Um ano após ataques em Mumbai, medo de que tensão entre Paquistão e Índia retorne

Amy Kazmin

David C. Headley deixava uma forte impressão sempre que passava pela Índia a negócios. O filho de 49 anos de um diplomata paquistanês e de uma socialite americana realizou negócios com a elite e se misturou à alta sociedade em nove visitas nos últimos três anos, ostensivamente quando trabalhava como consultor de imigração. Mas agora as agências de segurança indianas estão investigando se Headley, preso no mês passado nos Estados Unidos sob suspeita de tramar um ataque terrorista em Copenhague -era na verdade um agente sofisticado que realizou o reconhecimento para o audacioso ataque terrorista contra Mumbai, há um ano.

Índia recorda com dor os atentados em Mumbai; vítimas tentam retomar rotina

Os ataques visaram dois hotéis de luxo, a estação central de trem e um pequeno centro judeu, matando 166 pessoas. Nova Déli culpou o Lashkar-e-Taiba (LeT), um grupo paquistanês criado inicialmente para combater as forças indianas na província himalaica disputada da Caxemira. O ataque ocorreu após uma onda nacional de atentados a bomba que durou seis meses, matando pelo menos 131 pessoas e ferindo outras centenas em algumas das cidades economicamente mais significativas da Índia, incluindo Jaipur, Ahmedabad e Nova Déli.

No ano que se passou desde a carnificina, a Índia foi poupada de grandes ataques terroristas em seu solo. Os grupos militantes voltaram sua atenção para o coração do Paquistão, que foi sacudido por uma série de atentados a bomba devastadores, em retaliação à ofensiva de Islamabad contra os simpatizantes do Taleban e outros grupos radicais.

Todavia, a prisão de Headley -e a inteligência revelada pelas autoridades sobre suas atividades suspeitas- é um lembrete da ameaça que a Índia ainda enfrenta de grupos militantes paquistaneses sofisticados. A rede global LeT, por exemplo, nega a alegação de Islamabad de ter minado sua capacidade operacional. "Isso demonstra uma ansiedade que está na mente da segurança indiana há algum tempo, sobre simpatizantes do LeT que possam estar viajando com passaportes de outros países", disse um diplomata ocidental em Nova Déli. "Isso acrescenta toda uma nova dimensão à tarefa já difícil de combate ao terrorismo pela Índia."

A Índia há muito atribui o terrorismo em seu solo a grupos militantes baseados no Paquistão e protegidos por este país -com o qual já travou três guerras pela Caxemira, dividida entre os vizinhos nucleares e reivindicada por ambos. Nos anos 90, a violência ficava em grande parte confinada à província, com militantes estrangeiros lutando ao lado dos separatistas descontentes. Islamabad sempre negou ter fornecido apoio militar aos insurgentes, dizendo que eles só recebiam "apoio moral".

Mas à medida que a luta armada diminuiu ali, o terror se espalhou pelo coração da Índia. Hyderabab, um centro de software no sul da Índia, foi atacado em 2007, quando duas bombas mataram mais de 40 pessoas. Mumbai, a capital financeira, já tinha sido atacada antes do ano passado, em julho de 2006, quando sete bombas em trens locais e em estações mataram mais de 180.

A Índia conseguiu provas de uma mão paquistanesa nos ataques do ano passado, ao capturar um dos 10 terroristas -Mohammad Ajmal Kasab, um operário paquistanês que abandonou o colégio. Sua confissão, detalhando seu treinamento em campos paquistaneses e inteligência adicional a respeito dos ataques, provocou pressão intensa de Washington sobre Islamabad para repressão ao LeT. O Paquistão prendeu sete membros do grupo e nesta semana os indiciou criminalmente por envolvimento na trama. A organização diz que os homens são inocentes, mas alguns membros também disseram privativamente que se reservam o direito de atacar a Índia.

Mas apesar do interlúdio pacífico da Índia, diplomatas ocidentas e especialistas em segurança indianos alertam que o risco de outro ataque -com seu potencial de provocar hostilidades com Islamabad- é alto. Segundo um diplomata, militantes paquistaneses sob pressão das forças armadas agora têm um forte incentivo para instigar uma escalada das tensões entre Islamabad e Nova Déli. "Se puderem provocar uma resposta indiana -e gerar uma tensão entre a Índia e o Paquistão- a atenção dos paquistaneses seria desviada."

B. Raman, um ex-chefe da divisão de contraterrorismo da RAW, a agência de inteligência da Índia, disse que a infraestrutura principal do LeT continua intacta. "No que se refere ao santuário, aos campos de treinamento, não foi realizada nenhuma ação (pelo Paquistão)", ele disse. "Eles estão agindo apenas contra aqueles que são identificados pela comunidade de inteligência ocidental."

Manmohan Singh, o primeiro-ministro da Índia, foi elogiado nas capitais ocidentais pela sua resposta moderada aos ataques contra Mumbai no ano passado, em meio ao clamor popular por retaliação contra o LeT. Mas analistas políticos dizem que será quase impossível para Nova Déli resistir a uma pressão por ação militar em caso de um novo ataque em escala semelhante. "Esta é a mensagem que os americanos transmitiram a Islamabad: 'Nós conseguimos impedir os indianos de reagirem, mas não conte conosco da próxima vez'", disse o professor Brahma Chellaney, do Centro para Pesquisa de Políticas com sede em Nova Déli.

A vulnerabilidade da Índia a outro ataque foi acentuada pela investigação de Headley. Um cidadão americano, ele foi acusado nos Estados Unidos de ligação com o que o FBI alega serem duas viagens de reconhecimento que fez a Copenhague em 2009, para estabelecer a base para ataques terroristas contra o "Jyllands-Posten", o jornal que publicou as charges do Profeta Maomé em 2005.

Headley, cujo nome de batismo é Daood Gilani e, segundo seu indiciamento pelo FBI, mudou de nome em 2006 para facilitar suas viagens internacionais, foi educado em uma academia militar paquistanesa de elite até 1977, quando se mudou para a Filadélfia para se juntar à sua mãe, que era dona de um bar local. Seu choque cultural, após sua rígida criação muçulmana, foi noticiada na época pelo "The Philadelphia Inquirer", apesar dele posteriormente ter dirigido o bar por cerca de um ano.

Ele foi preso em Chicago em 3 de outubro, enquanto se preparava para pegar um voo na Filadélfia a caminho do Paquistão. Segundo o indiciamento junto ao tribunal distrital federal, ele reconheceu para as autoridades que tinha sido treinado pelo LeT e que tinha trabalhado para o grupo por vários anos. O grupo negou qualquer ligação com ele. Ele também teria reconhecido ter trabalhado como Ilyas Kashmiri, o líder do grupo terrorista paquistanês Harkat ul-Jihad al-Islami, que as autoridades americanas acreditam ter ligação com a Al Qaeda.

As autoridades indianas estão investigando as nove viagens de Headley à Índia, quando ele visitou cidades importantes como Mumbai, Pune e Ahmedabad, ficou hospedado em hotéis de luxo, visitou academias e ashrams frequentados por estrangeiros e andou com atores de Bollywood. Entre as perguntas delas está se ele é o elo perdido entre o ataque a Mumbai -um batedor que apresentou levantamentos detalhados. Elas também estão investigando se ele pode ter ajudado a planejar alguns dos atentados anteriores.

O FBI também afirma que os e-mails interceptados em julho e agosto deste ano sugerem que o LeT queria enviar Headley de volta à Índia, possivelmente em preparação para um novo ataque. No tribunal, os promotores americanos alegaram que ele e Tahawwur Hussain Rana, um paquistanês-canadense também preso nos Estados Unidos, discutiam um possível ataque contra o Colégio de Defesa Nacional de Nova Déli, apesar de poucos detalhes terem vindo à tona. A sugestão de que altos membros do LeT estavam recentemente tramando ataques contra a Índia aumentará a pressão para uma maior repressão pelo Paquistão.

A Índia ainda exige que Hafiz Saeed, o ex-professor universitário que fundou o LeT e é conhecido por seus laços com a inteligência paquistanesa, seja processado. Saeed foi preso logo após os ataques em Mumbai, mas foi solto em junho após um tribunal ter considerado sua detenção com sendo inconstitucional. Ele nega qualquer papel no planejamento do ataque.

"Não houve nenhuma ação contra esses grupos", disse Ajay Sahni, do Instituto para Gestão de Conflito, com sede em Nova Déli. "Mesmo pessoas sob prisão domiciliar nominal têm facilidade em dirigir suas organizações. Elas não enfrentam qualquer tipo de restrição operacional."

Mas analistas paquistaneses como Hasan-Askari Rizvi apontam as restrições a uma ação contra grupos como o LeT. "Realisticamente, não se pode esperar que o Paquistão seja visto como publicamente cedendo à pressão da Índia", ele diz. "A direita buscará uma reação popular caso ocorra uma reação mais dura."

Ainda assim, a investigação das atividades de Headley na Índia, que deverá levar mais um mês, no mínimo, poderá produzir abundância de inteligência -incluindo a possível identificação de mais de seus contatos paquistaneses e de indianos suspeitos de apoiar atividades terroristas. As autoridades paquistanesas prenderam nesta semana um major do exército aposentado, suspeito de ligação com Headley e Rana. "O resultado desta investigação poderá ser tranquilizador", disse um diplomata baseado em Nova Déli, "caso leve ao desbaratamento da ameaça".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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