Plano iraniano da casa própria desaponta população

Najmeh Bozorgmehr Em Teerã (Irã)

Kourosh, 37 anos, um motorista de táxi de Teerã, não acredita mais que o governo populista de Mahmoud Ahmadinejad, o presidente iraniano, lhe fornecerá a casa subsidiada que deseja.

Kourosh é casado e o provedor da sua família. Ele não tem nenhuma propriedade e não usou a assistência imobiliária do Estado.

Portanto, ele atende aos requisitos necessários para receber um terreno quase de graça para nele construir uma residência de 70 metros quadrados.

"Me disseram dois anos atrás que eu atendia às condições para participar do plano, e que poderia ter a minha residência pronta agora. Mas a construção sequer teve início", reclama o motorista.

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O programa de casa própria é parte central do relacionamento de Ahmadinejad com membros do seu eleitorado da classe trabalhadora. Ahmadinejad descreve o seu governo como "Mehr-varz" - que significa, literalmente, compassivo - e, dois anos atrás, ele criou os fundos de "mehr" (compaixão) para fornecer ajuda imobiliária e para casamento àqueles que necessitavam.

Entretanto, o Plano de Habitação Mehr revelou-se um fracasso, segundo vários especialistas.

No verão de 2007, o governo criou aquilo que chamou de companhias cooperativas para registrar os candidatos, verificar se estes atendiam os critérios e firmar acordo com empreiteiras encarregadas das obras.

O governo afirma que quatro milhões de pessoas se inscreveram para o plano, mas que apenas cerca de 1,4 milhão atendiam aos requisitos. Até o momento, mais de 130 mil pessoas abandonaram o plano.

Na época Kourosh depositou 10 milhões de riyals (US$ 1.010 ou R$ 1.730) na conta do governo, e deveria receber o equivalente a mais de US$ 14 mil (R$ 24 mil) em empréstimos. Ele deveria gastar cerca de US$ 4.000 (R$ 6.900) da sua própria poupança durante a construção.

As autoridades admitem que o plano não foi um sucesso, especialmente nas grandes cidades. Elas culpam as companhias cooperativas pelo fato de que apenas 40 mil casas foram construídas e responsabilizam o Ministério da Habitação pelo problema.

As companhias cooperativas, muitas delas com centenas de inscritos, estão agora estabelecendo um limite máximo de cinco membros. Não foram divulgados números relativos ao valor total investido nelas.

Especialistas no setor habitacional dizem que o plano apresenta várias brechas. Uma delas é um mecanismo de fiscalização precário que fez com que a classe média, e não a classe mais pobre, se inscrevesse. Uma outra é a ausência de conhecimento legal e técnico, o que gerou suspeitas quanto a fraudes generalizadas.

Mas o mais grave é que os terrenos reservados para o projeto situam-se frequentemente na periferia das cidades, em áreas que carecem de serviços e infraestrutura.

"A ausência de água e luz nesses terrenos não só representa problemas práticos para que as pessoas morem neles, mas também retira do projeto qualquer atrativo de longo prazo", explica Kamal Athari, um especialistado setor habitacional.

A residência de Kourosh deveria ficar em Parand, uma nova cidade 70 quilômetros a sudoeste de Teerã. "Eu nunca pretendi morar lá porque o lugar fica muito longe de Teerã, mas esperava alugar a casa", diz ele.

O setor imobiliário é um dos três principais propulsores da economia iraniana, estimulando outros setores e gerando cerca de 17% dos empregos do país.

Este é uma das áreas mais atraentes para o setor privado do Irã, porque as outras partes da economia são dominadas pelo governo.

Investimentos do setor privado têm fluído para os projetos imobiliários nas últimas duas décadas, provocando aumento dos preços, algo que Ahmadinejad prometeu coibir.

"O governo acredita que os preços das residências e dos terrenos não devem aumentar", afirma Ali Nikzad, o ministro da Habitação. Nikzad deseja que a construção de residências no âmbito do plano Mehr funcione como um propulsor de outros setores da economia.

"A nova política lembra um carro quebrado - você decide desmontá-lo em vez de consertá-lo", acrescenta Athari. "Na melhor das hipóteses, o Plano de Habitação Mehr poderá ser transformado em um plano de terrenos Mehr, segundo o qual terrenos inúteis seriam distribuídos segundo termos
de contrato nada atraentes."

Após um ano de estagnação, os preços dos imóveis começaram a subir após um período em que o consumidor apenas observou o mercado.

Segundo o banco central do país, a emissão de licenças para a construção de moradias diminuiu 36,8% durante os três primeiros meses deste ano iraniano, que teve início em 20 de março, em relação ao mesmo período do ano passado. O município de Teerã teve um declínio de 62% das construções durante a primeira metade deste ano.

Muitos iranianos estão nervosos diante da possibilidade de que o setor imobiliário seja afetado por um plano governamental para cortar bilhões de ryals em subsídios de produtos básicos, o que provocou o aumento das expectativas inflacionárias.

"O plano de habitação Mehr era, no início, uma arma descarregada que provocava medo, mas agora que esta arma está engatilhada e todos sabem que ela encontra-se descarregada, o setor imobiliário poderá sair da estagnação", afirma Athari.

Kourosh é um dos que pensa em se retirar do programa. "A minha esperança de conseguir uma residência por este plano é zero. Tenho que retirar o meu depósito e pensar em construir uma pequena moradia em alguma região que fique dentro de Teerã", diz Kourosh.

Tradução: UOL

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