O poder da hora

Clive Cookson

Embora os líderes mundiais há muito procurem obter vantagens econômicas e políticas por meio da manipulação da hora, os cientistas alertam cada vez mais para o custo de alterar os relógios

Manipular o tempo é uma iniciativa política ousada. Em 1793, a França revolucionária impôs um sistema decimal, no qual o dia era dividido em dez horas de cem minutos cada. Isso durou apenas 12 anos, até Napoleão Bonaparte reinstituir o sistema tradicional de 24 horas de 60 minutos, que teve origem no Egito e na Babilônia da antiguidade.

Em 1949, Mao Tsetung substituiu as cinco zonas horária da China por apenas uma como símbolo do forte controle central sob o comunismo. O sistema persistiu, mas ele provocaria problemas para os habitantes do oeste do país, que passariam a maioria das manhãs do inverno na escuridão, caso seguissem o horário oficial.

A última grande ideia para modificação de horário veio de Dmitry Medvedev, o presidente da Rússia, que no mês passado propôs substituir os 11 fusos horários do país por apenas quatro, em nome da eficiência econômica.

A medida de Medvedev mostra como, hoje mais do que nunca, tempo é dinheiro. A diferença entre a capital do país e o extremo leste da Rússia é vista como um empecilho à eficiência daquela economia emergente. Os escritórios em Vladivostok só estão abertos, na melhor das hipóteses, durante as duas primeiras horas de trabalho na capital.

Já para o antigo Kremlin, as 11 zonas horárias eram um motivo de orgulho, já que elas demonstravam a vastidão imensa do poderio soviético. Os moscovitas mais velhos, por exemplo, recordam-se com saudade da programação de rádio feita após a escola, às 15h, que anunciava a hora em todas as regiões da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e que terminava com: "Petropavlovsk, Kamchatka, meia-noite".

As vantagens econômicas de uma localização temporal conveniente há muito são reconhecidas. Durante mais de um século Londres tirou proveito da sua posição de ponte temporal; o dia de trabalho da cidade sobrepunha-se ao de outros centros financeiros na América e na Ásia.

Mas a mudança na Rússia, conforme foi proposta por Medvedev, não será fácil. "Este é um país enorme, e isso provocaria inevitavelmente uma grande alteração dos ritmos das pessoas em relação aos ritmos da natureza", diz Andrei Panin, da Faculdade de Geografia da Universidade de Moscou. "Por exemplo, as pessoas teriam que trabalhar, despertar, quando ainda fosse noite. Isso gera custos em termos de iluminação, eletricidade. Precisamos ter um grande número de zonas horárias na Rússia".

Na China, todos os serviços do governo espalhados pelo país ainda têm que operar segundo a hora de Pequim, ainda que durante os meses de inverno só amanheça às 10h nas províncias ocidentais. Porém, existe uma resistência regional, especialmente em Xinjiang, onde a população uighur dominante irrita-se com aquilo que considera um símbolo do governo inflexível de uma capital que fica 2.000 quilômetros ao leste.

Muitos uighures utilizam o seu próprio sistema, duas horas atrasado em relação a Pequim. Na década de setenta, autoridades do Partido Comunista tentaram proibir essa prática, mas desistiram após alguns anos. Embora os departamentos governamentais utilizem o horário de Pequim, algumas escolas funcionam de acordo com o relógio uighur - e o sistema de ônibus usa ambos os sistemas. Nos aeroportos da região, um anúncio lembra aos viajantes que a aviação é regida pelo horário oficial.

O motivo para a padronização de horário foi a necessidade de um transporte público confiável. Até o início do século 19, todos operavam segundo o seu próprio horário local, normalmente derivado de mostradores solares e exibidos em relógios de igrejas e outros prédios públicos. O meio-dia em Bristol, por exemplo, era dez minutos atrasado em relação ao de Londres.

Isso não tinha importância quando as pessoas viajavam devagar em veículos puxados por cavalos, mas para as ferrovias que tentavam organizar horários confiáveis para viagens mais rápidas, as variações locais eram motivo de frustração. A pioneira ferrovia Great Western Railway padronizou o seu horário segundo a Hora Média de Greenwich em 1840 - enfrentando a oposição das cidades que desejavam preservar os seus próprios horários. Outras companhias do Reino Unido seguiram o exemplo, ajudadas pela introdução do telégrafo, que podia transmitir sinais com a hora de Greenwich ao longo das ferrovias. O Parlamento deu à Hora Média de Greenwich o status de horário britânico oficial em 1880.

Um processo semelhante ocorreu em outros locais, mas, em países muito grandes para funcionarem sem uma única zona horária, a padronização foi mais difícil. Com um relógio de 24 horas, o mundo pode a princípio ser dividido em 24 zonas iguais, cada uma delas compreendendo 15 graus de longitude. Porém, fatores geográficos e políticos introduziram complexidade nesse sistema.

Assim como no Reino Unido, nos Estados Unidos as ferrovias também desempenharam um papel fundamental na eliminação de horários municipais e estaduais conflitantes que não só confundiam os passageiros mas também causaram pelo menos um acidente fatal, quando os maquinistas de dois trens que trafegavam na mesma linha acertaram os seus relógios segundo horários locais diferentes. As ferrovias superaram as suas diferenças na Convenção Geral do Tempo de Chicago, em 1883, que fez com que as zonas horárias dos Estados Unidos passassem a se basear no cada vez maior consenso internacional segundo o qual o "meridiano inicial" - zero grau de longitude - deveria consistir em uma linha imaginária que passasse pelo Observatório Real de Greenwich, no sudeste de Londres. Em 1884, a Conferência do Meridiano Internacional, em Washington D.C., endossou Greenwich como o meridiano inicial - e só a França manifestou objeções sérias à escolha.

Anomalias como zonas que tinham uma diferença de "x horas e 30 minutos" em relação à Hora de Greenwich surgiram desde o início, e multiplicaram-se nos últimos 125 anos. A mais recente ocorreu em 2007, quando o presidente Hugo Chávez instituiu na Venezuela uma zona própria, quatro horas e meia atrasada em relação a Greenwich. "Este é um bom exemplo de uma pessoa tomando uma decisão de cunho político - demonstrando que ela tem realmente controle sobre as vidas das pessoas ao modificar o sistema de tempo a que estas estão sujeitas", opina Jonathan Betts, um especialista em relógios de Greenwich. "Eu não acredito que possa haver um benefício prático real em modificar uma zona horária em 30 minutos".

Os cientistas que estudam a interação entre o relógio biológico humano e o horário oficial dizem que os dois deveriam ser sintonizados da forma mais próxima possível. "O nosso relógio biológico é ajustado segundo o ciclo natural de luz e escuridão manifestado no dia e na noite - e ele sempre dominará o relógio oficial", afirma o professor Russell Foster, da Universidade de Oxford. Ele acrescenta que zonas horárias nas quais o meio-dia no relógio encontra-se mais de duas horas adiantado ou atrasado em relação ao meio-dia solar não são boas para a saúde.

A implicação para a Rússia é que uma ou duas zonas horárias poderiam ser eliminadas sem que isso provocasse sérias consequências, segundo Sergei Smirnov, diretor do Instituto de Políticas Sociais e Programas Sociais e Econômicos de Moscou: "Mas se tivermos menos do que oito zonas horárias, estaremos indo de encontro às leis da geografia e da natureza. Isso poderia levar a uma catástrofe social".

Till Roenneberg e os seus colegas da Universidade Ludwig-Maximilians, em Munique, realizaram o maior estudo sobre o "jetlag social" provocado por uma falta de sintonia entre o relógio biológico e o relógio externo (social). "Os nossos resultados sugerem fortemente que o relógio circadiano humano depende do horário do sol, e não do horário social", diz ele.

Os efeitos podem ser ilustrados ao se comparar os ritmos diários de pessoas em um país que tenha uma única zona horária. Os estudos do professor Roenneberg na Alemanha e na Índia demonstram que as pessoas seguem uma escala de sono, despertar e alimentação que é em média vários minutos atrasada no oeste do país, em relação à escala adotada na região leste.

À medida que se viaja para o oeste ao longo da zona de Horário Central Europeu, os horários das refeições ficam cada vez mais atrasados, chegando a um clímax na Espanha, onde o jantar tem início tipicamente às 21h30. Em Portugal, onde os relógios utilizam a Hora de Greenwich, e não o Horário Central Europeu, o jantar começa tipicamente uma hora antes do que na Espanha, segundo o relógio, mas, de acordo com o sol, no mesma horário.

O horário de verão - que consiste em adiantar o relógio na primavera e atrasá-lo no outono para aproveitar ao máximo a luz do dia ao final das tardes de verão - é polêmico desde que foi promovido pelos seus defensores no início do século 20, e a seguir introduzido na maior parte da Europa e da América do Norte como medida para economizar energia durante a Primeira Guerra Mundial. Tentativas de acabar com os inconvenientes e incômodos provocados pela mudança dos relógios tiveram início assim que a guerra terminou. Alguns defensores de mudanças desejavam um horário de verão durante o ano inteiro, enquanto outros queriam um horário de inverno permanente.

A força desses grupos de lobby geralmente equilibrava-se, de forma que o ritual de duas vezes por ano continua em muitas áreas distantes dos trópicos. Entretanto, o potencial atual para economia energética é pequeno. A companhia russa de eletricidade RAO UES estima que economiza apenas 30 quilowatts hora de energia por pessoa, ou 0,5% do consumo médio anual do país.

Enquanto isso, os cientistas afirmam que pesquisas recentes em cronobiologia revelam que há perigos para a saúde quando se adianta ou atrasa o relógio. Embora um ajuste de uma hora pareça pequeno quando comparado com outras mudança enfrentadas pelos viajantes aéreos, o impacto total é significante porque a população inteira é afetada. Vários estudos revelaram um aumento significativo de acidentes na semana seguinte à mudança de horário - especialmente quando os relógios são adiantados e as pessoas "perdem" uma hora de sono.

Por exemplo, psicólogos da Universidade Estadual de Michigan, que analisaram acidentes registrados pela Administração de Segurança e Saúde de Minas dos Estados Unidos de 1983 a 2006, descobriram em que foram perdidos em média 2.649 dias de trabalho devido a uma quantidade extra de lesões ocorridas na segunda-feira seguinte à mudança para o horário de verão -, o que significou um aumento de 68% em relação a uma segunda-feira típica. O mesmo estudo, publicado no periódico "Journal of Applied Psychology", revelou que os norte-americanos dormem em média 40 minutos menos na noite de domingo que se segue ao adiantamento dos relógios. Conforme diz o professor Roenneberg: "Os cronobiólogos não acreditam em mudança de relógios porque isso só faz aumentar o jetlag social".

E especialistas em tempo como Betts, do Observatório Real de Greenwich, também não acreditam. Ele afirma: "Os relógios devem ser mantidos o mais próximos possíveis da hora solar durante o ano inteiro. As pessoas não devem ser obrigadas pelo relógio a acordar mais cedo no verão. Elas deveriam poder ter um controle sobre as próprias vidas".

Precisão atômica: Quando a precisão é uma decisão política
O mundo eletrônico - com as suas telecomunicações, computadores digitais e navegação por satélite - exige o registro da hora com uma precisão bilhões de vezes maior do que os pioneiros vitorianos da padronização dos relógios poderiam ter imaginado.

A física quântica, com o uso de um relógio atômico, é um elemento fundamental. O tempo é medido pela frequência constante da radiação emitida quando elétrons movem-se entre níveis diferentes de energia nos átomos do metal césio. O primeiro relógio de césio, apresentado em 1955 no Laboratório Nacional de Física do Reino Unido, tinha uma precisão de um segundo em 300 anos. A próxima geração de instrumentos deverá ter uma precisão de um segundo em um período equivalente ao tempo de existência do universo.

No entanto, o mundo real não está vinculado a um registro tão preciso do tempo. A rotação da Terra, que controla a duração do dia e da noite, varia como resultado dos movimentos imprevisíveis do material derretido que encontra-se no núcleo do planeta. A Hora Universal Coordenada, o padrão internacional, é mantido com uma precisão de um segundo em relação ao horário astronômico, com a inserção de um "segundo extra" no calendário. Isso aconteceu mais recentemente no início de 2009. Ninguém sabe quando será novamente necessária uma nova introdução de um segundo.

Mas, assim como tudo mais vinculado a mudanças de horário, "os segundos extras são uma questão bastante política", afirma Peter Whibberley, do Laboratório Nacional de Física. Os Estados Unidos, a França, a Rússia, a Alemanha e a Itália desejam que esta prática seja abandonada, enquanto que o Reino Unido e a China, em uma aliança improvável, desejam mantê-la. Assim, a União Internacional de Telecomunicações da Organização das Nações Unidas (ONU), que teria que aprovar a mudança, permanece paralisada.

O principal argumento em favor da abolição é que a adição de um segundo extra em momentos imprevisíveis é uma medida cara e perturbadora, e que pode ser perigosa para sistemas como o controle de tráfego aéreo. Mas os defensores desse acréscimo desejam manter o vínculo entre os relógios e a rotação da Terra, um fenômeno usado inicialmente para o registro do tempo. Esse vínculo é uma exigência legal no Reino Unido e outros países. Além disso, para o Reino Unido, a abolição desse vínculo enfraqueceria o status da Hora Média de Greenwich. Uma solução intermediária - deixar que a diferença entre a Hora Universal Coordenada e a hora astronômica se acumulasse e, depois, inserir uma "hora extra" daqui a séculos - foi criticada como sendo um artifício para escamotear a abolição do sistema atual.

Com certeza veremos a adição de mais alguns segundos extras no atual sistema antes que o problema seja resolvido.

Charles Clover, em Moscou, e Geoff Dyer, em Pequim, contribuíram para esta matéria.

Tradução: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos