O espião e diplomata norte-americano admirado em Pequim

Jurek Martin

Jim Lilley foi o típico "norte-americano na China". Ele nasceu lá, falava a língua fluentemente desde a infância, espionou contra a China para a CIA e afinal se tornou embaixador norte-americano em Pequim na época dos massacres na Praça Tiananmen, em 1989.

Talvez sua maior realização diplomática tenha sido a alta consideração em que era tido pelo governo chinês e por seu adversário Taiwan - ele continua sendo o único norte-americano que serviu como chefe de missões dos EUA nos dois países.

Depois de Tiananmen, do qual foi extremamente crítico, ele fez lobby junto a seu velho amigo e ex-colega da CIA, o presidente George H.W. Bush, para moderar as reações norte-americanas.

No início da década de 1980, quando dirigia o Instituto Americano em Taiwan, que era a embaixada de fato, Lilley pediu com sucesso ao governo Reagan, do qual Bush era vice-presidente, que resistisse à pressão chinesa para cortar todas as vendas de armas para a ilha-nação e, ao invés disso, implementar uma redução gradual.

Sua relação com Bush ajudou muito sua carreira. Ele foi chefe de "estação" da CIA em Pequim quando Bush chefiou a missão de 1974 a 76, e depois foi indicado para ser diretor geral da agência. Sempre teve uma linha direta com o futuro presidente e não hesitou em usá-la.

James Roderick Lilley nasceu em 1928 na cidade costeira de Qingdao, conhecida por sua cervejaria dirigida por alemães. Seu pai vendia querosene em um barco de junco no rio Yangtze para a Standard Oil e sua mãe era professora. A família, incluindo seu irmão mais velho, Frank, vivia confortavelmente na comunidade internacional e os dois meninos, cuidados por uma babá chinesa, foram bilíngues em mandarim e em inglês desde muito cedo. Ele se lembrou carinhosamente de que brincou com um jovem soldado da ocupação japonesa, uma experiência semelhante às lembradas pelo autor britânico J.G. Ballard em seu "Império do Sol", passado em Xangai.

A família voltou para os EUA em 1940 e Jim seguiu com seu irmão para Yale, enquanto também servia durante um ano no exército norte-americano no fim da Segunda Guerra Mundial, e mais tarde obteve um mestrado da Universidade George Washington.

Frank, porém, cometeu suicídio perto de Hiroshima, no Japão, em 1946, um acontecimento marcante para Jim. Como ele escreveu em sua memória de 2004, "China Hands", Frank era "um sonhador, pacifista e filósofo".

"Eu me desenvolvi de modo diferente, evitando o romantismo e o excesso de emoção, e era inclinado a lidar com os fatos e forças conforme se apresentavam. Eu achava importante ficar longe das desilusões", escreveu.

Essas convicções o levaram naturalmente para a CIA em 1951, enquanto corria a guerra da Coreia, como um "soldado raso nas iniciativas secretas dos EUA para impedir que a Ásia fosse dominada pela China comunista". Durante mais de 20 anos ele dirigiu agentes, instruiu viajantes e operou pessoalmente em toda a Ásia, culminando na direção da "guerra secreta" da CIA no Laos quando o conflito no Vietnã azedou.

Sua primeira embaixada formal, de 1986 a 89, foi na Coreia do Sul, sem dúvida uma cortesia do vice-presidente Bush. O país estava em um turbilhão na oposição ao regime autoritário do presidente Chun Doo-hwan, que tinha tomado o poder em um golpe em 1979. Havia ocorrido um massacre de estudantes em protesto em Kwangju, o líder de oposição Kim Dae-jung tinha sido preso e Chun, que era admirado pelo presidente Ronald Reagan, estava considerando impor a lei marcial.

O novo embaixador tomou a medida incomum e polêmica de cair nos favores de Chun, ao contrário de outros diplomatas estrangeiros. Isso lhe deu a força de que precisava para entregar mensagens de Washington, que havia ajudado a cunhar, advertindo que os EUA não apoiariam uma nova repressão. O resultado foram as primeiras eleições democráticas na Coreia do Sul em 16 anos, e a recompensa de Lilley foi Pequim.

Desde o início ele gostava de se locomover pela capital chinesa de bicicleta, na época o meio de transporte universal, e conseguia conversar com razoável liberdade com aqueles que encontrava. Ele sentiu que o problema estava fermentando, mas foi incapaz de impedir o que aconteceu em 4 de junho de 1989. Lilley não teve problemas para imediatamente dar nome aos bois, usando a palavra "massacre" quando seu próprio governo relutou em usá-la por medo de ofender o governo chinês.

Lilley também foi além do verbal, embora seus despachos francos de Pequim fossem muitas vezes enviados diretamente para o presidente Bush. Durante um ano ele abrigou o importante físico dissidente Fang Lizhi em sua embaixada, até que ele conseguiu autorização para deixar a China. Lilley criticou até James Baker, o secretário de Estado, por um "feio erro de cálculo" ao permitir que navios de guerra norte-americanos fizessem uma visita de cortesia a Xangai um mês antes de Tiananmen, porque isso pode ter dado a impressão à liderança chinesa de que os EUA não objetariam a qualquer repressão ao crescente movimento dissidente.

Mas depois disso ele trabalhou principalmente para manter as conexões Pequim-Washington o mais estáveis possível, o que não foi fácil diante da indignação manifestada nos EUA e em todo o mundo. Ele arranjou visitas discretas de autoridades norte-americanas a Pequim para oferecer garantias de que os EUA ainda valorizavam seu relacionamento com a China. Quando deixou o país, em 1991, suas festas de despedida foram frequentadas por multidões, um testamento da estima que lhe dedicavam.

Posteriormente, de volta a Washington, trabalhou em uma empresa de consultoria sobre a China, participou de um grupo de pensadores, fez palestras públicas e em universidades norte-americanas e escreveu suas memórias com seu filho. Ele morreu na semana passada e deixa sua esposa de 55 anos, Sally Booth, e três filhos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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