Rússia: ex-agentes da KGB começam a perder força no governo

Charles Clover

Apesar da mão do Kremlin de Vladimir Putin permanecer forte, o recuo acentuado por parte das autoridades de segurança de sua era aponta para um progresso no estabelecimento de uma sociedade civil democrática

O aforismo russo de que "o Kremlin tem muitas torres" é um comentário não apenas sobre sua arquitetura, mas sobre as rivalidades presentes no regime que o ocupa -mantendo um verniz externo de rigidez autocrática, mas ainda assim agitado pelas disputas territoriais burocráticas.

Desde o início da década, a mais alta torre pertencia aos chamados "siloviki", os ex-oficiais - homens da segurança, soldados e espiões- que tomaram as estruturas do Estado no rastro de Vladimir Putin, um ex-oficial da KGB, presidente por dois mandatos e atualmente primeiro-ministro.
  • SERGEI CHIRIKOV/EFE

    Chamados de "siloviki", os ex-oficiais e espiões da KGB ganharam força durante o governo de Vladimir Putin, que discursa em Moscou durante evento do setor de energia. Na ocasição, os ex-agentes chegaram a ocupar 32% dos cargos de confiança do governo. Agora, após a entrada de Dmitry Medvedev, a proporção dos "siloviki" caiu para menos da metade


Mas com o fim da presidência de Putin em 2008, os siloviki recuaram. A representação deles nos altos escalões do governo diminuiu pela primeira vez em 20 anos, colocando um ponto de interrogação a respeito de seu futuro.

Segundo Olga Kryshtanovs­kaya, uma socióloga da Universidade de Moscou que monitora os grupos da elite, os siloviki -literalmente "os caras fortes"- chegaram ao seu apogeu em 2007, quando representavam dois entre três membros do governo do presidente Putin. Mas após a ascensão de Dmitry Medvedev ao cargo, eles caíram a menos de um entre dois; a representação deles em outras áreas também caiu.

Kryshtanovskaya está entre aqueles que acreditam que essa mudança pode significar uma mudança gradual para um governo civil e um "zeitgeist" mais liberal entre a elite. "Sob Putin, as pessoas dos serviços especiais ficaram em primeiro lugar, mas para eles aquilo era incomum, fora do padrão", ela diz. "Eles não estavam acostumados aos holofotes. E agora eles todos voltaram às sombras, voltaram ao segundo lugar."

Igor Yurgens, um conselheiro de Medvedev, também vê um "degelo" gradual com o recuo constante dos siloviki. "A sociedade civil agora está ocupando um papel mais visível do que durante 2000 a 2008, o período da chamada 'verticalização do poder', na qual os métodos dos siloviki foram colocados em prática. Eu diria que a influência deles está enfraquecendo gradualmente."

Muito dependerá das próprias intenções de Putin, que são difíceis de interpretar. Apesar de ter cedido a presidência, ele continua sendo considerado por unanimidade a figura mais poderosa na política russa. Apesar dele, mais do que qualquer outra pessoa, ter sido responsável pelo ingresso dos oficiais da segurança no governo, sua escolha por Medvedev como sucessor indica que ele próprio pode ter considerado os siloviki como detentores de muito poder e desejou podar a influência deles.

Medvedev, por sua vez, parece cada vez mais confiante e, pelo menos em público, projeta a aura de um degelo político iminente -ele tem defendido reformas eleitorais modestas e tem criticado duramente o partido político hegemônico Rússia Unida, comandado por Putin, de manipulação das eleições locais. Ele também começou a purgar altos funcionários do Ministério do Interior depois que o advogado Sergei Magnitsky morreu na prisão, em novembro, em circunstâncias suspeitas. A posição do presidente lhe dá grande autoridade constitucional, apesar de Putin possuir muito mais influência nos bastidores do que seu protegido.

Kryshtanovskaya compara a situação a outro ditado popular dos tempos soviéticos: "O comissário permanece ao lado do comandante". Isso significa que o vice do chefe não necessariamente é o menos poderoso dos dois. "Todo comandante tinha um vice da KGB, cujo trabalho era espioná-lo. Este ainda parece ser o modelo", ela diz. Muitos siloviki, apesar de aposentados, supostamente ainda trabalham na reserva e, portanto, estão sujeitos à cadeia de comando ao estilo militar, segundo Vladimir Pribylovsky, um cientista político.

Mas Aleksei Kondaurov, um ex-general da KGB, diz que apesar do número de siloviki nos altos escalões do Estado ter claramente crescido nos últimos anos, isso não significa que eles formam uma frente unida. "Eu não diria que os siloviki possuem uma mesma visão de mundo. Alguns deles ingressaram nos negócios. Outros adotaram a religião. Alguns se tornaram cleptocratas. Não há muito que possa distingui-los de outros grupos no governo", ele acrescenta. Um ex-alto funcionário do Kremlin diz: "Eles não são monolíticos. Eles passam tanto ou mais tempo lutando uns contra os outros quanto outros grupos".

Todavia, os siloviki de Putin deixaram uma marca considerável no desenvolvimento político da Rússia. Seus esforços para assegurar o poder são comparados a alguns analistas a um "golpe de Estado suave", que transformou a Rússia de uma democracia emergente a um Estado novamente baseado na hierarquia e no paternalismo. "Eles trouxeram uma estrutura autoritária, onde não há democracia e não há discussão", diz Kryshtanovskaya. "Eles estão acostumados a receber ordens e não discutir essas ordens. Eles não estão inclinados aos métodos democráticos de governo."

O recuo da democracia foi acompanhado por um programa ideológico conservador que lembrava o do czar Alexandre 3º, um reacionário que, como a rainha Vitória, definiu uma era. Ele transformou a "autocracia, o cristianismo ortodoxo e o nacionalismo" nos três pilares de seu reinado, na segunda metade do século 19.

Putin presidiu em meio ao ressurgimento do patriotismo e do cristianismo ortodoxo, e se diz profundamente religioso -apesar de ter servido em uma KGB que era dedicada à ideologia ateísta do Estado. Seu círculo de siloviki é chamado de "chekistas ortodoxos" (o nome da polícia secreta dos tempos revolucionários) e, em 2002, muitos contribuíram com dinheiro para a restauração de uma igreja vizinha ao Lubyanka, o quartel-general da KGB e do atual Serviço Federal de Segurança, seu sucessor. O primeiro-ministro e outros altos siloviki se reúnem regularmente com o arquimandrita Tikhon Shevkounov, um monge conservador que comanda um mosteiro próximo do Lubyanka.

Mas em um mundo moderno de centros de poder difusos e mídia de massa, os métodos dos siloviki podem não ser tão eficazes quanto eram em um Estado totalitário fechado como a União Soviética -a elite russa já compreendeu que governar uma nação moderna, com interesses no exterior, não pode ser feito longe dos holofotes. Os dias em que uma palavra discreta, ou um telefonema para a pessoa certa, podia controlar os assuntos do governo se foram -e apesar de Putin ser um showman natural, com um instinto para a televisão, há poucos homens na KGB tão dotados para o papel de uma figura pública como ele. Como coloca Daniil Dondurei, um crítico de cinema: "Todo mundo entende que a televisão é a principal instituição para a governança do país. Não é o exército, não é o serviço secreto, nem as autoridades de manutenção da lei, mas sim a TV".

A decisão de Putin de deixar a presidência e se tornar primeiro-ministro foi acompanhada de papéis menos influentes dados a alguns de seus principais tenentes. Igor Sechin, supostamente um ex-oficial de inteligência que foi tradutor militar em Moçambique e Angola durante os anos 80, era o primeiro vice-chefe de gabinete de Putin, mas agora é um mero vice-primeiro-ministro, apesar de manter seu posto como presidente do conselho da Rosneft, a empresa estatal de petróleo. Viktor Ivanov, que também teria sido um agente da KGB, era o assessor de Putin responsável por virtualmente todas as decisões de escolha de pessoal para o governo, mas agora passou a uma comparativa obscuridade como chefe do órgão federal de combate aos narcóticos.

Apesar de ambos permanecerem influentes nos bastidores, segundo um ex-alto funcionário do Kremlin, a fonte do poder deles era seu acesso diário a Putin, o que diminuiu. "Aquele era o recurso básico deles, que é menor agora", ele diz. O único silovik que foi promovido desde 2008 é Sergei Naryshkin -outro ex-oficial da KGB, segundo a imprensa- que agora é chefe do gabinete do presidente para, segundo presume a maioria das pessoas, ficar de olho em Medvedev.

O grande número de homens da segurança no poder é uma reversão do status quo durante a União Soviética -o governo soviético transformou o controle civil sobre os ministérios de segurança uma prioridade e até 40% dos postos nos altos escalões da KGB, durante seus últimos anos, eram ocupados por civis, todos membros do Partido Comunista.

Assim os siloviki se beneficiaram com o fim do comunismo, que abriu a porta para que chegassem ao Poder Executivo. Kryshtanovskaya monitorou meticulosamente esta tendência*: em 1988, sob a União Soviética, apenas 5,4% dos cargos do governo eram ocupados por militares e homens da KGB. Em 1993, o número subiu para 11%; em 1999, a representação deles dobrou de novo para 22%; e, em meados do primeiro mandato de Putin, a proporção era de 32%.

Poucos têm ideia de como será a longo prazo. Apesar do atual degelo, muitos duvidam que os siloviki desaparecerão tão cedo. "Eles roubaram demais. Não há como abrirem mão do poder -é arriscado demais", diz Pribylovsky, o cientista político.

O próprio degelo pode ser temporário, à medida que o regime tenta adotar uma face mais atraente em meio às dificuldades resultantes da crise financeira. Muitos acham que Putin está destinado a retornar à presidência nas eleições de 2012, quando Medvedev deverá deixar o cargo. Outros consideram mais permanentes as mudanças que estão ocorrendo agora. Assim como as juntas militares em países como a Turquia e a Argentina ao final se convenceram de que era hora de dar lugar a um governo civil, após o caos na sociedade ser controlado, o mesmo pode estar acontecendo na Rússia.

Yurgens diz que o afluxo de ex-oficiais era inevitável após o caos econômico dos anos 90, quando o crime organizado se apossou dos ativos privatizados e do poder político, e as forças federais foram derrotadas na primeira guerra desastrosa na Tchetchênia. "Era inevitável após nosso conflito na Tchetchênia e com a máfia tomando o poder político -foi um processo que era necessário", diz o conselheiro de Medvedev.

Mas o final da segunda guerra na Tchetchênia, o restabelecimento do controle federal sobre o Cáucaso e a gradual estabilização da economia russa representaram um ponto de virada para os siloviki, ele acrescenta. "Agora a missão deles está praticamente encerrada."

*"A Militocracia de Putin", por Olga Kryshtanovskaya e Stephen White. "Post-Soviet Affairs", 19/04/2003

Vidas como espiões e acólitos políticos: uma seleção dos siloviki
Quem são os ex-agentes da KGB ligados ao governo

Viktor Ivanov
Considerado um dos principais aliados de Vladimir Putin. Trabalhou na KGB a partir do final dos anos 70 e conheceu o futuro presidente nos anos 90, quando era chefe de gabinete do prefeito de São Petersburgo, enquanto Putin era o vice-prefeito. De 2000 a 2008, Ivanov foi um assessor chave de Putin, responsável por quase todas as escolhas de pessoal para os cargos do governo. Após Putin deixar a presidência, em 2008, ele passou a comandar a agência federal de combate aos narcóticos.

Sergei Naryshkin
Chefe de gabinete do presidente Dmitry Medvedev desde 2008. Segundo uma entrevista para jornal, Naryshkin frequentou a mesma classe de Vladimir Putin no instituto KGB, se formando em 1985. Mas em sua biografia oficial, Naryshkin não menciona a KGB e nem a polícia secreta soviética.

Igor Sechin
Ex-tradutor militar especializado em português, ele teria trabalhado para a inteligência estrangeira soviética enquanto estava estacionado no sul da África nos anos 80, segundo a imprensa, e então trabalhou para Putin quando era vice-prefeito de São Petersburgo nos anos 90. De 2000 a 2008, ele foi o primeiro vice-chefe de gabinete do presidente, controlando o acesso a Putin. Após a eleição de Medvedev, ele foi relegado a vice-primeiro-ministro. Desde 2004, ele também é presidente do conselho diretor da Rosneft, a companhia estatal de petróleo.

A curiosa conexão entre o clero e a KGB

"A Igreja de Sofia, a Divina Sabedoria... em Lubyanka, foi recriada com a bênção do patriarca de Moscou e de Toda a Rússia, e pelo zelo do Serviço Federal de Segurança." É o que diz uma placa no muro de uma igreja que fica ao lado do prédio que antes abrigava a polícia secreta soviética, a KGB -uma ironia suprema da história, dado que a polícia secreta soviética prendeu e executou dezenas de milhares de padres.

Outras evidências do relacionamento curioso entre os espiões da Rússia e a Igreja Ortodoxa podem ser encontradas na mesma rua do quartel-general da antiga KGB e de seu atual sucessor, o Serviço Federal de Segurança. É nela que fica o Mosteiro Sretensky. O lugar também possui uma recepção que funciona ao estilo de um ministério do governo, o que é incomum em um mosteiro ortodoxo russo -ou em qualquer mosteiro.

Ele também serve como sede espiritual dos "chekistas ortodoxos", um grupo conservador de ex-espiões ("chekistas" é um apelido que vem de "Ch K", a sigla russa para Comitê de Emergência, o órgão antecessor da KGB) que cerca Vladimir Putin, o primeiro-ministro e ex-presidente.

Com o aumento da frequência à igreja em toda a Rússia, os chekistas ortodoxos ganharam força por um revival religioso semelhante ao que fortaleceu os conservadores religiosos na Casa Branca americana, durante o mandato do presidente George W. Bush. Um analista se refere ao mosteiro como o "departamento de ideologia" do Kremlin, combinando o campo intelectual de um centro de estudos com o sigilo da organização católica conservadora Opus Dei.

Representantes da Igreja confirmam que o arquimandrita Tikhon Shevkounov é um associado de Putin e que até atua como seu confessor -uma posição que o torna um dos membros do clero mais influentes do país.

O monge conservador é famoso por produzir um documentário de televisão a respeito da queda do Império Bizantino, que culpa as intrigas da Europa Ocidental -em vez da invasão dos turcos otomanos- pelo fim do império e alertava que as mesmas forças estavam atuando na Rússia.

Shevkounov, em uma entrevista para a televisão, riu diante da sugestão de que ele influencia o primeiro-ministro Putin, mas mesmo assim sua posição, assim como a de outros membros conservadores do clero, ascendeu rapidamente.

"Sorte não salva um Estado... É necessário conceber um governo que possa excluir governantes fracos", ele disse recentemente a uma revista americana de assuntos religiosos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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