Como um agente triplo da Al Qaeda superou o melhor da CIA

Matthew Green

Há pouco mais de um ano, um visitante em um site de radicais islâmicos postou um comentário ao lado de uma foto de duas mulheres muçulmanas, que jaziam em poças de sangue. "Qualquer um que vê uma foto dolorosa dessas e não correr para lutar deve considerar sua masculinidade e hombridade mortas", dizia a mensagem.

  • AP Photo/Al-Ghad

    Imagem sem data divulgada pelo jornal jordaniano Al-Ghad mostra Humam Khalil Abu-Mulal al-Balawi, agente triplo que matou sete agentes da CIA no Afeganistão em 30 de dezembro de 2009

Empregando paciência, subterfúgio e, no final, autossacrifício, que lhe valeram um respeito a contragosto até mesmo de seus adversários, Humam Khalil Abu-Mulal al Balawi, um médico jordaniano que era um agente triplo, se manteve fiel à sua palavra.

Tendo convencido alguns dos maiores especialistas em Al Qaeda da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos de que poderia rastrear os líderes do grupo terrorista, ele entrou na base deles no Afeganistão sem ser revistado, aguardou até suas vítimas se reunirem e então detonou seu colete repleto de explosivos.

A morte resultante de sete agentes da CIA, incluindo uma mulher, representou um golpe de propaganda para a Al Qaeda, permitindo à rede declarar que superou seu adversário mais implacável.

A história de como o jordaniano de 32 anos venceu um jogo complexo de espionagem, contra pessoas enormemente mais experientes, revela o nível de sofisticação atingido pela Al Qaeda.

"Para ser direto, esta foi uma operação brilhante", disse Fred Burton, um ex-agente de contraterrorismo americano e atualmente vice-presidente de inteligência da Stratfor, a empresa de inteligência global. "Eles poderão usar isso para recrutamento, para arrecadação de fundos, para apregoar seu sucesso."

Como os sequestradores suicidas que executaram os ataques de 11 de setembro de 2001, Al Balawi era um radical migrante, com formação superior. Nascido no Kuwait de uma família jordaniana de classe média, descendente de palestinos, ele estudou medicina em Istambul, onde conheceu sua esposa, Defne Bayrak. "Nós tínhamos uma vida rotineira lá; ele não era uma pessoa que saia com frequência", ela disse à agência de notícias "Dogan" da Turquia. "Mas eu conhecia suas inclinações."

Em sua educação e posição social, Al Balawi não difere muito de Umar Farouk Abdulmutallab, o nigeriano formado na University College London que foi acusado de tentar destruir um avião de passageiros sobre Detroit, no Natal. Al Balawi contribuía para sites radicais antes de retornar à Jordânia, onde dirigia uma clínica em um campo de refugiados palestinos, perto da cidade de Zarqa. Em março do ano passado, ele foi preso pelo Departamento de Inteligência Geral jordaniano, que monitorava suas postagens.

Mas os agentes que detiveram Al Balawi acreditaram que o tinham "convertido" em um ativo. Em troca de sua liberdade, ele concordou em trabalhar para a inteligência jordaniana e recebeu uma missão da maior sensibilidade.

A tarefa de Al Balawi era viajar ao Afeganistão e ingressar na Al Qaeda, se passando por um voluntário árabe. Assim que se infiltrasse na rede terrorista, ele ajudaria os agentes da CIA no Afeganistão a rastrear os principais líderes da Al Qaeda, incluindo Ayman al Zawahiri, o segundo-em-comando de Osama Bin Laden.

Al Balawi partiu para o Afeganistão e, assim que se posicionou, parecia estar mantendo seu lado da barganha, repassando informação valiosa. Ele também continuou postando ensaios antiamericanos virulentos, usando o nome de guerra "Abu Dujana al Khorasani".

A CIA aparentemente aceitou isso como parte do disfarce do agente. A possibilidade desses comentários online refletirem suas opiniões reais parece ter sido descontada. Após lustrar sua credibilidade, Al Balawi então indicou que tinha se encontrado com Al Zawahiri, o segundo mais procurado líder da Al Qaeda.

Quando foi acertado que Al Balawi informaria seus empregadores na Base de Operações Chapman, uma instalação militar americana na província afegã de Khost, no leste, cinco dos agentes mais experientes da CIA, dois de seus guarda-costas e o supervisor jordaniano do agente, Sharif Ali bin Zeid, compareceram.

Quando ele detonou sua bomba suicida, ele infligiu o golpe mais duro contra a CIA desde que oito agentes morreram no atentado a bomba contra a embaixada americana em Beirute, em 1983.

O ataque da Al Qaeda desafiou as previsões de que o grupo tinha sido em grande parte contido. Jim Jones, o conselheiro de segurança nacional americano, disse em outubro que a Al Qaeda contava com menos de 100 combatentes no Afeganistão e não tinha bases a partir das quais lançar ataques.

Essa confiança foi inspirada em parte pelos muitos ataques com aviões não-tripulados, que mataram pelo menos 11 dos 20 principais líderes da Al Qaeda, segundo o Projeto de Segurança Americano em Washington.

Agora, o sucesso da Al Qaeda em ferir a CIA pode revigorar sua franquia. "Muitos muçulmanos verão a Al Qaeda como um pequeno Davi desafiando Golias", disse Abdel Bari Atwan, editor do "Al-Quds al-Arabi", um jornal árabe com sede em Londres, que entrevistou Bin Laden em 1996.

"A Al Qaeda ainda é muito ativa, ainda é muito poderosa e ainda é muito eficiente."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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