Wolf: Por que coibir as finanças é tão difícil

Martin Wolf

Há cerca de um mês, visitei a fábrica de motores aéreos da Rolls-Royce, em Derby. Eu fiquei altamente impressionado. Produzir motores de jatos capazes de funcionar em temperaturas extremas é um feito extraordinário. Por que o setor financeiro não funciona dessa forma? Como poderíamos aproximar o desempenho das finanças ao de outros setores sofisticados?

Esta é, resumidamente, a pergunta que Mervyn King, o presidente do Banco da Inglaterra, abordou em seu controverso discurso desta semana. Sua resposta: dividir os bancos em "utilitários" e "cassinos". Os primeiros seriam seguros. Os últimos viveriam e morreriam no mercado.

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Tanto Alistair Darling, o ministro das Finanças britânico, quanto Gordon Brown, o primeiro-ministro, prontamente atacaram King, argumentando que uma divisão não funciona: o Northern Rock, um prestador de serviços de empréstimo hipotecário, faliu, enquanto o colapso do Lehman Brothers, claramente um cassino, levou ao resgate financeiro mais caro já realizado. Isso, eles argumentam, é um remédio equivocado: a distinção entre utilitário e cassino não pode ser traçada ou, se puder, não coincide com a distinção entre o que precisa ser seguro e o que não precisa. Mas é evidente por que esta distinção é atraente. Se definirmos estreitamente as partes utilitárias do sistema financeiro, como a gestão do sistema de pagamentos, ele funciona como um relógio. É na gestão do risco (e nos conselhos dados aos seus clientes) que o sistema financeiro falha. A responsabilidade limitada no coração de nosso sistema monetário baseado no crédito tem uma tendência de administrar o risco (e a incerteza) de forma incompetente, com resultados devastadores.

Com o tempo, as políticas de resposta protegeram seus credores das consequências. Mas esse esforço para tornar o sistema mais seguro o tornou ainda mais perigoso. Hoje, como resultado desta crise mais recente, nós vemos, no âmago do sistema, gigantes cujos credores sabem que eles são importantes demais para falir. Como comentou King, "o imenso apoio oferecido ao setor bancário em todo o mundo, apesar de necessário para evitar um desastre econômico, possivelmente criou o maior risco moral na história. O problema do 'importante demais para falir' é importante demais para ignorar".

King levanta a questão certa. Ele também está correto em fazê-lo, mesmo que isso deixe os políticos desconfortáveis. De fato, ele está correto exatamente por deixar os políticos desconfortáveis. Eu também concordo com ele que as duas alternativas são tornar as instituições "importantes demais para falir" boas demais para serem assim, ou poderem falir, mesmo em uma crise. Se não conseguirmos obter uma dessas duas opções, futuras crises serão inevitáveis.

Mas eu permaneço não persuadido de que a solução estrutural - a separação entre utilitário e cassino financeiro - é viável, como apontei em uma coluna a respeito da proposta do "narrow banking" do meu colega, John Kay. De fato, o próprio King está ciente das dificuldades.

Primeiro, uma fronteira entre serviços bancários "úteis" e "cassino" é impossível de ser traçada. Para Kay, a prestação de serviço "útil" é o sistema de pagamento e a proteção dos depósitos. Isso deixaria todos os empréstimos - tanto para os lares quanto para empresas - dentro do cassino. Para aqueles nos Estados Unidos que lembram da Lei Glass-Steagall, a distinção é entre bancos comerciais e investimentos de risco.

A distinção de Kay é clara, mas é problemática. Se a seguirmos, toda a gestão de risco se tornaria não regulamentada. É inconcebível que os governos poderiam ou as deixariam ficar assim. Se voltarmos à distinção Glass-Steagall (nunca aceita no continente europeu), nós precisaríamos traçar uma linha. Mas onde? Por que emprestar para lares e empresas seria bom, mas securitizar esses empréstimos seria ruim? Por que o hedging seria bom, mas a especulação ruim, e como alguém poderia traçar uma linha entre eles? King responde que a regulamentação prudente já traça essas distinções. Eu responderia que a regulamentação fracassou em fazê-lo. Além disso, estas não são distinções entre atividades.

Isso não quer dizer que não há como tornar as finanças seguras. Há. Mas seria bem mais radical: os depósitos contariam com 100% de reserva bancária; e as obrigações de outros veículos de investimento seriam corrigidas pelo valor de mercado de seus ativos o tempo todo. A atividade bancária desapareceria.

Fora esse radicalismo, nós devemos abordar a tarefa de forma mais sutil. Primeiro, criando um conjunto de leis e instituições que possibilitem a falência de qualquer instituição, ou mesmo todas, mesmo em uma crise. Segundo, tornar as instituições financeiras mais seguras, com exigências de capital muito mais altas para todas as atividades. Terceiro, impedir atividades fora dos balancetes. Quarto, impor o provisionamento dinâmico. Quinto, exigir enormes reservas de capital contingente. E, finalmente, deixar de favorecer o financiamento da dívida por toda a economia.

Se fizermos tudo isso, o mundo das finanças será mais maçante, porém mais seguro. Mas ele ainda não teria a confiabilidade dos motores de jatos. Enquanto permtirmos que pessoas façam apostas alavancadas no futuro, colapsos ocorrerão. A divisão entre utilitário e cassino não resolve esse problema. Apenas o fim da alavancagem faria isso. Nós queremos isso? Eu duvido.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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