Como repartir as perdas: a triste escolha diante do Reino Unido

Martin Wolf

O Reino Unido está mais pobre do que pensava que estava. Este é o fato mais importante a respeito da crise. A disputa em torno da distribuição das perdas será brutal. E ficará ainda mais pelo segundo fato mais importante sobre a crise: ela teve um efeito imenso sobre as finanças públicas. Não há déficits semelhantes em tempos de paz.

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Felizmente, a eleição geral parece oferecer uma oportunidade de ouro para um debate. Não é essa a discussão que o país precisa? Sim. É a discussão que o país promoverá? Não. O que o governo faria se fosse reeleito permanece, mesmo após o relatório pré-orçamento, "um enigma dentro de um segredo envolto em mistério", como Churchill disse sobre a Rússia de Stalin.

Segundo as atuais previsões do Tesouro, a economia recuperará os níveis de atividade econômica de 2008 em 2012. Quatro anos de crescimento esperado terão desaparecido. No relatório pré-orçamento da semana passada, o Tesouro previu um crescimento de 1,25% no próximo ano, 3,5% em 2011 e 2012, então 3,25% em 2013 e 2014.

Suponha que o crescimento permaneça em 3,25% daí em diante. Apenas em 2031 a economia voltaria a ser tão grande quanto se a tendência de 1998-2007 tivesse continuado. A perda acumulada do produto seria de 160% do produto interno bruto de 2007. Se o crescimento após 2014 for na taxa da tendência pré-2008, o PIB perdido seria quase três vezes o PIB de 2007 em 2030. É fácil imaginar possibilidades piores.

Essas perdas no produto tiveram um impacto severo nas finanças públicas. De fato, a deterioração fiscal no Reino Unido foi muito maior do que em qualquer outro membro do Grupo dos 7 países mais ricos.

A explicação mais próxima é o colapso da receita do governo. Entre o orçamento de 2008 e o relatório pré-orçamento de 2009, a previsão do total de gastos para este ano financeiro aumentou em apenas 4,4%. A previsão do PIB nominal de fato caiu em 9,1%. Mas a previsão de receita sofreu um colapso de 18,1%.

Mas a recessão no Reino Unido não foi mais severa do que em outros países de alta renda. Como Alistair Darling, o ministro das Finanças, notou em seu discurso sobre o relatório pré-orçamento, a retração cumulativa nesta recessão, até o terceiro trimestre de 2009, é de 3,2% nos Estados Unidos, 5,6% na Alemanha, 5,9% na Itália, 7,7% no Japão e apenas 4,75% no Reino Unido. O motivo para este declínio não particularmente dramático no produto, dentro dos padrões desta "Grande Recessão", ter tido um impacto excepcionalmente grande na receita é que, no Reino Unido, o setor financeiro exercia um papel imenso no apoio ao consumo, transações de imóveis e lucros corporativos.

Não menos do que um quarto da receita de impostos de pessoas jurídicas vinha apenas do setor financeiro. A arrecadação dos impostos de pessoas jurídicas caiu 26% entre os 12 meses até outubro de 2008 e os 12 meses até outubro de 2009. A arrecadação do imposto de valor agregado caiu 17% ao longo do mesmo período. Além e acima do efeito geral da recessão, isso é resultado da vulnerabilidade da economia britânica ao distúrbio no crédito e colapso nos lucros das empresas do setor financeiro.

O que isso implica para o futuro do Reino Unido? Uma boa forma de pensar neste assunto é no Reino Unido não apenas sofrendo uma crise financeira, com o impacto severo habitual sobre o produto e as finanças públicas, mas sim do Reino Unido como também sendo uma economia de "monocultura", com o setor financeiro atuando como a "cultura".

Os países que dependem excessivamente da produção e exportação de commodities cujos mercados são voláteis estão familiarizados com os ciclos que eles podem criar. Nos booms, a receita das exportações e a receita do governo são fartas, a taxa de câmbio real valoriza e os produtores marginais de bens e serviços exportáveis são pressionados -um destino às vezes conhecido como "mal holandês", devido ao impacto que as descobertas de gás natural tiveram sobre sobre a economia da Holanda. Frequentemente, tanto o governo quanto o setor privado tomam empréstimos em peso nestes bons tempos. Então vem o crash: as exportações e a receita do governo sofrem um colapso, o déficit fiscal explode, a moeda desvaloriza e, frequentemente, a inflação aumenta e o governo se torna inadimplente.

O maior erro que alguém pode cometer em macroeconomia é confundir ciclo com tendência. Nas economias com monocultura, o risco é particularmente grande, porque os ciclos podem ser muito grandes. Este, olhando para trás, é o erro cometido pelo Reino Unido. Logo, o Tesouro decidiu que o produto potencial do Reino Unido repentinamente caiu em 5% durante a crise. Isso é tolice, como Robert Chote, diretor do Instituto para Estudos Fiscais, sugeriu. O que o Tesouro costumava considerar como produto sustentável era, na verdade, o produto da bolha na monocultura do setor financeiro britânico, espalhado, direta e indiretamente, para a economia e para as finanças públicas.

Se esse ponto de vista estiver certo, ele tem três implicações dolorosas: primeiro, a política fiscal medida apropriadamente foi bem mais frouxa do que se imaginava durante grande parte do período de Gordon Brown como ministro das Finanças; segundo, é provável que o Reino Unido sofrerá não apenas uma perda permanente de produto, mas também um declínio permanente na tendência da taxa de crescimento econômico; e, terceiro, um imenso arrocho fiscal não poderá ser evitado.

No momento, o governo prevê um arrocho fiscal estrutural de 5,4% do PIB ao longo de dois mandatos parlamentares, grande parte dele não especificado. Ele agora espera que um terço disso será obtido por meio de impostos mais altos e dois terços por meio em cortes de gastos. Para tornar isso crível, ele prevê um plano de consolidação fiscal que seria, de alguma forma incompreensível, legalmente vinculante.

Um ministro das Finanças inadimplente seria levado à Torre de Londres? Mas o problema com os planos não é apenas raramente serem críveis, mas também que o arrocho previsto provavelmente é pequeno demais e o nível final da dívida líquida do setor público, em cerca de 60% do PIB, alto demais para propiciar tranquilidade, dada a probabilidade de novos choques adversos. Mesmo assim, os cortes nos gastos são maiores do que em episódios semelhantes no período pós-guerra.

Apesar do ministro das Finanças ter apresentado números gerais, ele evitou explorar as implicações plenas e, ainda mais, a natureza das escolhas enfrentadas pelo país. Este é o debate que o Reino Unido precisa ter. Ele deve começar com um entendimento: o país está mais pobre do que pensava. Então como essas perdas devem ser compartilhadas de forma a minimizar tanto os danos às pessoas mais vulneráveis, agora, quanto às perspectivas econômicas do país a longo prazo? Essas são grandes perguntas na política britânica. Políticos sérios não deveriam se esquivar delas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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