Foco no Oriente Médio: Teerã arrisca esticar demais suas negociações nucleares

Roula Khalaf

"Sim no geral, mas não para todos os detalhes", foi a resposta do Irã ao acordo patrocinado pela ONU para seu programa nuclear. Com ele, as potências mundiais esperavam comprar tempo para resolver a questão de forma mais permanente.

A atitude iraniana (que não foi nem uma resposta final e só foi dada após um prazo estabelecido pela Agência Internacional de Energia Atômica) deixou os governos ocidentais bufando e os EUA, que estavam sendo extraordinariamente pacientes, provavelmente mais desapontados que todos.
  • Frank Franklin II/AP

    Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visita a planta nuclerar de Natanz, onde 4.500 centrífugas produzem 80 quilos de urânio enriquecido por mês



O governo Obama, porém, é novato nas negociações com o Irã, e nenhum outro ficou espantado. Mais surpreendente teria sido uma reação positiva, franca e rápida. Neste caso, Teerã enviaria até o final do ano cerca de dois terços de seu urânio pouco enriquecido para ser reprocessado na Rússia e na França e, em troca, receberia combustível para isótopos médicos para tratamento de câncer.

Em vez disso, Teerã diz que quer enviar o urânio enriquecido em estágios, mas ao mesmo tempo pretende importar mais para reforçar seu estoque, o que negaria todo o propósito do pacto, ou seja, de remover o material do país e assim assegurar que não seja enriquecido a níveis adequados para armas nucleares.

Como sabem muito bem os diplomatas europeus, uma vez expostos os termos, o Irã gosta de desfiá-los pelo máximo de tempo possível. Isso ficou claro nas negociações em Viena no mês passado. O único a sair das conversas mais otimista foi o governo Obama, de tão ansioso por um progresso no relacionamento com Teerã.

Houve alguma causa para otimismo. O Irã aceitara o acordo "em princípio", três semanas antes. Mas, na época, o país estava encurralado, tendo sido forçado a revelar que estava construindo uma segunda planta de enriquecimento de urânio, violando as regras da AIEA.

Ao cooperar, Teerã mudou de assunto, tirando o foco da nova planta e das demandas da ONU pela suspensão total das atividades de enriquecimento e voltando-o para um acordo em relação ao combustível.

Desde então, o Irã teve todo interesse em prolongar as negociações. Enquanto isso, surgiram críticos ao acordo no parlamento iraniano, inclusive Ali Larijani, rival do presidente Mahmoud Ahmadienajd.

Essa atitude pode ter sido um reflexo do que queria ouvir o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo. Mas pode também ter sido uma tentativa de minar o enfraquecido Ahmadinejad.

É importante manter em mente que a confusão em torno das eleições presidenciais em junho no Irã ainda está se desenrolando, com um comprometimento da legitimidade de Ahmadinejad, acusado de fraudar as eleições, e do líder supremo que o defendeu. De fato, os oponentes do regime dizem que o presidente está desesperado por um acordo com o Ocidente para reforçar sua própria legitimidade.

Há outros fatores. Os governantes do Irã são obsessivamente paranóicos com o Ocidente. Apesar de cortejarem o apoio russo, suspeitam de Moscou tanto quanto da França - os dois países que forneceriam o novo combustível.

Para o aiatolá Khamenei, correr para fechar um acordo formulado pela ONU teria sido um passo na direção do engajamento com o governo Obama, algo que está pronto para fazer, nem é de seu interesse, segundo dizem. Na semana passada, ele lamentou o desaparecimento de seu lema predileto nos comícios: "Morte aos EUA".

Qualquer que tenha sido a razão pela lenta reação, o Irã está se arriscando perigosamente em seu jogo. Por uma vez está enfrentando uma frente internacional unida, com a Rússia defendendo o acordo da ONU entusiasticamente e pedindo que Teerã o assine. Washington, além disso, foi notavelmente tolerante, mas sua paciência vai acabar.

Se o acordo para o combustível nuclear cair, o foco voltará para as exigências internacionais de total suspensão das atividades de enriquecimento de urânio do Irã. O que os governantes do Irã frequentemente se esquecem é o simples fato que as negociações são acordos comuns - e não imposições iranianas.

Tradução: Deborah Weinberg

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