Obstáculos ainda impedem ajuda dos haitianos que moram no exterior

Alan Rappeport, Benedict Mander e Scheherazade Daneshkhu
Em Nova York (EUA), Porto Príncipe (Ha

Sem contato com seus parentes desde o terremoto da semana passada, que matou cerca de 75 mil pessoas e deixou desabrigados mais de 1 milhão, a vasta diáspora do Haiti está lutando para encontrar um modo de ajudar de longe, apesar da falta de eletricidade, comunicações e segurança bloquearem suas boas intenções.

A economia do Haiti há anos é fortemente dependente das remessas de dinheiro do exterior, que representam um quinto de seu produto interno bruto. Desde que grande parte do país foi devastada pelo terremoto, esses fundos se tornaram ainda mais críticos, mas o colapso da infraestrutura tem impedido as tentativas de doação por parte das pessoas no exterior.

Um país devastado

  • Caio Guatelli/Folha Imagem

    Vista aérea da cidade de Porto Principe mostra região atingida por terremoto de 7 graus

Essa pressão começou, em teoria, a diminuir na quinta-feira, quando os bancos começaram a reabrir em Porto Príncipe, a capital haitiana.

A realidade ainda é repleta de problemas. Katleen Felix, uma coordenadora da Fonkoze, uma agência de microfinanciamento com sede nos Estados Unidos que serve o Haiti, disse que o país enfrenta uma potencial crise de liquidez, já que o banco central é incapaz de enviar dinheiro para as agências bancárias. Apesar de metade das 42 agências da Fonkoze estar funcionando, ela disse, o cofre do banco central foi selado e logo elas ficarão sem dinheiro, a menos que venha do exterior.

Louis Danes Mackendy, que tem feito trabalho braçal no aeroporto de Porto Príncipe nos últimos três dias, ainda não foi pago.

Quer ajudar as vítimas do terremoto no Haiti?



"Encontrar trabalho é um problema, mas encontrar dinheiro é um problema ainda maior", ele disse na quinta-feira. "Se você tem família no exterior, você está em melhor situação. Mas ainda não conseguimos receber dinheiro de nossos parentes."

Paradoxalmente, o interesse em ajudar nunca foi maior. Segundo a Fonkoze, as remessas pós-crise triplicaram em comparação aos níveis durante desastres naturais causados por furações no Haiti durante a última década.

Há 1 milhão de haitianos vivendo nos Estados Unidos, 600 mil na República Dominicana, 50 mil no Canadá e 40 mil na França. O Haiti recebeu US$ 1,2 bilhão em remessas de dinheiro em 2008, segundo números do Banco Mundial. As remessas caíram nos últimos dois anos, em consequência da crise econômica, mas Manuel Orozco, um analista de imigração e remessas de dinheiro da Diálogo Interamericano, espera que elas dobrarão em 2010.


Até que o dinheiro passe a fluir abertamente, as comunidades haitianas estão procurando outros modos de ajudar seus parentes em dificuldades. O Brooklyn, Nova York, conta com o maior enclave haitiano fora do Haiti, e seu centro comunitário haitiano em Bedford se tornou um centro de atividades, onde carros cheios continuam chegando com caixas de água, latas de feijão, roupas e arroz. O pequeno escritório na frente geralmente ajuda os moradores com problemas de alfabetização e imigração, mas agora se tornou ponto de encontro para pessoas que buscam ajudar e consolar vizinhos preocupados.

"É tão difícil", disse Medjine Bataille, cuja tia de 50 anos estava se recuperando de um derrame em um hospital de Porto Príncipe quando ele desmoronou e a matou. "Pessoas que não conheço se tornaram minha família."

Bataille soube de sua tia por um primo que viajou ao Haiti para trazê-la de volta aos Estados Unidos. Ele estava no hospital com ela quando o terremoto o atingiu, mas não conseguiu salvá-la assim que o teto começou a cair.

Os moradores do Brooklyn dizem que a Nostrand Avenue, o trecho movimentado que passa pelo coração da "Little Haiti", parece assustadoramente quieta. Os comerciantes exibem um desafio silencioso, postando cartazes dizendo "Ajude o Haiti" e "Pior que o Katrina", e amontoados de velas que dizem "Descanse em Paz" se encontram espalhados pela calçada.

Na França, a comunidade haitiana está perturbada, mas seu senso de impotência inicial deu lugar à frustração. "Nós geralmente ajudamos a organizar programas de ajuda no Haiti, mas desde o terremoto nós estamos sobrecarregados de telefonemas pedindo ajuda e conselho sobre como fazer contato no Haiti", disse um voluntário no Collectif Haïti de France, um fórum com sede em Paris.

Tradução: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos