Fantasma de Pinochet paira sobre os votos da direita na eleição no Chile

Jude Webber Em Santiago (Chile)

O prédio é bonito e elegante, mas tudo dentro do novo Museu da Memória e dos Direitos Humanos do Chile é um lembrete doloroso dos dias sombrios dos 17 anos de ditadura militar do país.

Vítimas como a mulher de 88 anos, cujas pálpebras foram arrancadas quando os guardas de Pinochet a vendaram com fita adesiva, famílias ainda lamentando parentes que "desapareceram" e crianças aprendendo sobre o passado percorrem o museu desde sua inauguração nesta semana, dias antes da eleição presidencial de domingo, em que a direita está perto de voltar ao poder.

Se Sebastián Piñera, um empresário bilionário, repetir sua vitória no primeiro turno sobre Eduardo Frei, um ex-presidente, ele colocará um fim a 20 anos de governo de uma coalizão esquerdista, que está no poder desde que o Chile retornou à democracia. Também seria a primeira vitória da direita nas urnas desde 1958.

  • EFE e AP

    À esquerda, Sebastián Piñera cumprimenta eleitores; à direita, Eduardo Frei mostra o seu
    dedo manchado de tinta, após votar no 1º turno das eleições chilenas em dezembro de 2009



O magnata grisalho das finanças e da aviação, de 60 anos, está anos-luz distante do sinistro general cujo golpe em 1973, e governo com mão-de-ferro, deixou mais de 30 mil mortos. Ele não mediu esforços para destacar que votou pelo "não" no referendo de 1988 para extensão do governo de Pinochet.

Mas muitos eleitores estão preocupados com o fato de alguns dos conselheiros de Piñera terem ocupados cargos públicos na ditadura, podendo conduzi-lo a uma posição mais linha-dura. Alguns de seus eleitores, como o homem que acenava uma bandeira com o rosto de Pinochet em um comício nesta semana, permanecem defensores do general falecido.

Isso pode explicar porque o homem mais rico do Chile tem tido dificuldade para expandir a base de poder da direita. Apesar da vantagem confortável de Piñera no primeiro turno da eleição, em dezembro, obtendo 44% dos votos contra 29% de Frei, ele agora enfrenta uma votação apertada no domingo, contra um adversário que está buscando um retorno.

"Quando dizem que se chegarmos ao governo será o fim dos programas sociais e de emprego, será a morte da cultura, que o mar vai secar e o sol vai se apagar, estas são mentiras que estão sendo tão repetidas que as pessoas acabam acreditando, acabam ficando com medo da possibilidade", reconheceu Piñera nesta semana.

Uma nova pesquisa Mori prevê uma disputa apertada, com Piñera com 50,9% e Frei com 49% dos votos.

Roberto Ossandón, que dirigiu a campanha de Piñera em 2005, diz que o empresário e ex-senador se tornou complacente diante de seu sucesso no primeiro turno. "Piñera pode perder, mas ele não quis ver isso", disse Ossandón.

Mas ele acredita que se Piñera for eleito, os eleitores não devem subestimar sua capacidade de cumprir suas ambiciosas promessas de campanha, incluindo a criação de 1 milhão de novos empregos e um crescimento econômico de 6% ao ano. "Ele é incansável e perseverante para obter o que deseja", disse Ossandón.

Piñera se considera uma pessoa sem rodeios e disse em um artigo biográfico, publicado pelo jornal "El Mercurio" no mês passado, que ele aprendeu rapidamente com seus cinco irmãos que "esconder minhas emoções e ser duro poderia ser uma boa estratégia de sobrevivência. Eu acho que isso explica boa parte de meu caráter".

Apesar da fortuna de Piñera ser estimada em US$ 1,2 bilhão, ele não é ostentoso. Ele usa um relógio de plástico colorido, mora em uma boa casa, mas não palaciana, tem um helicóptero, mas não um modelo chamativo, e os colegas dizem que ele é cauteloso com o dinheiro a ponto de ser frugal.

"O que o move não é o dinheiro. O que importa para ele é vencer, fazer bem as coisas, ser um sucesso, ser o melhor da classe", disse José Miguel Barros, um alto diretor do LarraínVial, o maior banco de investimentos da China, que já participou do conselho com Piñera.

Com seu doutorado em economia, ele construiu um império que inclui o time de futebol mais popular do Chile, o Colo-Colo. Isso, mais uma suposta cirurgia cosmética nos olhos, provocou comparações com o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, apesar de Piñera ter concordado em colocar seus investimentos em um "blind trust" (fundo sem identificação do detentor, sobre o qual não teria ingerência).

Sorrindo nos outdoors coloridos da campanha, sua promessa central é mudança após duas décadas de governo da coalizão Concertación, que está tomada por disputas internas e é amplamente vista como estagnada.

Mas a história da direita pode ser um problema. Muitos chilenos temem que suas promessas de emprego sejam vazias e que Piñera provará ser um péssimo ouvinte, sem capacidade de delegar.

Todavia, alguns chilenos estão dispostos a arriscar. "Eu vou votar em Piñera apesar de sempre ter votado na esquerda", disse Jorge Ruíz, ao visitar o Museu da Memória. "Eu acho que Piñera tem uma grande oportunidade de mostrar que a direita mudou."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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