Nações preocupadas tentam esfriar dinheiro quente

Alan Beattie, Kevin Brown, Peter Garnham, Jonathan Wheatley e Song Jung-a

Vários países estão se mobilizando para impor controles de capital com o objetivo de conter os fluxos financeiros especulativos de curto prazo que fazem com que as suas moedas se valorizem, em meio a temores quanto ao crescimento de uma bolha de ativos dos mercados emergentes.
  • Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

    No Brasil, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, optou por taxar os ativos financeiros estrangeiros



Ontem (19), o Brasil, que surpreendeu os mercados um mês atrás ao impor uma taxa de 2% sobre a entrada de dinheiro vinculado a ativos financeiros, anunciou que tornará essas restrições ainda mais rigorosas. O Ministério da Fazenda impôs uma nova taxa de 1,5% sobre a emissão de DRs (depósitos de valores mobiliários), ativos que permitem às companhias brasileiras oferecer títulos sobre câmbio.

A medida é tomada em meio a uma série de mudanças diversas de políticas financeiras por parte dos mercados emergentes, com o objetivo de reduzir a entrada de capital estrangeiro, e a comentários das autoridades públicas referentes a medidas para controle de capital. Economistas afirmam que embora a maioria das medidas seja modesta, elas revelam os desafios que muitos mercados emergentes estão enfrentando ao tentarem evitar ao mesmo tempo a rápida valorização das suas moedas em relação ao dólar e a inflação de bolhas de ativos.

"Este é um dilema de política econômica comum a vários países", explica Gerard Lyons, economista do banco Standard Chartered. "Tudo isto remete ao CNY (o yuan chinês)".

Como o valor do yuan está atrelado ao do dólar, apesar das súplicas de Washington para que os chineses permitam que o valor da sua moeda flutue, as moedas dos mercados emergentes que se valorizam em relação ao dólar também sofrem valorização em relação à moeda chinesa, o que torna as suas companhias menos competitivas do que as fábricas de baixo custo da China. Na semana passada Taiwan impôs restrições sobre a aplicação em depósitos a prazo por parte de investidores estrangeiros. Os mercados financeiros estão em alerta, esperando para ver se outros países seguirão o exemplo do Brasil e de Taiwan.

"Medidas recentes tomadas por Brasil e Taiwan para a contenção da entrada de capital constituem-se em um sinal claro: os governos dos mercados emergentes não estão dispostos a aceitar a realocação contínua de carteiras de títulos de capital dos países desenvolvidos, e as suas implicações em termos de liquidez e câmbio", afirma David Bloom, do HSBC.
  • AFP PHOTO/Stan HONDA

    Países emergentes querem impor controles de capital para conter os fluxos especulativos

Ontem, um número significativo de moedas asiáticas desvalorizou-se em relação ao dólar depois que autoridades graduadas na Índia, Indonésia e Tailândia manifestaram-se publicamente a respeito da possibilidade de intervenção para restringir os fluxos de dinheiro quente (capital fluido de rápida movimentação) em busca de rendimentos elevados.

A rupia indonésia sofreu a sua maior queda desde fevereiro, apesar das tentativas oficiais de minimizar a afirmação de Hartadi Sarwono, o vice-diretor do Bank Indonesia, de que o banco estaria "estudando"
restrições às aquisições estrangeiras de dívidas bancárias de curto prazo. A rupia caiu pelo quarto dia seguido, na maior sequência negativa consecutiva desde abril, depois que Darmin Nasution, o vice-presidente da instituição, disse que o banco estava estudando "seriamente" tais medidas de controle, mas que não tinha planos para implementá-las.

Na Índia, Ashok Chawla, o secretário das Finanças, disse que o governo poderia tomar medidas para reduzir o fluxo de capital caso a entrada de investimentos estrangeiros disparasse, devido aos temores dos exportadores de que uma moeda mais forte reduzisse a competitividade internacional.

Em Bancoc, Tarisa Watanagase, o presidente do banco central tailandês, disse que o banco "entraria em cena para proteger o baht quando fosse preciso". As palavras dele foram interpretadas como prelúdio de intervenção. Os jornais locais disseram que o banco está cogitando aplicar medidas de controle de capital.

Cobertura completa da crise

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Tarisa afirmou que não há necessidade de medidas de controle de capital porque o baht está se comportando de forma similar às outras moedas regionais.

Enquanto isso, a Coreia do Sul anunciou que tornará mais estrito o controle sobre a liquidez de moeda estrangeira nos bancos locais para torná-los menos vulneráveis à fuga de capitais. A Comissão Supervisora Financeira afirmou ontem que limitará negócios de compras futuras com exportadores para prevenir uma repetição do colapso de liquidez ocorrido no ano passado, no auge da crise financeira.

Os controles de capital contam com uma reputação mista nos mercados emergentes asiáticos. A surpreendente imposição de restrições pela Malásia em 1998 durante a crise financeira asiática foi apontada por alguns especialistas como o fator que fez com que o país ficasse relativamente imune à crise. Mas os controles impostos pela Tailândia em 2006, durante uma crise política, provocaram a maior queda já registrada em um só dia no mercado de ações tailandês.

Tradução: UOL

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