Setor de beleza está virando cabeças no Brasil

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

O sucesso das vendas em guetos transformou o país em um dos maiores mercados mundiais

Em seu salão de cabeleireiro em Paraisópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, Valderan Souza está entusiasmado com a situação atual de seu mercado. Ele diz que sua renda aumentou 80% nos últimos três anos. "Eu nunca sairia daqui", ele diz. "Há muitas clientes."

  • Henrique Manreza/Folha Imagem - 15.dez.2008

    Mulheres brasileiras gostam de gastar com si

Souza costumava trabalhar em um salão de luxo em um dos shopping centers mais elegantes de São Paulo, mas ele disse que pode ganhar muito mais em Paraisópolis.

As favelas do Brasil costumavam ser guetos onde viviam os mais pobres dos pobres urbanos. As condições de vida muitas vezes ainda são duras, mas as favelas também abrigam muitos dos novos consumidores brasileiros, mais de 20 milhões dos quais saíram da pobreza nos últimos seis anos. Desde o ano passado, mais da metade dos 200 milhões de habitantes do Brasil foram classificados como de renda média.

O crescimento resultante no mercado de cosméticos brasileiro, juntamente com a recente recessão nos EUA, fez dele o maior do mundo para a Avon, o grupo de cosméticos por venda direta dos EUA, desde o terceiro trimestre do ano passado. A Avon disse que as vendas no Brasil chegaram a US$ 1,67 bilhão em 2008, comparadas com US$ 2,1 bilhões (R$ 4,9 bilhões pela taxa de câmbio do fim do ano) da Natura, a líder de mercado brasileira.

A recente transformação na vida dos brasileiros comuns deve muito à baixa inflação e à estabilidade econômica trazidas pelas políticas econômicas ortodoxas adotadas em meados dos anos 1990 - uma taxa de câmbio flutuante, metas de inflação definidas pelo Banco Central e constantes reduções da dívida pública - e à expansão dos programas de transferência de renda sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde 2003. Esses programas pagam aos pobres para manter seus filhos na escola e garantir que eles façam exames médicos.

Mas, enquanto o crescimento econômico geral do Brasil desde meados dos anos 1990 foi errático, o mercado de produtos de beleza tem aumentado constantemente mais de 10% ao ano, segundo a Abihpec, a associação setorial de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal.

  • Henrique Manreza/Folha Imagem - 1º-out.2008

    Mercado de produtos de beleza tem aumentado constantemente mais de 10% ao ano no Brasil

"O papel das mulheres na economia tem crescido constantemente", diz Alessandro Carlucci, principal executivo da Natura. "As mulheres muitas vezes são a fonte de renda da família, e quando elas começam a ter renda disponível gastam um pouco consigo mesmas."

Ele diz que apenas 40% das mulheres brasileiras têm um batom, por exemplo, por isso o potencial de crescimento continua enorme.

"A renda começou a ser redistribuída com o Plano Real [que atacou a inflação] 15 anos atrás, e desde então vimos uma curva de crescimento fantástica", ele diz.

O Brasil tornou-se o terceiro mercado mundial de produtos de beleza, depois dos EUA e do Japão. E não é só a ponta inferior do mercado que está se expandindo. Em cirurgia plástica o Brasil é hoje o segundo maior mercado mundial, depois dos EUA.

Denise Steiner, uma dermatologista cujos clientes incluem alguns dos brasileiros mais ricos e famosos, diz que o mercado de cirurgia cosmética tem se expandido desde que ela começou a praticar em 1982, especialmente nos últimos cinco anos.

"O que é realmente notável é o número de jovens mulheres que querem implantes de seios e lipoaspiração", ela diz. "A última moda são os lábios mais cheios. As brasileiras se interessam muito mais por sua aparência do que as europeias."

Carlucci, da Natura, concorda, dizendo que sua indústria é movida pela importância que as mulheres brasileiras dão a sua aparência. A população do Brasil está concentrada ao longo da costa, e portanto perto da praia, que os brasileiros frequentam o ano inteiro. Com a aproximação do verão, muitas mulheres embarcam em uma dieta e regime de beleza conhecido como "verão sem canga", que muitas vezes dura três meses ou mais.

  • Adriana Zehbrauskas/The New York Times - 27.ago.2007

    Executivo da Natura diz que apenas 40%
    das mulheres brasileiras têm um batom

Outro motor de vendas é o clima. "Mais perto do Equador você não pode passar um dia sem tomar duas chuveiradas", diz Carlucci. "Em Belém são três." Isso significa que as pessoas usam muito xampu, sabonete e outros produtos de banho.

A Natura, assim como a Avon, usa vendas diretas em vez de distribuição no varejo. As duas empresas têm mais de um milhão de representantes no país (com cerca de 30% vendendo para as duas).

Carlucci diz que seu modelo permite que a Natura constantemente lance novos produtos - 68% de suas vendas são de produtos lançados nos dois anos anteriores.

"Acreditamos que o Brasil continuará sendo um mercado exuberante", diz ele. "Este é um setor que não depende de crédito, e ainda há muito espaço para crescimento."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos