Wolf: Vitória na Guerra Fria foi um começo, assim como um fim

Martin Wolf

"Uma crise é uma estranha forma de celebrar um aniversário." Este é o julgamento amargo de Eric Berglöf, economista-chefe do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (BERD).* Mas uma crise é o que vemos em países que começaram a sair do comunismo há duas décadas. Logo, terá o capitalismo fracassado, como o comunismo? Em uma palavra, "não". Alguns países em transição estão em crise; a transição não. O mesmo julgamento se aplica em toda parte: os países capitalistas estão em crise; o capitalismo em si, não. Mas uma reforma é necessária. A grande virtude das democracias liberais e das economias de mercado é sua capacidade de reformar e adaptar. Elas já mostraram essas qualidades antes. Elas devem fazê-lo de novo.

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Para aqueles nascidos, como eu, logo depois da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria foi a luta intelectual e política definidora de nosso tempo. Com o colapso do comunismo, acabou uma época de políticas milenaristas catastróficas e a ilusão de uma economia planejada racionalmente. A liberdade oferecida pela democracia e a prosperidade fornecida pelo mercado venceram. Mas o fato do comunismo não ter expirado com uma explosão, mas com lamúria, nós devemos em grande parte a Mikhail Gorbachov.

Mas 2009 foi um ano sério para o qual olhar. Há um ano, o capitalismo saiu da estrada e caiu de um penhasco. Com um vasto esforço, os Estados o recolocaram na estrada. Segundo Piergiorgio Alessandri e Andrew Haldane do Banco da Inglaterra, em um novo estudo soberbo**, o valor total bruto das intervenções em ajuda aos bancos foi de US$ 14 trilhões. Este é um socialismo do Estado.

O que então a crise significa para os países que deixaram o socialismo há duas décadas? O que também significa para o mundo?

Para os primeiros, significa uma grande queda no produto. Segundo o BERD, a queda no produto interno bruto dos países em transição será em média de 6,2% em 2009. Os declínios variarão enormemente: de 18,4% na Lituânia, 16% na Letônia, 14% na Ucrânia e 13,2% na Estônia -números de depressão- a 7,8% na Eslovênia, 6,5% na Hungria, 6% na Eslováquia e 4,3% na República Tcheca. A previsão é de que a economia da Polônia crescerá neste ano, em 1,3%. Em geral, como nota o BERD, "o tamanho da queda do produto está correlacionado aos booms de crédito e endividamento externo pré-crise". O estouro da bolha dói.

Estes colapsos são reais e preocupantes. Mas eles precisam ser colocados em contexto. Primeiro, muitos países em transição experimentaram grandes aumentos do produto após o colapso inicial e altamente inevitável pós-soviético. A Polônia foi a estrela. Em geral, os países bem-sucedidos foram aqueles que realizaram reformas mais sérias. Segundo, talvez de forma surpreendente, os países de transição realizaram poucas reversões das reformas. Como nota o relatório do BERD, "as mudanças de governo desde o início de 2008 levaram a nenhuma mudança em relação às reformas, ou favoreceram os partidos pró-reforma". Isto é consistente com o que está acontecendo com o mundo emergente, de modo mais amplo. A ausência de um modelo econômico alternativo crível é evidente. O aventureirismo populista também não parece atraente.

Enquanto a recuperação começa a ganhar força por toda a economia mundial, os grandes legados do colapso do império soviético - a integração de grande parte da Europa e a concomitante disseminação da liberdade para as fronteiras da Rússia, se não além - permanecem intactas.

Mas a crise traz lições importantes. O filósofo Karl Popper apresentou a abordagem certa. Ele distinguiu a "engenharia social paulatina" visando melhorar males sociais específicos da "engenharia social utópica", que visa transformar a sociedade em seu todo - uma meta que, na prática, "levou apenas ao uso da violência em lugar da razão".

O reformista deve identificar a causa do mal antes de tentar um tratamento. No caso desta crise, o fracasso está nem tanto no sistema de mercado como um todo, mas nos defeitos nos sistemas monetário e financeiro do mundo. Alguns desses fracassos são inescapáveis. O futuro é inerentemente incerto. Grandes erros serão cometidos. Onde os paradigmas predominantes levam a uma tomada de risco em escala excessiva, as correções provavelmente serão brutais. Onde a tomada de risco envolve alavancagem em grande escala nos balancetes do setor financeiro, correções provavelmente significam um colapso tanta da intermediação quanto na economia. Caso o colapso não seja impedido, as consequências podem ser dramáticas, como a história nos diz.

Felizmente, os governos e bancos centrais aprenderam as lições dos anos 30 e decidiram acertadamente impedir colapsos tanto do sistema financeiro ou da economia. Este é precisamente o tipo certo de "engenharia social paulatina". De forma semelhante, grandes esforços foram feitos para resgatar os países atingidos pela crise da Europa Central e Oriental. Assim, o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia foi de entre 4% a 6% do PIB (ou mais) para os quatro países do Leste Europeu que aceitaram os programas do FMI.

Um pragmatismo semelhante deve agora ser demonstrado na conclusão da saída da crise. Isso exigirá um reequilíbrio substancial da demanda global. Também exigirá mais reformas. Para os países em transição, uma reversão da integração financeira provavelmente será onerosa e desnecessária. As principais metas da reforma devem ser, em vez disso, tornar a economia menos vulnerável aos choques e coibir um crescimento de crédito excessivo no futuro.

De forma semelhante, em um nível global, reformas radicais devem ser realizadas no sistema financeiro e monetário. Para colocar de forma direta, o sistema bancário tem apostado com o dinheiro do contribuinte em uma escala intolerável. Isso precisa acabar de uma de duas formas: o setor deve ficar sujeito ao mercado ou deve ficar sob uma tutela altamente regulamentada do Estado. De novo, a coibição das imensas bolhas de crédito deve ser um elemento integral na formação de políticas regulatórias e monetárias. Finalmente, a dependência do sistema monetária global na moeda de uma superpotência excessivamente endividada não é desejável e nem sustentável.

Os aniversários são um bom momento para um olhar crítico. O colapso do comunismo soviético foi um momento glorioso. Ele continua sendo, apesar dos erros e decepções ao longo do caminho. Mas a crise atual nos mostra os fracassos de um capitalismo eufórico. O capitalismo não perecerá, como ocorreu com o comunismo. Mas a principal habilidade da democracia liberal é aprender e se adaptar. Nós aprendemos com os anos 30. Nós agora precisamos aprender as lições dos anos 2000.

*Transition Report 2009, www.ebrd.com/pubs/econo/tr09.htm

**Banking on the State, www.bankofengland.co.uk

Tradução: George El Khouri Andolfato




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