Apelo por clemência de financistas não afasta nuvens de bônus

Gillian Tett

Chega de pancadas. Essa foi a mensagem central de um relatório de 220 páginas do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), em Washington, na quarta-feira.

Enquanto os banqueiros britânicos cambaleiam devido aos novos impostos pesados sobre bônus e os políticos em Washington debatem uma nova rodada de controles regulatórios, o IIF está contra-atacando freneticamente ao apresentar uma lista que parece visar subjugar (ou entediar) seus oponentes até a submissão.

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Em detalhes exaustivos, o relatório de quarta-feira descreve tudo o que o setor bancário global fez "voluntariamente" para limpar sua imagem no ano passado. Apesar dos detalhes serem complexos, a moral era clara: se os políticos nacionais parassem de interferir erraticamente, o setor financeiro voltaria a um estado saudável -para o bem de todos os interessados.

Esse apelo político funcionará? Eu duvido. Se algum não-banqueiro tiver apetite para analisar o relatório do IIF - e seus infinitos apêndices - ele certamente encontraria um bocado de ideias sensíveis e notícias encorajadoras. As seções sobre sistemas de gestão de risco e liquidez, por exemplo, incluem detalhes louváveis e bem-vindos (apesar de muitos terem chegado dois anos tarde demais).

Mas a grande turbulência política, tanto no Reino Unido quanto em outros lugares, é a remuneração. Na quarta-feira, Josef Ackermann, presidente do Deutsche Bank, apelou aos banqueiros para que demonstrassem moderação em relação à atual rodada de bônus, notando que "seria útil para todos nós reconhecer que o recente aumento da lucratividade em muitas firmas se deve, em parte, ao apoio excepcional dos governos e bancos centrais".

Ele provavelmente é sincero. Afinal, Ackermann comentava frequentemente com amigos nos últimos anos que considerava bizarro o fato de seu irmão (um médico suíço) ganhar muito menos do que banqueiros (como o próprio Ackermann).

Mas Ackermann também comentou por anos que seria suicídio corporativo para qualquer banco pagar aos seus altos funcionários menos do que seus concorrentes. E nem mesmo o IIF parece acreditar que apenas moderação poderá resolver o problema: seu relatório de quarta-feira também pede por diretrizes elaboradas globalmente, de forma coordenada e criteriosa.

Mas, em uma peça de teatro político -ou ironia- que seria difícil de inventar, o apelo foi feito ao mesmo tempo em que os britânicos anunciavam seu imposto unilateral sobre bônus. E isso dificilmente será o fim da controvérsia.

Afinal, nas próximas semanas, detalhes da rodada de bônus deste ano inevitavelmente vazarão. Mais notícias virão a respeito de futuros cortes nas finanças públicas, ecoando o que Alistair Darling, o ministro britânico das Finanças, disse ao Parlamento na quarta-feira.

E se essa combinação já não fosse ruim o bastante, nos próximos meses o G20 emitirá uma avaliação do progresso conseguido ou não pelos seus membros na implantação dos compromissos conjuntos de coibição das remunerações.

Alguns banqueiros esperam que esta iniciativa do G20 seja apenas uma tolice retórica, ou algo que grupos como o IIF ajudarão a moldar. Daí o pedido do IIF, na quarta-feira, para medidas "coordenadas" a respeito da remuneração - em vez da ação unilateral anunciada pelos britânicos.

Mas o relatório de remuneração do G20 poderá se mostrar ainda mais vigoroso e controverso do que parece no momento. Afinal, aqueles que comandam o projeto sabem que o relatório será o primeiro teste sobre se o G20 será capaz de produzir reformas tangíveis, pós-crise, e isso será suficiente para colocar o assunto do bônus de volta ao noticiário.

Logo, o IIF está diante de um grande desafio. Talvez 2010 prove ser um ano em que os políticos se tornarão tão impopulares que o público ficará distraído o suficiente para parar de atacar os banqueiros. Afinal, será um ano de cortes no orçamento e eleições.

Mas em um mundo onde os banqueiros continuam sendo alvos e uma distração conveniente, os políticos sem dúvida continuarão tentando transferir o foco, como Darling fez na quarta-feira.

Enquanto isso, eu suspeito que o relatório valoroso de 220 páginas do IIF parece mais destinado a se tornar um peso de papel do que uma arma política. Talvez seja hora do IIF - ou qualquer financista disposto a defender uma posição - aprender a dominar a arte do Twitter.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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