O presidente do Banco Central do Brasil se prepara para entrar na política

Lionel Barber e Jonathan Wheatley

Este é o tipo de notícia que normalmente assustaria os investidores: Henrique Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil, está se preparando para entrar na política.

A ameaça de interferência política costumava pairar sobre a economia brasileira como uma nuvem negra. Ainda assim Meirelles explica com a frieza costumeira que ao se filiar ao PMDB, o maior partido político brasileiro, de centro, ele está apenas explorando possibilidades. Ele pode entrar na política nas eleições gerais de outubro próximo, talvez concorrendo ao Senado; ou pode ficar no banco; ou então voltar para o setor privado.
  • Sérgio Lima/Folha Imagem

    "Estou apenas abrindo uma possibilidade para o meu futuro", disse Meirelles ao "Financial Times"



"Estou apenas abrindo uma possibilidade para o meu futuro", disse Meirelles ao "Financial Times", no escritório do Banco Central em São Paulo. Qualquer que seja sua escolha, os investidores não parecem perturbados. Mesmo a taxa de 2% sobre os investimentos de portfolio estrangeiro, imposta na semana passada para impedir a valorização da moeda, pareceu improvável de causar mais do que uma pausa no fluxo de capital para o Brasil este ano.

O índice Bovespa caiu nos noticiários mas logo se recuperou, e o real continua a ganhando valor. Ele subiu 36% em relação ao dólar até agora neste ano. O mercado de ações está mais alto do que antes do colapso do Lehman Brothers.

Sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 aumentou a sensação de chegada do Brasil ao palco mundial. Ilustrando o estado de espírito efervescente do país, as vendas de vinho espumante local estão 20% mais altas do que no ano passado. Mesmo assim, os brasileiros não estão tão entusiasmados.

Uma das razões é que o Estado continua a se fazer sentir na economia. As pressões do governo sobre a mineradora Vale, para investir na produção de aço no Brasil alimentou temores de que um Estado mais ativo poderia prejudicar os recentes ganhos em eficiência.

Outras preocupações precisam ser sanadas para que o país atinja seu enorme potencial. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso identifica quatro principais desafios. "O Brasil sofre de uma falta de infraestrutura, má qualidade de ensino, problemas ambientais e criminalidade". Cardoso teme que este último ponto tenha sido enfatizado por conta da violência nas favelas do Rio.

Esse realismo ajuda a explicar por que a autoconfiança dos brasileiros é diferente, não é tão alta quanto a dos outros países do Bric, como a China e a Índia. O otimismo racional, em vez da exuberância irracional, é o que se encontra entre os banqueiros e líderes empresariais de São Paulo.

Ainda assim, "é muito difícil não ser otimista", diz Antonio Quintella, diretor do Credit Suisse no país. "Não estamos numa bolha. Mas há entusiasmo", diz ele.

O Brasil entrou na crise financeira bem preparado e sua recessão subsequente foi curta. Ele está relativamente isolado dos problemas econômicos no resto do mundo. As exportações respondem por menos de 15% da economia. Pouco crédito vem de fora.

Políticas econômicas ortodoxas, que começaram com Fernando Henrique e continuaram no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aumentaram a resistência do país. Medidas como a isenção de impostos sobre carros e bens elétricos ajudaram a manter a economia estável durante a crise financeira.

Enquanto isso, uma década e meia de estabilidade econômica, inflação baixa e programas de bem-estar social cuidadosamente planejados introduziram milhões de pessoas no mercado consumidor. Na sociedade mais desigual do mundo, mais de metade da população é hoje considerada de classe média.

As companhias brasileiras, depois de décadas de incerteza e crises financeiras seqüenciais, têm uma nova primavera à frente. "O Brasil corporativo perdeu muito tempo e esforço se preocupando com a volatilidade econômica e política", diz Luiz Muniz, chefe do banco de investimentos Rothschild para o Brasil. "Agora as pessoas podem se concentrar em administrar e aumentar seus negócios."

A partir de 2004, incitado pela ampla reforma nos mercados de capital do Brasil, as empresas começaram a ganhar confiança. Houve um aumento das emissões de ações que, depois de um hiato durante a crise global, retornou com as maiores ofertas de ações este ano. O banco espanhol Santander levantou US$ 8 bilhões quando abriu 14% do capital de suas operações no Brasil no mercado local e nos EUA.

O investimento estrangeiro aumentou, mas mais companhias brasileiras avançaram para o exterior. A InBev, a maior cervejaria do mundo, é gerenciada e controlada por brasileiros. A Vale, a Petrobrás e a Gerdau são competidores globais em mineração, energia e aço. O frigorífico JBS Friboi é o maior "produtor de proteína" do mundo.

Quanto aos serviços financeiros, a BM&F Bovespa vale mais do que a Bolsa de Valores de Nova York, Nasdaq e London Stock Exchange combinados, enquanto o Itaú Unibanco, com uma capitalização de mercado de US$ 96 bilhões, é o 12º maior banco do mundo. Rumores de que ele pretendia comprar o Morgan Stanley no ano passado ainda fazem brilhar os olhos dos negociadores locais. Com a economia caminhando para um crescimento de pelo menos 4% a 5% no ano que vem, há um sentimento, novo para muitos, de que o Brasil atingiu todos esses sucessos por mérito próprio.

Mesmo assim, poucos brasileiros estão eufóricos. Há incerteza quanto à transição para o próximo governo quando o segundo mandato consecutivo de Lula - o máximo permitido pela constituição - acabar no ano que vem. Dilma Rousseff, sua preferida para a sucessão, é uma tecnocrata dura. José Serra, o possível candidato da oposição, tem uma natureza semelhante. Ambos sofrem de um deficit de carisma. Meirelles concorda que o país enfrenta problemas de infraestrutura e qualificação. Esses são problemas imediatos, mas não esmagadores.

Tradução: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos