equipamentos mais modernos, fechados, enquanto outros em condições horríveis continuam abertos. Em alguns casos, as reformas são iniciadas, mas nunca terminadas", diz Rafael Castillo, ginecologista em Caracas.

Miguel Manzo, que dirige o hospital Perez de Leon em Caracas, reclama que as expansões iniciadas há seis anos devem ser terminadas. "Já custaram três vezes o orçamento original, mas ainda falta a metade. A razão? Corrupção, claro", diz ele.

Marisol Flores, funcionária do Ministério da Saúde que trabalha na favela de Petare no leste de Caracas, lamenta a situação. "É bom termos sido capazes de trazer remédios para as regiões pobres, mas é preciso ter muito mais ordem -essa é a parte ruim", diz ela. "É uma grande vergonha, porque a Venezuela é um país tão rico, e as coisas deveriam ser muito melhores."

Tradução: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos