"Plutonomia", a economia dos ricos: moralmente ruim ou economicamente boa?

Gillian Tett
Em Londres (Reino Unido)

Não é frequente estrategistas de investimentos estrelarem filmes de Hollywood. Esse foi o destino, contudo, de Ajay Kapur, analista que trabalhava para o Citi.

Cinco longos anos atrás, Kapur e alguns de seus colegas do Citi escreveram uma nota de pesquisa densa sobre a questão da "plutonomia", uma palavra que inventaram para descrever as economias movidas (e controladas) por uma elite rica, tais como as dos EUA e do Reino Unido.

Na época -em 2004 e 2005- o grupo de Kapur teve dificuldades em fazer suas ideias serem aceitas por seus chefes. "A tese foi considerada muito absurda", lembra-se. No mês passado, porém, ele descobriu que o diretor de cinema americano Michael Moore tinha de alguma forma lido sua nota -e o retratado como um dos "malvados" em seu mais recente filme, "Capitalism, a love story" (capitalismo, uma história de amor).

Enquanto Kapur analisou as "plutonomias" para ajudar investidores a selecionarem ações (os investidores devem investir em empresas vendendo bens de luxo para os ricos, como Louis Vuitton), Moore adotou uma visão mais moralista.

Nada surpreendentemente, Kapur está furioso. "Não houve intenção nefasta ou subversiva por trás de nossa pesquisa sobre a plutonomia, que não era nem 'secreta' nem 'confidencial'", diz ele. "Fizemos uma análise clínica sobre o tema e não fizemos julgamentos morais se a plutonomia era uma coisa boa ou ruim", acrescenta.

Contudo, Moore manteve seus ataques. "Alguém do Citigroup discutindo entre certo e errado é como Bernie Madoff discutindo ética -sua credibilidade varia entre zero e coisa nenhuma", diz ele. "Este banco teve um importante papel no derretimento econômico que prejudicou tantas pessoas, pagou enormes bônus aos seus executivos e tomou bilhões em dólares dos contribuintes -nada grita tanto quanto um porco de banco quando é pego."

De qualquer forma, enquanto a luta continua, está tendo um benefício inesperado: ou seja, reanimando o interesse sobre a plutonomia. Pois apesar de Kapur agora ter se transferido para o grupo Mirae Asset em Hong Kong, recentemente emitiu um novo relatório sobre a plutonomia que certamente é uma leitura fascinante.

A tese essencial é que as plutonomias nascem quando há fatores como "ganhos de produtividade, inovação financeira, governos amigáveis ao capitalismo, conquistas externas e imigrantes cheios de dopamina, estado de direito, proteção de patentes e grande complexidade explorada pelos ricos da época."

Essa descrição se aplicou a países como EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália recentemente: nos EUA, por exemplo, 1% da população controla quase um quarto da riqueza. E isso tem grandes implicações para o consumo ou os fluxos financeiros globais.

Enquanto os economistas tendem a observar fatores como o índice de desemprego para prever o consumo, Kapur acha que isso pode ser enganoso pois é a elite rica -não a classe média- que tende a movimentar o consumo.

No ano passado, por exemplo, a elite cortou os gastos e aumentou a poupança porque seus bens despencaram de valor. Entretanto, no próximo ano, Kapur espera que os plutonomistas voltem e, como resultado, espera que os gastos reapareçam.

Há, contudo, uma mudança crucial. No médio prazo, Kapur acha que os plutonomistas anglo-saxões vão perder poder porque deve haver mais regulação, protecionismo e um contragolpe político, como o próprio filme de Moore.

Mas isso não significa que a plutonomia vai desaparecer. Mesmo que o Ocidente se torne menos afeito ao mercado e desigual, Kapur acha que novas plutonomias vão surgir em mercados emergentes tais como China, Brasil, Rússia e Índia. Assim, a recomendação de Kapur aos investidores é continuar comprando ações de empresas que vendem bens ou serviços de luxo -mas apenas se atendem em locais como Xangai.

Sem dúvida que Moore também consideraria isso venal. Mas o ponto crucial -que Moore e Kapur talvez concordem, é que investidores, políticos, economistas e eleitores precisam se concentrar mais em como a riqueza é distribuída em torno do mundo.

Pois é estudando os detalhes que uma pessoa pode entender como o poder está mudando. Talvez seja hora de Moore levar sua câmera para além de Detroit e fazer seu próximo filme em Déli ou em algumas dessas regiões que podem em breve se tornar "plutonomias", se a tese provar-se verdadeira.

Tradução: Deborah Weinberg

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