Diminuem as esperanças de uma vitória rápida contra o Taleban no Paquistão

Farhan Bokhari e James Lamont

Altos funcionários e comentaristas paquistaneses estão buscando reduzir as expectativas de que a ofensiva do exército contra as forças do Taleban, no Waziristão do Sul, será uma campanha relâmpago concluída até o final do ano.

Apesar do posicionamento de 30 mil soldados e um "amolecimento dos alvos" durante quatro meses, combates diretos com os militantes leais a Hakimullah Mehsud, o líder do Taleban, ainda não ocorreram.

Região do conflito

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"Há um grande aumento de tropas na região, mas ainda não chegamos a uma situação de combate face a face", disse um alto funcionário do governo.

Menos de 100 militantes do Taleban, dentre os estimados 10 mil no Waziristão do Sul, foram mortos segundo relatos. Em comparação, pelo menos 3 mil militantes morreram na campanha militar de quatro meses na região do vale de Swat, na Província da Fronteira Noroeste, na metade do ano.

"O padrão que está despontando é tático. Nós primeiro estamos tentando colocar esta região sob quarentena, bloqueando todas as possíveis rotas de fuga, e então consideraremos o próximo passo", disse um alto funcionário do governo.

Alguns comentaristas questionaram a eficácia de uma ofensiva tão tardia no ano. "A operação está em andamento há quatro meses. Resta provavelmente um mês até cair a neve, mas ela não pode ser concluída em um mês", disse G. Parthasarthy, um ex-diplomata indiano no Paquistão.

O exército paquistanês, entretanto, prevê que sua campanha durará dois meses e tem dado a impressão nos últimos dias de que realizará combates pesados. O Paquistão já lançou por três vezes ofensivas contra o Waziristão do Sul, mas fracassou em sufocar a atividade militante.

Desta vez, os analistas militares dizem que o planejamento antecipado do ataque por terra lhes dá esperanças de um maior sucesso. O exército paquistanês tinha no passado laços fortes com os grupos militantes e fez apenas tentativas sem empenho de limpar a região.

Ayaz Amir, um parlamentar de oposição pelo partido Liga Muçulmana Paquistanesa-Nawaz, disse que os militantes estão entre "os combatentes mais calejados de batalha do mundo", com habilidades aperfeiçoadas ao longo de 30 anos e acesso a recursos consideráveis. Ele disse que é cedo demais para dizer se o exército paquistanês está decidido a se envolver em combates pesados.

Uma fonte militar americana descreveu a mais recente campanha como real, mas disse que seria "lenta e ponderada".

Uma longa campanha acompanhada por ataques em represália às grandes cidades do Paquistão, como os que ocorreram na sexta-feira, aumentará a pressão sobre o Partido Popular Paquistanês do governo e exacerbará as tensões entre Asif Ali Zardari, o presidente, e o general Ashfaq Kiyani, o chefe do Estado-Maior do Exército.

O exército paquistanês forneceu poucos detalhes de suas táticas desde o lançamento de sua ofensiva no fim de semana. Seu braço de inteligência, o ISPR, fornece relatos muitos diferentes dos eventos do que os fornecidos pelos representantes do Taleban. O acesso à zona de conflito é rigidamente controlado.

As atuais operações estão concentradas nos distritos dos mehsuds ao redor da cidade de Kotkai e na região montanhosa, repleta de cavernas, do triângulo Sararogha-Laddah-Makin, onde Baitullah Mehsud, o líder morto do Taleban, mantinha sua fortaleza.

A estratégia do exército é cercar os militantes mehsuds e lhes negar um corredor de acesso ao Afeganistão. Isso depende de outros líderes tribais permanecerem neutros.

O baixo número de mortos até agora aumentou a preocupação entre as autoridades ocidentais a respeito da não eliminação completa pelo Paquistão dos talebans radicais.

"O Waziristão não é o Somme. O Taleban não luta assim -é uma guerra de emboscadas e combates breves, um trabalho árduo de insurreição de pequenas unidades do que uma grande batalha", disse James Shinn, um ex-funcionário do Pentágono para a Ásia.

"Os paquistaneses raramente recebem crédito quando realmente vão à guerra contra os militantes. Eu suponho que seja um castigo pelos anos de ambivalência oficial, duplicidade (da inteligência militar) e repetidas 'tréguas' com os militantes. Mas agora Islamabad os enfrentou em Bajaur, Swat e, no momento, no Waziristão."

Autoridades de defesa ocidentais em Islamabad disseram que a ação do exército paquistanês provavelmente será liderada pela infantaria, com algum apoio de tanques. A força aérea paquistanesa, equipada com pelo menos 45 caças F-16 de fabricação americana, também está realizando incursões.

"Matar seu próprio povo ou decidir pela escalada de um conflito, independente das consequências para os civis pegos no fogo cruzado, é muito difícil", disse Hasan Askari Rizvi, um comentarista de assuntos militares.

Uma operação militar por si só dificilmente obterá a paz no Waziristão do Sul. Atualmente não há plano de reabilitação para a região, mas há doadores de prontidão para ajudar na sua estabilização. Sem isso, as chances de conter a disseminação da militância religiosa nas áreas de fronteira empobrecidas são remotas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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